domingo, 8 de julho de 2018

Há 30.747 casas à venda no Algarve

MERCADO
Maribela Freitas      07 de Julho de 2018

Os concelhos de Loulé, Albufeira e Lagos concentram 48% da oferta

O verão já começou e muitos portugueses estão de malas feitas rumo ao Algarve para as merecidas férias, já que mais de metade dos seus 16 concelhos dispõem de praia. 
E sendo esta uma zona balnear por excelência, há quem ambicione comprar aqui uma casa para dela usufruir nos momentos de lazer. 
No bpiexpressoimobiliario.pt a oferta de habitação em comercialização nesta parte do país é de 30.747 imóveis, dos quais 16.089 são moradias e 14.658 apartamentos. 
Loulé, Lagos e Albufeira, somam 14.938 imóveis, o que representa 48,58% da oferta.


No ranking dos concelhos algarvios com casas à venda, Loulé surge na dianteira com o total de 7011, sendo que 4324 são moradias e 2687 apartamentos. 
Por €590 mil pode ser adquirida uma moradia de tipologia T2+1, inserida num lote com 2600 m2, com jardim e piscina. 
Localizada na freguesia de São Sebastião, a dois quilómetros de Loulé, conta com vista sobre a serra e o mar e 150 m2 de área útil. 
Mas se em vez de uma moradia procura um apartamento e ainda neste concelho, pode optar por comprar um T2, na freguesia de Quarteira, com 96 m2 de área útil, por €250 mil. Esta casa está inserida num condomínio com piscina e situa-se perto do mar.

CASA PERTO DA PRAIA

Em segundo lugar no ranking da oferta está Albufeira, um concelho também beneficiado com praia. 
Aqui a oferta total é de 4674 imóveis, dos quais 2552 são apartamentos e 2122 moradias. Se quer ter uma casa perto do mar pode adquirir nesta parte do Algarve, na freguesia de Albufeira e Olhos de Água, um apartamento de tipologia T2, por €225 mil. 
Tem 77 m2 de área útil. 
Ainda perto da praia, pode optar por uma moradia. 
A título de exemplo está uma à venda na freguesia da Guia, de tipologia T7+1, com 436 m2 de área útil e 3480 m2 de terreno. 
Custa €3,5 milhões.

Em terceiro no top surge Lagos, com 3253 imóveis disponíveis, dos quais 1945 são apartamentos e 1308 moradias. 
Nesta parte do país está em venda por €369 mil um apartamento de tipologia T3, na freguesia de Lagos, com 123 m2 de área útil. 
Tem estacionamento e terraço e a casa possui vista para a piscina.

Um apartamento de tipologia T2, na freguesia da Luz, com 105 m2 de área útil está a ser comercializado no bpiexpressoimobiliario.pt pelo valor de €236 mil. 
Conta com garagem, terraço e insere-se num condomínio com piscina.

MENOR OFERTA

Apesar dos três concelhos referidos serem no Algarve os que mais imóveis têm em comercialização, outros há com vários apartamentos e moradias disponíveis, embora em menor número. 
Castro Marim tem no total 762 habitações à venda, Faro 2116, Lagoa 1130, Olhão 1852, Portimão 3188, São Brás de Alportel 917, Silves 1405, Tavira 2062, Vila do Bispo 443 e Vila Real de Santo António 1614. 
Já Monchique com 69, Alcoutim com 73 e Aljezur com 178, são os três concelhos algarvios com menos oferta. 
Das poucas opções que apresentam, lideram as moradias.

A título de exemplo e no concelho e freguesia de Monchique vende-se uma moradia de tipologia T3 por €250 mil, com 80 m2 de área útil e um terreno rústico com 84 m2, com árvores de fruto. 
Já em Alcoutim, na freguesia de Alcoutim e Pereiro e por €137,5 mil pode ser adquirida uma moradia de tipologia T2 e 70 m2 de área útil. 
No concelho e freguesia de Aljezur, vende-se também uma moradia, de tipologia T4 e 234 m2 de área útil, por €500 mil. 

Imobiliária espanhola constrói 100 casas em Lagos

INVESTIMENTO
Ana Baptista     07 de Julho de 2018
As 100 casas serão no Palmares Resort, mesmo junto à Meia Praia, em Lagos. Os valores de investimento e mais pormenores sobre este projecto serão divulgados em Setembro


A Kronos Homes, uma promotora imobiliária espanhola que acaba de iniciar a sua atividade em Portugal, vai construir 100 casas para segunda habitação em Lagos, no Algarve.
Esta será a primeira fase do primeiro empreendimento que a empresa vai desenvolver no país e que no total conta com 400 unidades.

Chama-se Palmares Resort e foi comprado ao grupo Onyria, que manteve uma pequena participação.
Ou seja, trata-se de um projeto já existente que estava parado e que é agora retomado. Esta foi, aliás, a estratégia de entrada da Kronos Homes em Portugal onde já investiu €200 milhões: adquirir ativos já existentes com projetos parados e terrenos livres para poderem desenvolver com aquilo a que chamam de “conceito único de arquitetura”.

Além do Palmares, comprou ao grupo Oceânico mais três projetos em empreendimentos já existentes e que agora vai desenvolver e/ou fazer a operação turística.

