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sexta-feira, 28 de março de 2014

Os interesses em jogo na Ucrânia

OPINIÃO
DOMINGOS LOPES 18/03/2014-02:50
É preciso ter em que uma das prim eiras decisões do novo Governo foi proibir o russo na Crimeia, onde a maioria da população fala russo

Não é possível olhar para o conflito que agita a Ucrânia sem ter em conta os diversos interesses conflituantes entre si e os que devem prevalecer sobre todos os demais são os do povo ucraniano.

Em democracia, a vontade soberana dos povos exerce-se através de eleições livres e democráticas. Na Ucrânia, foi eleito um Presidente e um Parlamento, o que nunca aconteceu, por exemplo, na Arábia Saudita ou nalguns Estados do Golfo. Aqui as manifestações são violentamente reprimidas por tropas sauditas chamadas a manter os reinos obscurantistas que o Ocidente tanto preza.

Não há dúvida que o Presidente foi contestado em vários momentos, o que acontece em vários países.
Em Portugal, a título de exemplo, o Governo é diariamente contestado até pelas próprias forcas de segurança. Em Kiev, os manifestantes não foram pedir eleições antecipadas, mas para derrubar o Governo e através da “democracia direta” escolher os ministros em plena Praça Maidan, o que em nenhum país do mundo seria aceite.

Para tanto, estas dezenas de milhares de manifestantes usaram as mais diversas armas democráticas: cocktails-molotov, sabres e armas de fogo. Entraram em confronto armado com as forças policiais.

Os mandatários das principais potências da NATO logo se movimentaram para dar todo o seu apoio a este movimento. Estes combatentes de armas na mão não eram terroristas, como são os palestinianos que lutam pela independência. São democratas que rasgaram o acordo celebrado dois dias antes da tomada do poder pelos sitiantes entre os representantes da França, Polónia e Alemanha para a realização de eleições. Os negociadores não estavam a negociar. Estavam a fazer de conta até que a situação descambasse.

São os que se empenharam a fundo em aceitar que o Kosovo, parte integrante da Sérvia, pudesse ser independente sem mais... e porque a maioria era albanesa... Na Crimeia, é russa... O referendo entretanto realizado confirma esse facto: neste quadro, os russos da Crimeia não querem ser governados por Kiev, tal o grau de enfeudamento à NATO do novo poder ucraniano.

Dizem os alemães, os polacos e os franceses e sobretudo os EUA que os interesses ocidentais coincidem com o novo poder em Kiev e com ele estão totalmente solidários. Não é nada de novo. Está a acontecer na Venezuela com um Presidente eleito em eleições universalmente reconhecidos como livres, tal como na Ucrânia.

Dito de uma maneira simples: para os ocidentais, a legitimidade de um regime não depende de eleições, tal como não depende nos emirados, sultanatos e reinos do Golfo, mas sim do modo como os seus interesses são defendidos.

É a real política das potências que mandam. Só que para desmitificar o invocado apoio às “democratizações” façamos o seguinte raciocínio: se no México as eleições forem ganhas pela esquerda, que estabelece com os países que entender os mais diversos acordos, nomeadamente com Cuba, Equador, Brasil, Argentina e Venezuela? Decidem celebrar acordos militares dentro das suas ordens constitucionais. Entabulam relações de carácter militar com a China, Rússia e com quem mais entenderem. São capazes de imaginar a reação dos EUA? Os EUA iriam na sua fronteira do sul permitir tais acordos? Não se está sequer a falar de bases militares, apenas de acordos...

Teríamos seguramente uma crise tão grave como a crise dos mísseis nas Caraíbas aquando da revolução cubana.

É preciso ter em conta que uma das primeiras decisões do novo Governo foi proibir o russo na Crimeia, onde a maioria da população fala russa. Por isso os que os que apregoam as virtudes do Ocidente e as maldades da Rússia deviam lembrar-se do que se passa nos seus países.

O Presidente Cavaco Silva e o primeiro-ministro Passos Coelho admitiriam, por mero exercício académico, que trinta ou quarenta mil manifestantes tomassem os ministérios da Justiça, da Administração Interna, as escadas do Parlamento e escolhessem no Terreiro do Paço os ministros? Será que o Ocidente os apoiaria?

ADVOGADO

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