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segunda-feira, 21 de maio de 2018

As incertezas e os méritos deixados por Afonso Dhlakama

MOÇAMBIQUE
Bárbara Reis
3 de Maio de 2018, 18:23 

O desaparecimento do Presidente da Renamo abre um processo de luta pela sucessão. 
Dhlakama preparou alguém? 
Quem vai avançar? 
O partido quer um civil ou um militar?

O político e ex-guerrilheiro moçambicano Afonso Dhlakama, líder da Renamo há quase 40 anos, morreu esta quinta-feira à tarde na sequência de uma crise diabética, confirmaram ao PÚBLICO duas fontes que acompanham de perto o processo de paz e a política de Moçambique. 
Dhlakama terá morrido a bordo de um helicóptero que o transportava para tratamento médico urgente.

O líder do maior partido da oposição de Moçambique tinha 65 anos e vivia na região da Gorongosa, no centro do país, para onde se mudou após o regresso da guerra civil, em 2014. 
Desde o último cessar-fogo entre a Renamo e a Frelimo, no poder, em Março de 2017, que se esperava que Dhlakama regressasse a Maputo e liderasse a oposição a partir da capital.

"Há 40 anos que a Renamo é Dhlakama, Dhlakama, Dhlakama, Dhlakama. 
Vai ser um processo interno difícil e complicado", disse ao PÚBLICO um observador da política moçambicana que pediu para não ser identificado. 
Não é claro quem vai ser o seu sucessor no partido.

"Que se saiba, Dhlakama não tinha um sucessor indicado e não há um homem ou mulher forte evidentes para o substituir", diz Fernando Jorge Cardoso, especialista em assuntos africanos e professor de Economia no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa.


Novo líder: civil ou militar?

Ivone Soares, sobrinha de Dhlakama e líder da bancada parlamentar da Renamo na Assembleia da República, em Maputo, tem apoiantes. 
Mas o que alguns vêem como vantagens, outros vêem como desvantagens.
"É uma mulher jovem, urbana, cosmopolita e com um discurso que faz sentido, e a Renamo é um partido que precisa de se rejuvenescer e renovar" mas onde domina ainda a ideia dos "companheiros de armas" ao lado de quem se lutou na guerra civil, diz Fernando Jorge Cardoso, que é também investigador do Instituto Marquês de Valle Flôr. 
Outro possível candidato à sucessão é Manuel Bissopo, secretário-geral do partido.

"Moçambique não é uma monarquia e a Renamo tem estatutos muitos claros", alerta numa conversa por telefone um político moçambicano. 
"Depois do luto, haverá um congresso e as bases é que vão eleger o novo líder."

São muitas as questões em aberto. 
Será que Dhlakama, estando doente há muito tempo, preparou discretamente um sucessor durante os últimos três anos na Gorongosa? 
"Será que preparou um general no mato?", pergunta o mesmo político moçambicano. 
É improvável que, pelo menos junto do seu círculo mais íntimo e de confiança extrema, o Presidente da Renamo não tenha discutido o assunto.

Independentemente de o futuro líder da Renamo vir a ser civil ou militar, homem ou mulher, é seguro dizer que "começa hoje uma nova era", diz outro observador da política africana.

Este será um processo praticamente inédito na história da Renamo, uma vez que, para além de Dhlakama, o partido só teve um outro líder: André Matsangaíssa foi comandante da Renamo entre 1975 e 1979. 
Após a sua morte, durante a guerra civil, Matsangaíssa foi sucedido por Dhlakama, então com 26 anos.

Os "dois méritos" de Dhlakama

Fernando Jorge Cardoso, que nos anos 1970, a seguir à independência de Moçambique, esteve ao lado da Frelimo e com a qual trabalhou, identifica dois méritos em Dhlakama, que correspondem às duas vidas da Renamo: "Foi capaz de transformar um movimento militar — que começou por ser formado pelos serviços secretos da Rodésia do Sul com um perfil de força de contenção e controlo de fronteiras — num movimento nacional de resistência e luta contra a Frelimo. 
No início, a Renamo juntava os 'flechas', os comandos e os homens controlados por Jorge Jardim [o famoso operacional que, durante a ditadura portuguesa, despachava directamente com António de Oliveira Salazar], mais os moçambicanos negros que tinham lutado com as Forças Armadas do Estado Novo. 
Os serviços secretos rodesianos acolheram-nos e treinaram-nos. 
A Renamo era comandada a partir da Rodésia do Sul e, mais tarde, a partir de Pretória. Dhlakama faz essa transformação. 
Conseguiu apoio na população para lutar ao seu lado e, mais tarde, logo nas primeiras eleições, em 1994, conseguiu um forte apoio popular, uma margem muito maior do que a Frelimo esperava."