Um deles é o Amendoeira Resort, onde a Kronos comprou 205 das 240 casas que já estavam construídas, que vão agora vender, mas onde vai também desenvolver uma segunda e terceira fase de construção de casas e ainda de dois hotéis.
O outro chama-se Belmar e aqui a Kronos comprou “50 das 180 unidades já concluídas e vai reposicioná-las e fazer a operação”, explica ao Expresso o responsável da Kronos em Portugal, Rui Meneses Ferreira.
Por fim, o terceiro projeto comprado fica na Praia da Luz e neste momento é apenas terreno virgem para onde estão já aprovadas 100 casas também para segunda habitação.

“Estamos focados em comprar terrenos para desenvolver e não em fazer reabilitação de prédios já existentes”, diz o fundador e sócio gerente da Kronos, Said Hejal, que esteve na apresentação da empresa esta quarta-feira em Lisboa.

Foi, aliás, por isso mesmo que começaram pelo Algarve.
“Foi onde encontrámos o terreno ideal”, conta o mesmo responsável.
Mas o objetivo da Kronos está muito longe de ser apenas o sul do país

“Há três regiões que nos interessam: Lisboa, Porto e Algarve.
Só que em Lisboa está a levar mais tempo do que pensámos, mas também porque somos muito exigentes”, repara Said Hejal.
De facto, nestas duas regiões já não é só a localização que está em causa, mas também a dimensão.
“Em Lisboa e no Porto queremos fazer primeira habitação e queremos focar-nos no mercado local e fazer casas para os portugueses, com preços entre os €250 mil e os €450 mil, ou seja, menos de 50 unidades não faz sentido”, repara Rui Meneses Ferreira.
O centro histórico está, por isso, fora de questão.
O foco são as Avenidas Novas, o Parque das Nações, o Lumiar ou Telheiras, mas também Oeiras e Cascais, revela ao Expresso o responsável em Portugal.

Para a compra dos terrenos em Lisboa e no Porto, a Kronos tem, nesta fase de arranque da atividade em Portugal, €100 milhões.
Ou seja, no total, a empresa vai investir €300 milhões só na compra de ativos, ao que acresce depois o investimento propriamente dito na construção.

Em Espanha, em apenas três anos de existência, a Kronos já investiu mais de €1000 milhões em 16 projetos com mais de 1500 casas. 

Milionário francês contrata Sotheby’s para atrair estrangeiros ricos

CASAS DE LUXO
Texto; Vítor Andrade  Foto: Tiago Miranda
07 de Julho de 2018
Miguel Poisson , da Sotheby's, e José Cardoso Botelho, da Vanguard (empresa do milionário francês Claude Berda), no topo do Edifício n.º 11, na Rua Conselheiro Fernando de Sousa, nas Amoreiras
REABILITAÇÃO O prédio das Amoreiras já foi de escritórios mas, daqui a dois anos, só terá apartamentos topo de gama

O mercado imobiliário nunca esteve tão quente e os preços das casas nunca estiveram tão altos como agora, em Portugal — com Lisboa a bater um recorde de €22 mil por metro quadrado, como o Expresso noticiou na semana passada. 
Mas, a cereja no topo do bolo, é que “há claramente mais procura do que oferta”, diz Miguel Poisson, diretor-geral da Sotheby’s para Portugal.

O gestor e consultor imobiliário não consegue disfarçar o sorriso largo, no topo do nº 11 da Rua Conselheiro Fernando Sousa, nas Amoreiras, em Lisboa, enquanto aperta a mão a José Cardoso Botelho, também ele sorridente, em representação da Vanguard — empresa do multimilionário francês Claude Berda — que tem atualmente em curso investimentos imobiliários que ultrapassam os €1,2 mil milhões em Portugal.

Na cobertura do prédio das Amoreiras, que se vai chamar “A Tower”, celebra-se o contrato de exclusividade agora firmado entre a conceituada leiloeira Sotheby’s (com forte presença no imobiliário) e a empresa do homem que, atualmente, mais investe em Portugal — e que promete continuar atento a novas oportunidades, segundo Cardoso Botelho.

O prédio, onde os dois gestores agora bebem champanhe, já foi de escritórios mas, daqui a dois anos, estará completamente diferente. 
Vai acolher 38 apartamentos de luxo, distribuídos pelos 16 andares. 
O Expresso sabe que uma das casas mais caras do edifício já foi vendida e que o comprador é português.

Com a associação da Vanguard à Sotheby’s, os imóveis vão passar a ser comercializados à escala global. 
Na verdade, segundo Miguel Poisson, esta consultora está já a ultimar os preparativos para um roadshow mundial, que vai mostrar as casas de luxo que se estão a construir em Portugal em países como Brasil, Dubai, França, Índia, Estados Unidos da América e China.

CASAS DE LUXO PARA INVESTIDORES DE ARTE

Mas não é tudo. 
A casa Sotheby’s internacional, vai disponibilizar a Miguel Poisson uma lista de 12 mil contactos de compradores regulares de obras de arte que, “por acréscimo, poderão estar interessados em associar casas de luxo ao seu portefólio de investimentos”, explica o gestor.

Sobre o prédio das Amoreiras, Miguel Poisson acrescenta que, além da venda já efetuada de uma das casas mais caras do condomínio, há pelo menos já mais 12 interessados em adquirir ali apartamentos. 
Entre os compradores potenciais há vários portugueses mas também alguns estrangeiros.

“Lisboa está, definitivamente, na rota dos investimentos imobiliários à escala global. 
Há agora uma notoriedade que o país não tinha há meia dúzia de anos”, nota o responsável da Sotheby’s.

