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sexta-feira, 28 de março de 2014

Desta vez é diferente

OPINIÃO
TERESA DE SOUSA  23/03/2014  -  09:50
 
               1.  Estamos tão habituados a criticar a eterna indecisão da União Europeia quando se trata de questões de segurança internacional que, por vezes, não conseguimos detectar a mudança. Podemos talvez agradecer a Vladimir Putin o facto de, desta vez, as coisas não serem assim.
           
          Podemos dizer que a União Europeia não prestou a devida atenção à sua estratégia brutal para regressar ao estatuto de grande potência a quem os EUA têm de fazer a devida vénia. É verdade. Imagina-se facilmente que, durante as negociações do Acordo de Associação com a Ucrânia, a eurocracia não deve ter prestado a mínima atenção à realidade política envolvente. Os líderes europeus andam há tanto tempo mergulhados na crise do euro, que pouca atenção devem ter prestado à “parceria oriental”, uma daquelas coisas que a Europa faz quase automaticamente e que já pouco tem a ver com a realidade europeia. Em Dezembro, Putin forçou o “seu” Presidente ucraniano a não assinar o acordo. No dia seguinte, foi o que se viu em Kiev. A velocidade dos acontecimentos deve ter surpreendido tanto a Europa como o próprio Presidente russo. A surpresa não o impediu de reagir aos acontecimentos de forma a ocupar a Crimeia e a demonstrar aos países europeus que fazem fronteira com a Rússia que mais vale portarem-se bem.

            Putin calculou mal alguns aspectos da sua estratégia. Ocupou a Crimeia e integrou-a na Rússia em menos de oito dias, com um referendo que foi uma farsa e que, até agora, ninguém reconheceu como legítimo. Continua a ameaçar o território oriental da Ucrânia, alegando a protecção da minoria russa. Como escrevia Jim Hoagland, colunista do Washington Post, cometeu o erro de proclamar a sua nova doutrina: “Moscovo intervirá para proteger os russos étnicos noutros países contra perigos imaginários”. Esta doutrina não é apenas um desafio à União Europeia e à NATO, é também a mensagem errada para obrigar as antigas repúblicas soviéticas a integrar-se na sua União Euroasiática. Tudo isto já é conhecido. Mas Putin falhou na avaliação que fez da resposta europeia, cuja fraqueza olha com um enorme desprezo, contando com a suas eternas divisões, muitas delas ditadas pelos negócios, incluindo a energia.

            Para que a sua avaliação tivesse sido correta, era preciso que a Europa não tivesse percebido o óbvio: que a ocupação da Ucrânia e a ameaça a outros países foi aquilo que em língua inglesa se chama de “game changer”. Por mais distraída que viva em relação ao mundo que a cerca, há coisas que não pode ignorar. Foi o que aconteceu. “A conduta da Rússia é interpretada erradamente como o início de nova guerra fria com a América”, escreve a Economist. “Coloca uma ameaça mais ampla porque Putin conduziu um carro de combate contra a ordem existente”. Para Obama é um momento fundamental: “tem de liderar, não apenas cooperar”. Para a Europa, o reforço da NATO e o fim da dependência energética passam a ser cruciais.

2         2. A grande novidade é a Alemanha. Enquanto David Cameron ainda lia memorandos sobre como preservar a City do eventual congelamento dos bens dos oligarcas e a França se punha a fazer contas aos “Mirages” que queria vender à Rússia, Angela Merkel já tentava coordenar a sua resposta com Obama. Em todas as suas declarações, no Bundestag ou fora dele, a chanceler deixou claro que esta não era uma crise como as outras e que a resposta não poderia ser a mesma de sempre. Com o seu peso político, contribuiu decisivamente para que a Europa não se dividisse. Foi a principal interlocutora de Obama, mostrando que a Alemanha não se preocupa apenas com a economia. A partir daqui, o caminho vai ser mais difícil. No Conselho Europeu da semana passada, Cameron e Hollande já tinham deixado para trás a City e os Mirages, defendendo a quase inevitável “fase três” das sanções económicas, enquanto Merkel se mantinha mais prudente (não tanto sobre a sua inevitabilidade, mas quanto ao ritmo a que devem ser anunciadas). As relações económicas entre a Alemanha e a Rússia são enormes. Pode dizer-se que as sanções políticas aplicadas pelos EUA são muito mais duras do que as europeias. O comércio entre a União e a Rússia é 10 vezes maior do que o dos Estados Unidos e a dependência energética necessita de uma forma qualquer de encontrar alternativas.

            A Europa será diferente quando esta crise acabar. Por agora, tem de prestar atenção aos seus membros que estão na fronteira com a Rússia e onde vivem amplas minorias russas (como é o caso dos Bálticos) e, mais do que tudo, tem de investir a fundo, politica e economicamente, no fortalecimento do Governo transitório de Kiev que, sem a Crimeia e com as provocações russas, se vê agora mais livre para receber a ajuda ocidental. Muita coisa vai passar por aí. A assinatura da parte política do Acordo de Associação durante o Conselho Europeu é a prova mais evidente de que a música que a Europa está a aprender a tocar é outra. Mesmo que seja preciso não fechar todas as portas para uma solução diplomática que estabilize o novo status quo europeu.

            O próprio Obama não descura este aspecto. Chegará a Haia na segunda-feira para presidir à cimeira sobre a segurança nuclear que ele próprio convocou e que é um dos dossiers mais importantes da sua política externa. A Rússia mandará uma delegação chefiada pelo chefe da diplomacia Sergei Lavrov. O Presidente chinês Xi Jiping estará lá, na sua primeira visita à Europa, incluindo às sedes das instituições europeias. Absteve-se no Conselho de Segurança e mantém vão debater a estratégia face a Putin e à Ucrânia. Por enquanto, a Rússia está isolada na sua aventura bélica. O Ocidente não pode baixar a guarda. Mesmo que conte com a “racionalidade” de Putin (algo duvidosa), o Presidente russo matou qualquer possibilidade de um regresso ao passado, afirmando-se abertamente como uma potência antiocidental e agressiva.

3        3. Com tudo isto a acontecer, muito do que se tem dito em Portugal sobre esta crise é um pouco preocupante. Entre diplomatas, militares, analistas e comentadores parece prevalecer a ideia de que, vendo bens as coisas. Putin até tem alguma razão.


          Os paralelismos históricos surgem em catadupa, encontrando nos Pedros e nas Catarinas a justificação de Putin, percebendo a “humilhação” da Rússia pelo Ocidente, que teve a peregrina ideia de vencer a Guerra Fria. Ouve-se e não se acredita. A História é muito importante, mas o mundo de hoje é muito diferente, graças às democracias que venceram o fascismo e o comunismo e que estabeleceram uma ordem assente na regra, e à globalização, que ligou a economia e as pessoas de uma forma nunca antes experimentada. Ainda não estamos de regresso ao século XIX, com a sua balança de poder. E, como escreveu Toqueville, as democracias, apesar de parecerem fracas e viverem numa aparente confusão, são extraordinariamente resistentes.

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