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segunda-feira, 31 de março de 2014

Um mundo de trevas?


OPINIÃO
ANTÓNIO CORREIA DE CAMPOS  (http:// www.publico.pt/autor/antonio-correia-de-campos)  31/03/2014-03:12

Os Ucranianos sentirão na pele, além do frio do próximo inverno, a penúria por perda do equilíbrio precário em que viviam.

A pata do urso. Em um escasso mês, a Europa e talvez o mundo, mudaram muito. A crise da Ucrânia, não se sabe ainda bem quem a provocou, expulsou o anterior Europeu        presidente, instalou um novo, provisório, e pode fazer regressar a anterior primeira-ministra de quem poucos tinham saudades.

Estimulada por Bruxelas e mais discretamente pela Alemanha a carne para canhão que animava as manifestações venceu as forças instaladas, mas sofreu perdas humanas consideráveis, não se sabendo ainda quem deu ordens aos atiradores furtivos, se o antigo ditador, se uma parte dos que o pretendiam substituir. Ao que parece, oligarcas reconhecidos foram,recompensados com lugares de governação. Os europeus mais generosos vibraram com uma nova revolução de veludo, que talvez seja de estopa. Como se esperava, Putin aproveitou a ocasião para acertar as fronteiras que Khrushchov havia generosamente concedido aos seus dilectos compatriotas, em 1954, isto é, englobou a Crimeia no perímetro russo.

O Ocidente - de novo estamos perante esta terminologia - tossiu, protestou e encaixou. Os EUA vieram lá de longe ameaçar os conquistadores com sanções individuais. Por enquanto só as concretizaram a alguns milionários, de quem se conhece a crónica de maus costumes. Putin promoveu um referendo que não deixa dúvidas sobre a real vontade dos habitantes da Crimeia em serem de novo russos. Mudou as leis internas para acolher o novo território, desafiou o Ocidente e levou a que três antigos chanceleres da Alemanha recomendassem cautelas e caldos de galinha. Obama andou por ai, tentou explicar aos europeus que lhes falta força militar, visitou o Papa, abençoou o novo presidente do conselho de Itália. Acicatou-nos a assinarmos o tratado de comércio e investimento com os EUA, a ele condicionando a promessa de vender à Europa, baratinho, o gás de xisto que a Europa recusa explorar, em nome de sacrossantos princípios de defesa do ambiente.

A Ucrânia recebeu a promessa de 13 mil milhões de euros do FMI, aos quais se seguirá mais um milhar de milhões dos próprios Americanos, se o Congresso concordar, e mais algum da União Europeia. As condições são ferozes, mas estão em linha com a gravidade do despautério em que a Ucrânia tem vivido. O preço do gás vai duplicar e o da gasolina quintuplicar. As pensões virão para metade e a frota de viaturas do estado vai ser leiloada. Provavelmente os preços administrados passarão a preços de mercado o que significa que transportes públicos, habitação, aquecimento, água e electricidade, educação e saúde passarão a ser pagas por valores reais. Ou seja, com vinte anos de atraso em relação às restantes repúblicas da antiga URSS, o país fará a sua entrada abrasiva na órbita do capitalismo. Duvido que queira aderir à União Europeia. Os Ucranianos sentirão na pele, além do frio do próximo inverno, a penúria por perda do equilíbrio precário em que viviam. Passarão anos a braços com o FMI e o Banco Mundial.


A crise para nós teve a vantagem de chamar a atenção da Europa para a importância dos corredores energéticos, tanto de electricidade como de gás natural. O Conselho Europeu dedicou ao tema uma parte importante da sua última reunião. A Península Ibérica fez já quase todo o trabalho de casa para que o mercado único de energia seja uma realidade; entrou a sério nas renováveis, modernizou as redes, acordou entre os países peninsulares o funcionamento de um mercado ibérico a caminho de se tornar competitivo, fez esforços denodados para abrir os Pirinéus às comunicações transfronteiriças e em matéria de gás equipou sete terminais, um deles em Sines, criou armazenamento faltando apenas concluir a ligação entre Mangualde e Zamora, já aprovada em Bruxelas, para que a rede de gás seja reversível, flexível e redundante, logo inteiramente segura. A inclusão do gás de xisto na agenda das conversas com Obama, agudiza a importância de Sines, um bom porto para acolher o gás americano se ele vier até à Europa. O que se liga com o uso do mesmo porto para o comércio marítimo com a China, quando o novo Canal do Panamá estiver operacional, evitando a dispendiosa rota do canal de Suez. Razão para, com urgência, se aprovar a linha de comboio até Badajoz.

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