Explica que o mercado imobiliário anda muito de mão dada com o turismo e, como o turismo está a crescer como nunca, em Portugal, o imobiliário foi atrás. 
“O facto de este ano voltarmos a ser eleitos como o melhor destino, a existência da Web Summit, a realização de, cada vez, eventos internacionais e até aquele anúncio da onda gigante que agora está à vista de milhares, todos os dias, na Times Square, em Nova Iorque, tudo isso ajuda à construção de uma imagem que Portugal não tinha”.

Por falar nos Estados Unidos, Miguel Poisson garante que, daqui a dois anos, “os norte-americanos vão ser, provavelmente, os principais compradores de casas em Portugal. 
Há cada vez mais gente VIP (classe endinheirada e com cargos de topo) a não se identificarem com o panorama atual dos Estados Unidos e, naturalmente, procuram outros sítios para viver. 
Portugal está claramente na mira e, exemplo, disso pode ser, entre outros, o da cantora Madonna, que agora reside em Lisboa”.
FATURAÇÃO A CAMINHO DOS €300 MILHÕESCom a crescente procura de imobiliário de luxo em Portugal por parte de cidadãos estrangeiros, a Sotheby’s prevê chegar ao final de 2018 com um volume de negócios de €300 milhões, o valor mais elevado de sempre da empresa em Portugal, onde opera há uma década. Os analistas desta consultora garantem que o imobiliário é, atualmente, o principal ativo de refúgio, não apenas para investidores mas também para os cidadãos em geral que acumularam poupança nos últimos anos. Outro dos fatores que jogam a favor do aumento da faturação da Sotheby’s é o relevo internacional que Portugal começa a ganhar, especialmente como destino turístico.

EUA SERÃO O PRÓXIMO GRANDE CLIENTE

O responsável da Sotheby’s garante que já mediou vários casos de negócios de compra de casa em Portugal por parte de famílias norte-americanas. 
Mas também já vendeu casas de luxo a clientes sul-africanos, suíços, libaneses, entre muitas outras nacionalidades. 
Frisa que 70% dos seus clientes são estrangeiros.

“As pessoas de fora que têm muito dinheiro olham cada vez com mais atenção para a qualidade de vida que se pode ter em Portugal”, sublinha Cardoso Botelho, diretor-geral da Vanguard. 
Acrescenta que, em 2015, vários franceses da lista dos 10 mais ricos daquele país nunca tinham vindo a Lisboa, apesar de todos terem jatos privados. 
“Agora começaram a vir até cá e alguns já compraram casa em Lisboa”.

E o mais curioso, segundo o diretor da Vanguard, é que “muita gente (estrangeira) que está a comprar casa em Portugal, compra para viver e não apenas para investir ou para a ter ali para um ou outro fim de semana”.

Caixa tem quarteirão da Rua do Ouro à venda

IMOBILIÁRIO
Ana Baptista    07 de Julho de 2018
O edifício da Rua do Ouro ocupa um quarteirão inteiro na Baixa, miito perto do Terreiro do Paço. Ficou pronto em 1966

INVESTIMENTO Processo faz parte da estratégia de redução de património imobiliário e pode render perto de €60 milhões

A Caixa Geral de Depósitos (GCD) está a vender o edifício da Rua do Ouro, um quarteirão inteiro em plena Baixa de Lisboa, muito próximo do Terreiro do Paço. “Estamos a iniciar o processo de comercialização e a colocação em mercado será feita pela [consultora] Cushman & Wakefield”, confirma ao Expresso fonte oficial do banco público.

Trata-se de um dos imóveis mais emblemáticos do portfólio imobiliário da Caixa que, segundo as estimativas dos especialistas neste segmento do mercado, pode valer perto de €60 milhões. 
Não só por causa da sua localização e dimensão, mas também pelo elevado potencial de retorno de investimento que o novo dono pode ter.

Só não vale mais, notam os mesmos analistas, porque é um edifício que não pode ter garagens, apesar de ter dois pisos em cave, e porque o balcão de atendimento é para manter, o que significa que haverá menos espaço comercial para o novo dono arrendar. Além disso, é um imóvel que vai precisar de muitas obras para se alterar o uso atual de escritórios para habitação ou hotel, o tipo de projetos que os investidores entendem serem os mais rentáveis naquela área da cidade e naquele tipo de imóvel.

Trata-se de um quarteirão inteiro, com uma área de 13.810 metros quadrados distribuídos por sete pisos, dos quais dois são em cave e um são águas furtadas, sendo que, em média, cada piso acima do solo tem cerca de 2 mil metros quadrados. 
Tem frentes para a Rua do Ouro, Rua de São Julião, Rua Nova do Almada e Rua da Conceição, e foi a principal agência do banco público entre 1966, quando ficou concluído, e até a Baixa deixar, gradualmente, de ser a zona financeira de Lisboa. Recorde-se que além das agências principais e sedes de quase todos os bancos (BCP, Totta e Açores, BPI, BES, etc...), também a Bolsa de Lisboa ficava ali perto, no Terreiro do Paço.

“É um ativo muito apetecível que de certeza terá muitos interessados, principalmente tendo em conta o bom momento que o mercado e a cidade de Lisboa estão a atravessar”, diz um analista que não quis ser identificado.