"O segundo mérito", continua o professor Fernando Jorge Cardoso, "foi conseguir chegar a um acordo de paz resolvendo os problemas que tinham ficado por resolver" no acordo de paz de Roma, ou seja, incluindo a polícia e os outros órgãos de segurança no processo de integração dos ex-guerrilheiros da Renamo na sociedade moçambicana. 
O Acordo Geral de Paz, assinado em 1992 entre o então Presidente Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, abrangeu apenas o Exército.

Neste primeiro dia de Moçambique sem Dhlakama, o professor tem uma certeza e duas interrogações. 
A primeira é que, "felizmente, a estrada foi aberta e a preparação para o machado de guerra ser enterrado foi feita". 
Nesse aspecto, está optimista. 
"Ninguém está interessado em voltar à guerra, nem num lado, nem no outro."

As dúvidas têm a ver com o impacto que o processo de sucessão poderá a vir a ter nas próximas eleições. 
Moçambique vai ter eleições autárquicas em Outubro e legislativas e presidenciais em Outubro de 2019. 
A Renamo contestou as últimas eleições legislativas, em 2014 (57% para a Frelimo, 36,6% para a Renamo e 6,3% para o MDM) e recusou participar nas últimas municipais. 
Estava, de certo modo, afastada do processo político. 
"Agora havia acordo. 
A Renamo tinha decidido participar nas eleições. 
Nesse sentido, a morte de Dhlakama poderá perturbar o processo" —  mesmo que seja apenas ao nível da logística e do tempo, pois os órgãos do partido vão ter de reunir e organizar um congresso para a sua sucessão, a atenção do aparelho partidário vai ser redireccionada. 
"Nesse sentido, vai haver um retrocesso", diz o professor.

A outra dúvida refere-se à Frelimo: será que o partido no poder vai tentar fazer algum aproveitamento político da situação, encarando a Renamo como um partido enfraquecido? O Presidente Filipe Nyusi, acredita o especialista, "dará o máximo para tentar que a Renamo entre nas eleições: ele sabe que isso é do interesse da própria Frelimo".

Depois de dois anos (2014-16) de um regresso à guerra civil ao qual chamaram “tensão político-militar”, Nyusi e Dhlakama acordaram um cessar-fogo, encontraram-se pessoalmente e começaram a falar ao telefone. 
O escândalo da "dívida oculta" (desapareceram 2,2 mil milhões de dólares dos cofres do Estado) deixou o país mergulhado numa profunda crise, com falta de cash e de credibilidade internacional. 
O FMI e a comunidade de doadores suspenderam contribuições financeiras previstas — incluindo Portugal, que mantém o apoio a projectos sociais, mas congelou a sua participação regular para o Orçamento do Estado moçambicano. 
Para adensar a crise, Maputo mantém um silêncio constrangedor sobre o desaparecimento de Américo Sebastião, um empresário português desaparecido na Beira em 2016, e as relações bilaterais entre Lisboa e Maputo estão muito tensas, sobretudo nos bastidores.

Não é por acaso que, na nota oficial a lamentar a morte de Dhlakama, o gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, elogia o "empenhamento" do líder da Renamo no processo que levou ao acordo de paz de 1992 e às tréguas de 2016-17, mas "faz votos para que este desígnio seja plenamente realizado, em prol da estabilidade e desenvolvimento de Moçambique".

breis@público.pt

Ossufo Momade eleito líder interino da Renamo

MOÇAMBIQUE
Público
5 de Maio de 2018, 15:42 

Ainda não foi marcada data para o congresso para eleger líder da Renamo. Cerimónias fúnebres do histórico líder do maior partido da oposição de Moçambique têm lugar na quarta-feira.

