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sábado, 22 de março de 2014

Cem pessoas festejaram na rua o referendo na Crimeia

Bandeira soviética à porta do Parlamento da Crimeia
PAULO MOURA (em Simferopol)   07/03/2014  - 01:36


Após a decisão do parlamento de Simferopol, teme-se uma atitude mais dura das forças que ocupam a Crimeia em relação às unidades ucranianas que estão sitiadas

Num clima surrealista, as novas autoridades da Crimeia anunciaram ontem a sua decisão de anexar o território à Rússia. Será realizado um referendo no próximo dia 16, só para ratificar o que já está decidido, acrescentaram. A partir de agora, quaisquer forças militares na península serão consideradas hostis e serão tratadas em conformidade, disseram ainda.

Em frente ao edifício do Parlamento, uma pequena multidão com bandeiras russas gritava: “Viva a Rússia!” “Viva Putin!” Ao microfone sucediam-se vozes entusiásticas invocando a grandeza da Rússia e agradecendo ao Presidente Vladimir Putin a sua generosidade.

Um cordão de milicianos pró-russos cercava a entrada do parlamento, coadjuvados por soldados vestidos de cossacos, com farda verde e barrete de pêlo. Mulheres aparentemente muito felizes corriam a abraçá-los. Nos altifalantes começaram a soar cancões russas. Algumas soviéticas. Uma enorme bandeira vermelha com a foice e o martelo ondulava entre os manifestantes. Um homem mostrava um cartaz com a frase em inglês:
“America don’t kill people ” As mulheres vestiam casacos de peles, por vezes muito usados, e os homens velhas fardas russas ou soviéticas, bonés do Exército Vermelho ou barretes cossacos, e todos gritavam: “Rússia! Rússia! Viva a Rússia!”

As informações fornecidas pelo vice-primeiro-ministro do governo pró-russo da Crimeia, Rustam Temirgaliev, que falou aos jornalistas, não foram muito claras. Disse que o referendo se realizaria dia 16 (o mesmo governo tinha-o marcado para dia 30) e que se destinava apenas a “confirmar” a decisão do parlamento. Um deputado tinha garantido minutos antes que a decisão desta quinta-feira era apenas a “posição” do parlamento, sem efeitos até ao referendo. Para Temirgaliev, a decisão “já está em vigor” desde esta quinta-feira.

Disse até:”Um grupo de especialistas russos está cá a preparar a introdução do rublo na região.” E que toda a propriedade pertencente ao Estado ucraniano seria nacionalizada.

No entanto, os habitantes da Crimeia, pertencentes aos vários grupos étnicos, precisou, poderão escolher entre a anexação imediata na Rússia e um regime de maior autonomia, no seio da Ucrânia. No caso de vitória desta última opção, explicara o líder de uma milícia, previamente industriado sobre o plano, a “integração na Rússia será feita depois, por etapas”.

Com o actual clima de intimidação e polarização, e considerando que os russos constituem cerca de 60% da população da Crimeia, é previsível que a opção pela anexação vença o referendo. Tanto mais que os representantes da comunidade tártara (12% da população) já fizeram saber que tencionam boicotar o referendo.

Em Kiev, o primeiro-ministro interino, Arseni Iatseniuk (que foi eleito por um sistema de braço no ar e gritaria na Maidan), rejeitou a decisão do governo de Simferopol (que foi nomeado e empossado por um grupo de milicianos armados e mascarados que atacou o parlamento).

“Isto é uma decisão ilegítima", disse Iatseniuk. “Este suposto referendo não tem qualquer base legal. A Crimeia foi, é e será parte integrante da Ucrânia.” E disse ainda: “No caso de haver uma escalada e uma intervenção militar no território ucraniano por parte de forças estrangeiras, o Governo ucraniano e as Forças Armadas ucranianas agirão de acordo com a Constituição e as leis. Estamos prontos para defender o nosso país.”

Na Crimeia, várias bases militares estavam cercadas por forças russas (que continuavam a não se identificar como tal, apesar de um membro do governo de Simferopol ter dito ontem que só as forças russas no território seriam consideradas legítimas). No interior das bases, os militares ucranianos continuavam sitiados, sem se terem rendido. Vários navios ucranianos estavam também bloqueados no mar por vasos de guerra russos pertencentes à Frota do Mar Negro, fundeada em Sebastopol.

Não são claras as intenções das novas autoridades russas quanto aos militares ucranianos, mas é de recear uma atitude mais agressiva a partir desta sexta-feira. Ignora-se também qual será a reacção dos ucranianos.

Na praça em frente ao parlamento de Simferopol, a euforia era diferente da dos dias anteriores. As cerca de cem pessoas dançavam e saltavam agora sem quaisquer constrangimentos, apesar da idade que já pesava sobre a maioria. “Isto é uma vitória. Sinto que entrámos na nossa casa. É o dia mais feliz da minha vida”, disse Natalia, 67 anos.

A atitude dos elementos das milícias e do corpo de cossacos, que tinha ultimamente vindo a tornar-se mais dura para com jornalistas não russos e para com membros de organizações internacionais, é agora abertamente hostil. Há dois dias, Robert Serry, o enviado especial do secretário-geral da ONU ao território, foi ameaçado por milicianos armados nas ruas de Simferopol e teve de abortar a sua missão. Ontem de manhã, uma delegação de observadores da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) foi impedida por milicianos de entrar na Crimeia.~

À tarde, depois do anúncio da integração na Rússia, duas mulheres em topless correram entre os manifestantes pró-anexação e os elementos das milí­cias, gritando: “Parem a guerra de Putin!” Eram activistas do grupo Femen e tinham a mesma frase escrita no peito nu. Uma delas foi logo detida pelos milicianos fardados de cossacos, mas a outra con­seguiu correr pelo pátio do parlamento, gritando a plenos pulmões. Os jornalistas correram atrás dela, tal como fizeram os milicianos e os “cossacos”. O orador que estava na altura ao microfone do comício gritou: “Prostituta!” E depois: “Isto é uma provo­cação!” Várias vezes: “Rússia! Rússia! Rússia!” Por fim: “Isto é só espectáculo para os jornalistas! Tirem daí os jornalistas!”


Era o que os “cossacos” queriam ouvir. Desataram a empurrar, a arrastar, a agredir os jornalistas. Pelo menos um caiu e foi pontapeado no chão. A mulher seria finalmente agarrada e transportada a espern­ear por quatro homens. Meteram-na numa carrinha e levaram-na. Nos altifalantes recomeçaram as canções patrióticas russas.

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