GANHOS DE MAIS DE €300 MILHÕES

A venda do quarteirão da CGD na Baixa não surge apenas porque há uma maior procura e disponibilidade financeira para comprar este tipo de ativos. 
É verdade que isso contribui para acelerar o processo, aliás, há vários exemplos de negócios que avançaram no último ano e meio precisamente porque o mercado está aquecido. 
Foi o caso de um quarteirão que o BPI tem também na Baixa, na Rua Augusta, e que está em processo de alienação. 
Ou dos terrenos da Feira Popular que vão a uma nova hasta pública em setembro, três anos depois da segunda tentativa de venda.

Mas para a Caixa, esta operação insere-se na estratégia de redução de ativos imobiliários que o banco tem em curso.

“Em 2017 vendemos 3100 imóveis com um encaixe de €338 milhões. 
Entre os imóveis vendidos nesse ano, já pela equipa liderada por Paulo Macedo, destacam-se o Edifício Marconi e o Edifício Santa Maria, ambos em Entrecampos, e o República 50”, diz fonte oficial da Caixa. 
E este ano já venderam a antiga sede do Caixa BI, um edifício na Barata Salgueiro, em Lisboa, que foi comprado pela seguradora Zurich por cerca de €23 milhões, segundo apurou o Expresso na altura da transação, em fevereiro.

Estas operações fazem parte de uma estratégia de redução de custos. 
Porque, além do encaixe financeiro, vender estes imóveis também origina “poupanças significativas para Caixa em despesas com eletricidade, água e manutenção do edifício”, adianta ainda fonte oficial em declarações ao Expresso, sem no entanto revelar de quanto poderiam ser essas poupanças.

PROCESSO PODE DEMORAR SEIS MESES

Tal como a Caixa revelou ao Expresso, este processo está no início. 
A escolha da consultora que vai apoiar a venda foi decidida há cerca de duas semanas e agora está a definir quais os investidores — nacionais e internacionais — que vão ser convidados a apresentar as propostas não vinculativas. 
O banco escolherá depois os candidatos que apresentarem a melhor oferta inicial, e esses terão de entregar uma outra proposta, vinculativa ou final, e dar garantias bancárias ou provas de que têm capitais próprios suficientes para pagar o ativo. 
Após o que terão de esperar pela análise das ofertas e posterior anúncio do vencedor.

Passa-se então à assinatura do contrato promessa de compra e venda e finalmente à escritura. 
Todo este processo pode demorar cerca de seis a sete meses, o tempo que demora para se fechar um negócio desta dimensão, já com a escritura feita, explica um consultor do mercado que não quis ser identificado.


PATRIMÓNIO COM HISTÓRIA

A sede da Caixa Geral de Depósitos foi, desde 1887, no Largo do Calhariz, mas o quarteirão da Rua do Ouro foi uma das suas principais agências durante mais de 30 anos, muito por causa da localização, em plena Baixa de Lisboa, mas também pelo edifício em si, um quarteirão de mais de 13 mil metros quadrados. 
Ficou totalmente pronto em 1966, mas a sua construção começou em 1948. 
Nesse ano, a chamada Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência (CGDCP) ocupava, já desde 1923 e 1924, espaços nos ministérios da Justiça e do Interior. 
O Ministério das Obras Públicas decidiu que o banco teria de sair dali porque o espaço iria ser ocupado pelo Ministério da Justiça. 
Em 1951, a Caixa deu início ao processo de fazer a agência central e a casa-forte no quarteirão da Rua do Ouro. 
Para isso teve de comprar edifícios, fazer demolições e depois a construção, que foi feita em quatro fases. 
Todo o processo durou 15 anos, com o edifício a abrir em 1963, mas com os acabamentos gerais ainda por terminar. 
Estes ficariam prontos em 1966. 
O edifício manteve a sua importância mesmo depois de a CGD ter decidido sair do Largo do Calhariz e juntar todos os seus departamentos e serviços, incluindo a caixa-forte, na atual sede, na Avenida João XXI, perto do Campo Pequeno. 
Esta foi construída de raiz nos terrenos da antiga Fábrica de Cerâmica Lusitânia. 
Este mês celebram-se os 25 anos da mudança do banco público para as novas instalações. 
A construção desta sede foi atribulada e demorada como a da agência da Rua do Ouro. A decisão de que seria preciso um novo espaço surgiu em 1981, altura em que a Caixa ocupava 26 edifícios em Lisboa, mas as obras só arrancaram em julho de 1987, com polémicas e alterações e ficou pronta em 1994 tendo ficado prontas em 1994.

Desemprego abaixo dos 6% em 2019

EMPREGO
Texto:  Cátia Mateus e Sónia Lourenço
07 de Julho 2018
Estes são os sectores que podem já estar próximos do nível de desemprego estrutural


TRABALHO Economistas ouvidos pelo Expresso são unânimes: desemprego vai continuar a descer e há sectores que podem já estar próximos do nível estrutural

Em abril, o desemprego nacional voltou a cair para os 7,2% e, pese embora a ligeira tendência de aumento espelhada pelos dados provisórios divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) para o mês de maio, os economistas e os especialistas em recrutamento apontam, de forma unânime, para a continuação da queda da taxa de desemprego. 
E consideram que poderá mesmo ficar abaixo dos 6% no próximo ano.

Este nível não é visto em Portugal desde 2003, ano em que a taxa média anual ficou nos 6,3%, e que é mais otimista do que as projeções das principais organizações nacionais e internacionais. 
Conselho das Finanças Públicas, Ministério das Finanças, Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco de Portugal também esperam que o desemprego continue a recuar, mas apontam para taxas em 2019 entre 6,2% (Banco de Portugal) e 7,2% (Ministério das Finanças).

“As receitas da Segurança Social estão a subir entre 7% a 8%, o número de inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional [IEFP] está a baixar, e as estimativas económicas apontam para um crescimento acima dos 2%. 
Tudo isto conjugado indica que o desemprego continuará a recuar, mas acredito que seja difícil que baixe do limiar dos 5%”, explica o economista Francisco Madelino, ex-presidente do IEFP. 
Análise semelhante faz João Cerejeira, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, ao defender que “é possível chegar a uma taxa de 6% de desemprego, este ano ou no próximo, se a economia continuar a crescer acima dos 2%”.

Já Paulino Teixeira, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, é mais contido na análise. 
Para este economista, “é atingível uma redução da taxa de desemprego para o intervalo entre 6,5% e 7% até meados do próximo ano”, ainda que reconheça que, “se os registos do desemprego do IEFP tocarem a barreira dos 300 mil indivíduos, a taxa de desemprego poderá descer até valores próximos de 5%”. 
Este desenvolvimento dependerá, segundo Paulino Teixeira, da forma como as políticas ativas de emprego forem agilizadas, “o que, por sua vez, é uma função das políticas de adequação entre a oferta e a procura de trabalho”.

O certo é que o desemprego registado no IEFP tem estado em queda, vindo progressivamente a aproximar-se do patamar dos 300 mil. 
Em maio deste ano estavam inscritos nos centros de emprego nacionais 350.174 desempregados, menos 19% do que os 432.274 contabilizados no mesmo mês de 2017 e menos 6,9% do que os 376.014 que estavam inscritos em abril deste ano. 
A última vez que o desemprego esteve neste patamar foi há quase 16 anos, em agosto de 2002.
NÚMEROS

7,3%  é a estimativa provisória do Instituto Nacional de Estatística (INE) para a taxa nacional de desemprego em maio deste ano. O número definitivo para abril foi de 7,2%, o valor mais baixo desde 2002

61,5% foi a taxa de emprego provisória apurada pelo INE para maio deste ano. O valor representa uma diminuição de 0,1 pontos percentuais face ao mês anterior

350,2 mil desempregados estavam inscritos nos centros de emprego nacionais em maio deste ano. O valor é o mais baixo desde há quase 16 anos e representa um decréscimo de 19% face a maio do ano passado

64,3% das ofertas de emprego divulgadas em maio pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) para o sector das indústrias extrativas não foram preenchidas. O sector é um dos que poderá estar próximo do desemprego estrutural

63,7% das vagas disponibilizadas, através do IEFP, para a indústria transformadora ficaram por ocupar em maio deste ano

59% dos postos de trabalho divulgados para o sector da construção não foram preenchidos, segundo dados do IEFP relativos ao mês de maio


JÁ HÁ SECTORES COM FALTA DE MÃO DE OBRA
Mas a descida do desemprego pode começar a abrandar. 
É que os economistas indicam que nos podemos estar a aproximar da taxa de desemprego estrutural ou natural. 
Este é um conceito teórico que, na prática, traduz o patamar associado ao funcionamento da economia em linha com o potencial, ou seja, em velocidade de cruzeiro quando usa todos os seus recursos produtivos. 
Qual o seu valor? 
Ninguém sabe exatamente, mas os especialistas têm apontado que pode estar em torno dos 7%. 
Se assim for, Portugal está já próximo deste limiar, a partir do qual é muito mais difícil conseguir diminuir o desemprego. 
Até porque o universo dos desempregados começa a ficar restringido a perfis que tipicamente têm maiores dificuldades em encontrar um posto de trabalho, como os trabalhadores mais velhos e com baixas qualificações.

Há sectores que já estão a enfrentar situações de escassez de mão de obra. 
Ou seja, onde tudo indica que a taxa de desemprego natural pode já ter sido atingida ou estar muito próximo disso. 
Quais? 
Dado que é um conceito abstrato, não é possível definir um valor preciso para esta taxa. Mas os especialistas deixam pistas sobre como identificar os sectores. 
Uma forma é cruzar os dados do IEFP sobre ofertas de postos de trabalho divulgadas e colocação de trabalhadores realizadas no mesmo período.

Essa análise mostra que em algumas áreas do sector industrial, como as indústrias extrativas ou transformadoras, um volume considerável das necessidades de contratação das empresas já fica por satisfazer. 
Os números mais recentes, relativos a maio deste ano, mostram que as indústrias extrativas não conseguiram, através do IEFP, encontrar trabalhadores para 64,3% das ofertas que disponibilizaram nesse mês. 
Nas indústrias transformadoras, 63,7% das ofertas também ficaram sem candidatos. 
Uma percentagem superior à da Construção, onde 59% das vagas divulgadas através do instituto ficaram por preencher.


DESADEQUAÇÃO DE QUALIFICAÇÕES
Os dados disponibilizados pelo organismo público de emprego não permitem um nível de desagregação maior que possibilite uma análise mais detalhada de sectores como, por exemplo, o das Tecnologias de Informação, onde há muito as universidades reportam taxas de desemprego zero e os empregadores reclamam da carência de profissionais qualificados. 
Mas os especialistas em recrutamento e os economistas ouvidos tendem a apontar esta área como uma das que poderá já estar num cenário de desemprego natural.

Mário Gonçalves, líder da área de Interim Management (recrutamento de quadros qualificados) da consultora Hays, confirma que a análise dos dados relativos à atividade da empresa que representa espelha “um forte desalinhamento entre as necessidades de recrutamento do mercado e a motivação dos profissionais para mudar, elevando a tendência para a escassez de profissionais a patamares que há alguns anos seriam impensáveis”. 
Entre os sectores de atividade que neste momento registam maiores dificuldades de contratação de profissionais qualificados e onde podemos já enfrentar cenários de desemprego estrutural estão “as Tecnologias de Informação, o Turismo, a Engenharia (industrial, mecânica e tecnológica) e o Retalho”, indica o especialista.

Mas Mário Gonçalves recorda que a noção possível de pleno emprego não significa a ausência em absoluto de desemprego. 
“O desemprego estrutural resulta do desequilíbrio entre a oferta e a procura de emprego”, que pode ocorrer, “porque existe uma oferta de qualificações inadequada do ponto de vista das necessidades do mercado”, reforça. 
E nestas condições poderão estar também, segundo os economistas ouvidos pelo Expresso, sectores como a Construção, o Turismo e algumas indústrias transformadoras como a Metalúrgica.


OS EFEITOS DA QUEDA DO DESEMPREGO
Um dos impactos mais evidentes da queda do desemprego para o patamar natural é o aumento dos salários (ver tema). 
Mas há outras consequências decorrentes da redução da taxa de desemprego para níveis estruturais. 
João Cerejeira destaca como impactos uma melhoria das condições contratuais, com aumento dos contratos sem termo e a tempo completo, bem como a diminuição do desemprego de longa duração e o regresso ao mercado de trabalho dos designados desencorajados, profissionais que estando disponíveis para trabalhar já tinham desistido de procurar um posto de trabalho e agora encontram novas oportunidades.

Já Francisco Madelino recorda que, “com um crescimento económico superior a 2% e níveis próximos do pleno emprego, já não se cresce empregando mais gente, mas criando mais valor”. 
O economista dá como exemplo o sector da Indústria, que criou 50 mil novos empregos nos últimos anos, 10 mil dos quais qualificados, para defender que um dos grandes impactos da aproximação ao desemprego estrutural é também o aumento das qualificações e do grau de especialização dos profissionais.

Chegada ao desemprego Estrutural beneficia Salários
Vários anos de queda na taxa de desemprego pode, segundo os especialistas, levar à subida das remunerações

Um dos impactos mais diretos da aproximação à taxa de desemprego estrutural é o aumento dos salários. 
À medida que o desemprego vai descendo e que aumenta a escassez de profissionais qualificados no mercado, as empresas são forçadas a aumentar salários para resolver o seu défice de profissionais, contratando na concorrência ou em mercados internacionais. São as regras do mercado e para a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), esta dinâmica até já deveria ser mais evidente em Portugal e na Europa.

Com o desemprego a baixar e a economia a recuperar, os salários em Portugal deveriam estar a aumentar mais, defende a OCDE no último “Employment Outlook 2018”, esta semana divulgado. 
Contudo, segundo o relatório, “a recuperação no crescimento dos salários está atrás da queda no desemprego” e a valorização salarial, na maioria dos países da OCDE, “permanece marcadamente abaixo do que era antes da recessão para níveis de desemprego comparáveis”.

Em média, no último trimestre de 2017, o crescimento dos salários por hora nos países da OCDE estava ainda 0,4 pontos percentuais abaixo do valor de finais de 2008, quando o desemprego tinha valores similares.

PORTUGAL AINDA RESISTE

E Portugal é um dos países onde esta tendência é mais evidente. 
Comparando o período de 2000 a 2007 e de 2007 a 2016, o crescimento médio anual dos salários medianos para os trabalhadores a tempo inteiro caiu 1,5 pontos percentuais no conjunto da OCDE, mas em Portugal a queda ultrapassou os três pontos percentuais, realça o relatório.

O que justifica esta quebra no crescimento dos salários e dificuldades na recuperação? Segundo a OCDE, o abrandamento da produtividade e a baixa inflação: “Num contexto de estagnação do poder negocial dos trabalhadores e forte substituição do trabalho por capital, isto inevitavelmente coloca um limite à possibilidade de aumentar salários”.

E embora os economistas ouvidos pelo Expresso, Francisco Madelino e João Cerejeira, apontem como caminho certo um aumento de salários em Portugal, à medida que o país se aproxima da taxa natural de desemprego, a OCDE avança uma explicação adicional para esse incremento não ser ainda visível: parte do aumento do emprego estar a acontecer em postos de trabalho com baixos salários.

“No rescaldo da recente e longa crise, muitas pessoas que procuravam emprego foram forçadas a aceitar postos de trabalho que consideram piores em termos de condições de trabalho, por comparação com as expectativas de emprego que tinham antes da crise”, conclui o relatório. 
Muitos destes profissionais continuam, intensivamente, à procura de melhores empregos, aumentando o número de candidaturas por vaga e, logo, exercendo maior pressão em baixa sobre os salários.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Palestinianos denunciam Israel no tribunal de Haia por crimes na ocupação

MÉDIO ORIENTE
Maria João Guimarães
22 de Maio de 2018, 18:57 
Mais de cem palestinianos ficaram feridos na zona de separação entre a Faixa de Gaza e Israel 

Estado hebraico desvaloriza iniciativa, dizendo que acção não tem validade legal. Queixa é “teste ao mecanismo de responsabilização da lei internacional”, diz ministro palestiniano.

O ministro palestiniano dos Negócios Estrangeiros, Riyad al-Maliki, pediu nesta terça-feira aos procuradores do Tribunal Penal Internacional (TPI) que abra uma investigação a abusos e crimes cometidos em território palestiniano.

Esta é a primeira vez que os palestinianos pedem directamente a acção do TPI, que já analisa desde 2015 acusações contra Israel, incluindo actos cometidos na guerra do ano anterior em Gaza.

Israel diz que o pedido palestiniano não tem “validade legal”, pois a Autoridade Palestiniana não é um Estado e Israel tem tribunais que analisam questões relacionadas com as suas operações militares e nos territórios ocupados. 
O TPI, com sede em Haia, é considerado um tribunal de último recurso, pronunciando-se apenas quando as autoridades nacionais não actuam.  

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel acusou a liderança palestiniana de “explorar o tribunal com objectivos políticos”.

O TPI aceitou a Palestina como membro em 2015 e assim pode investigar crimes cometidos no território, mesmo que os suspeitos sejam de Israel, que não é signatário. 
A investigação preliminar vinha a analisar os processos israelitas quanto às suas operações na guerra na Faixa de Gaza de 2014, em que morreram mais de dois mil palestinianos. 
Se estes processos forem consideradas insuficientes, isso poderia ser razão para uma investigação do TPI.

A denúncia palestiniana junto do TPI ocorre após semanas de protestos em Gaza em que morreram mais de cem pessoas e milhares ficaram feridas. 
Na chamada “Marcha do Retorno”, snipers israelitas dispararam contra palestinianos que se aproximaram da barreira que divide os dois territórios, matando 110 pessoas e deixando milhares de feridos.

Israel diz que a força letal foi necessária para impedir infiltrações do Hamas, no poder na Faixa de Gaza e que tenta levar a cabo ataques contra o Estado hebraico. 
Os manifestantes estavam desarmados, embora tivessem queimado pneus para dificultar a visibilidade dos atiradores e para se aproximarem da barreira, atirado pedras aos soldados, e lançado alguns papagaios com cocktails Molotov que causaram incêndios do lado israelita. 
Nenhum israelita ficou ferido durante estes protestos.

“Há uma cultura de impunidade de Israel em relação a crimes contra os palestinianos”, disse Malki, depois de se encontrar com a procuradora do TPI, Fatou Bensouda. 
“Esta queixa é o teste da Palestina ao mecanismo internacional de responsabilização e respeito pela lei internacional” e, por isso, “um passo histórico e importante”.

A decisão deveu-se, acrescentou, “à intensificação dos crimes” contra os palestinianos, incluindo contra “manifestantes desarmados na Faixa de Gaza”. 
Na queixa estão sublinhados crimes ligados à existência de colonatos judaicos em território ocupado, considerados ilegais pela lei internacional, e que foram objecto de uma opinião (não vinculativa) do Tribunal Internacional de Justiça (da ONU).

O TPI visitou os territórios no âmbito da investigação preliminar em 2015, mas ainda não decidiu se avança para uma investigação formal. 

Para o especialista em direito internacional Alex Whiting o efeito imediato desta denúncia é que “faz com que seja mais difícil ao tribunal manter-se na fase de investigação durante anos e anos”, disse no Twitter.

Para o director do programa de Justiça Internacional da Human Rights Watch, Richard Dicker, a responsável do TPI deve agora “levar a cabo acções para uma investigação formal com o objectivo de responsabilizar os perpetradores de crimes graves e assegurar justiça imparcial e completa consistente com o estatuto do tribunal”.

Por outro lado, sublinha Alex Whiting, apesar do pedido palestiniano falar dos crimes israelitas, qualquer investigação do TPI avaliará todos os crimes potencialmente cometidos no território, incluindo por palestinianos.

Organizações de defesa de direitos humanos como a Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional consideraram que Israel pode ter cometido crimes de guerra com os disparos sobre manifestantes desarmados das últimas semanas na Faixa de Gaza. 
Mas além de criticarem Israel também já apontaram, nos últimos anos, o dedo à Autoridade Palestiniana ou ao Hamas, por exemplo, por actos contra críticos, abusos ou tortura de prisioneiros, ou, no caso do Hamas, lançamento de rockets contra Israel.

mariajoaoguimaraes@público.pt

Porque protestam os palestinianos em Gaza?

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Maria João Guimarães
em Jerusalém 15 de Maio de 2018, 16:07 

Os palestinianos enterram nesta terça-feira os 60 manifestantes mortos pelas balas israelitas nos protestos junto à fronteira no mesmo dia em que os Estados Unidos inauguraram a sua embaixada em Jerusalém. É o último dia da Grande Marcha do Retorno e desde o início deste protesto 97 manifestantes foram mortos e 12.271 feridos, diz a organização Medical Aid for Palestine, que contabiliza mais feridos do que em toda a última guerra de Israel contra o Hamas, em 2014, que durou 51 dias e fez 11.231 feridos.

O que se passou em Gaza?

Os palestinianos assinalam o que chamaram A Grande Marcha do Retorno, para lembrar o direito de retorno dos refugiados palestinianos que fugiram ou foram expulsos aquando da criação do Estado de Israel, desde 30 de Março. A acção vinha a realizar-se às sextas-feiras e tinha fim programado para esta terça-feira, quando se assinalam 70 anos da Nakba, ou catástrofe, o dia seguinte à declaração de independência do Estado hebraico. Mas a inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém foi pretexto para mais um dia de manifestação na segunda-feira.

Qual o papel do Hamas?

A marcha foi autorizada pelo Hamas, que governa o território, e o movimento que normalmente não considera eficazes acções de protesto pacíficas (apenas luta armada), aproveitou-a, encorajando os manifestantes a tentar passar a barreira e entrar em Israel. Por um lado, desvia o descontentamento de muitos habitantes de Gaza com as terríveis condições no território, sujeito a um bloqueio há onze anos e numa situação à beira da ruptura há meses. Por outro lado, permitia chamar a atenção para a situação no local, afastada há muito do ciclo noticioso.

Quem são os manifestantes e porque se arriscam a morrer?

Israel avisou que não toleraria ninguém perto da barreira que separa os dois territórios e que dispararia contra quem chegasse entre 300 a 100 metros da barreira (e que tecnicamente não é uma fronteira, porque apenas Estados têm fronteiras). Estas pessoas sabem que arriscam morrer, mas a ideia de poderem chegar ao pé da barreira, danificá-la e eventualmente passar (ideia fomentada também pelo Hamas), quebrando o cerco, é muito forte.

Muitos sentem-se desesperados pelo isolamento e não vêem qualquer hipótese de melhoria da sua vida, e a alta taxa de desemprego (ou subemprego, já que muitas pessoas têm qualificações) deixa muitas pessoas sem nada para fazer. Alguns manifestantes foram feridos num dos dias, e voltaram. (Outros participantes na marcha foram atingidos mais longe, muitos por gás lacrimogéneo, que tem aterrado muito para além da zona letal, onde pessoas se concentram para rezar, ou onde estão as tendas para os media - é importante fazer as imagens passar - ou dos paramédicos.)

O que levou à situação tão difícil no território?

Duas coisas: o bloqueio imposto por Israel depois das eleições que o Hamas venceu em 2006 (e que levaram a uma luta entre Hamas e Fatah que terminou com o primeiro no poder em Gaza e a segunda na Cisjordânia), e uma medida da Fatah para pressionar o Hamas a um acordo de unidade que implicou cortes nos salários dos funcionários públicos e menor pagamento da energia a Israel, deixando o território com ainda menos electricidade do que até então – agora há uma média de quatro horas de electricidade por dia.

É uma manifestação chamada pacífica mas o que se vê nas imagens é violência. Porquê?

Os manifestantes que estão perto da fronteira vão com pedras, muitos de cara tapada para não serem reconhecidos ou a sua identidade registada pelos israelitas, põem pneus a arder para dificultar a visibilidade dos snipers que estão do outro lado ao poucos metros, alguns tentam lançar papagaios no ar com cocktails Molotov para provocar incêndios em Israel – muito perto há um kibbutz, campos agrícolas, e já houve um incêndio.

Mas em mais de um mês não houve qualquer israelita ferido ou atingido pelos palestinianos. O argumento de que a marcha é pacífica ganha também força porque os manifestantes estão desarmados. Não houve qualquer disparo de armas ou rockets contra Israel.

O que argumenta Israel para disparar sobre manifestantes desarmados?

Israel diz que o Hamas está a aproveitar as manifestações para tentar que militantes cheguem perto da barreira, a ultrapassem, e se infiltrem em Israel para levar a cabo ataques. O movimento já o fez, através de túneis, no passado, por exemplo com a captura do soldado Gilat Shalit em 2006 (que cinco anos mais tarde foi libertado no âmbito de um acordo que levou à libertação de mais de mil presos palestinianos, um deles Yahya Sinwar, homem forte do Hamas em Gaza).

Israel argumenta que não pode permitir que ninguém passe a barreira porque poria em causa a segurança das comunidades israelitas perto.

Qual a reacção internacional?

Os EUA apoiaram o direito a Israel se defender, mas a maioria dos países da União Europeia pediram “proporcionalidade” na resposta. As organizações de direitos humanos reagiram com duras críticas: “O simples facto de se aproximar de uma vedação não é uma acção letal, que seja uma ameaça para a vida de alguém, por isso não deve ter como resposta um tiro”, disse o porta-voz da ONU Rupert Colville. “A força letal [usada por Israel] deve ser o último, e não primeiro, recurso”.

A Amnistia Internacional disse que em alguns casos o exército israelita “cometeu o que parecem ter sido mortes intencionais", e que se for o caso, "constituem crimes de guerra”. Só na segunda-feira morreram 60 pessoas - nas sextas-feiras anteriores tinham morrido, no total, mais de 40. Entre os milhares de feridos, centenas foram atingidos por balas reais.

Qual a posição da Fatah e dos palestinianos na Cisjordânia?

A Fatah apoiou a marcha, como todas as facções palestinianas, numa rara iniciativa unânime (devida provavelmente ao grande apoio popular da Marcha no território). Mas até agora houve poucos protestos na Cisjordânia no âmbito da Marcha do Retorno ou em solidariedade com os mortos e feridos de Gaza.

O que se pode seguir?

O Hamas pediu uma “intifada do retorno”, que seria uma terceira intifada (revolta) depois da primeira, conhecida como “das pedras” e da segunda, de Al Aqsa, marcada por atentado suicidas. Ao movimento interessa negociar um alívio do bloqueio e não provocar uma guerra – as três guerras que o território teve (2009, 2012 e 2014) acabaram com milhares de mortos e cada vez mais destruição; como o bloqueio impede a entrada de materiais para a reconstrução, tudo se torna ainda mais difícil.

mariajoaoguimaraes@público.pt