Ossufo Momade, ex-deputado e antigo secretário-geral da Renamo, foi nomeado presidente interino do movimento na sequência da morte do histórico líder do maior partido da oposição moçambicana, Afonso Dhlakama.

A informação foi avançada pelo porta-voz da Renamo neste sábado, afirmando que “o tenente-general Ossufo Momade foi eleito por unanimidade” para suceder a Dhlakama de forma interina.

Em conferência de imprensa, Momade prometeu dar seguimento ao legado de Dhlakama, adiando para já o anúncio da data do congresso para eleger um novo líder: “No momento em que estamos de luto vamos organizar o funeral do nosso comandante”. 
“Ainda não é o momento para encontrar uma data para isso tudo”, referiu.

Também neste sábado, a Renamo anunciou que as cerimónias fúnebres de Dhlakama vão decorrer na quarta-feira, dia 9 de Maio.

Presidente Nyusi na cerimónia fúnebre de Dhlakama

MOÇAMBIQUE
Lusa
8 de Maio de 2018, 16:20 
Filipe Nyusi, e Afonso Dhlakama
O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, participa na quarta-feira nas cerimónias fúnebres de Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que se realizam na cidade da Beira.

A cerimónia, que está a ser preparada por uma comissão que inclui familiares de Dhlakama, membros da Renamo e do Governo moçambicano, realiza-se num espaço público ao ar livre que tem capacidade para cerca de 15 mil pessoas, indicou o ministro da Justiça, Isac Chande, que lidera a comissão organizadora.

A Assembleia da República adiou os debates em plenário para que os deputados possam participar.

De acordo com a comissão que organiza a cerimónia, Filipe Nyusi deverá tomar a palavra para fechar as intervenções numa cerimónia em que serão lidas várias mensagens dedicadas ao líder da oposição.

Os restos mortais de Afonso Dhlakama seguem depois para a sua terra natal, Mangunde, onde será velado pela comunidade local até ser sepultado na quinta-feira, com honras oficiais decretadas pelo Governo.

O líder do partido morreu na quinta-feira aos 65 anos, na Serra da Gorongosa.

Em Moçambique, elas continuam a lutar pela paz

OPINIÃO
Maria Paula Menezes
11 de Maio de 2018, 6:30

Restabelecer o papel das mulheres na história de Moçambique, democratizando-a, é um dos grandes desafios que ainda se coloca à libertação da opressão patriarcal, um dos principais objetivos da luta política atual.

A construção democrática de qualquer estado-nação é um processo complexo, onde vários projetos políticos se confrontam. 
Independente desde 1975, a história recente de Moçambique é marcada por múltiplos episódios de violência: a guerra de libertação nacional/colonial, o conflito com a Rodésia e com a África do Sul do apartheid. Mas foi a guerra civil que mais marcou (e marca) o tecido social moçambicano. 
Iniciada pouco tempo após a independência, as razões deste conflito continuam por apaziguar. 
E apesar de um acordo de paz ter sido firmado em 1992, este acordo não trouxe a tão desejada paz, apenas tréguas e negociações que se arrastam até hoje.

A guerra maltrata corpos e sentimentos; a guerra destrói as sociedades, física, emocionalmente e mentalmente. 
Os conflitos violentos que têm abalado o país têm tido efeitos devastadores no tecido social, na economia e nas propostas de democratização de Moçambique. 
De uma história assumida de luta contra o colonialismo português, o atual processo de construção nacional, num contexto de grande diversidade étnico-cultural, tem conhecido (re)visões históricas conflituantes, potencialmente disruptivas do projeto político nacional.

A história busca dar sentido às ações humanas. 
Mas qualquer narrativa histórica gera representações ambíguas, produzindo violência histórica. 
No caso moçambicano, embora as diferenças políticas e económicas subjacentes aos projetos das forças beligerantes estivessem longe de ser intransponíveis, como os recentes avanços negociais sugerem, a animosidade e amargura que permeiam a leitura deste conflito pelos cidadãos ilustra a dificuldade de se alcançar uma solução política que garanta efetivamente a chegada da paz.

Num outro patamar, uma análise mais minuciosa destas negociações deixa entrever, nas narrativas dominantes o controlo masculino na busca de uma solução para o conflito. 
Um rápido inventário das caracterizações dos líderes políticos envolvidos nas negociações apresenta-nos o ‘pai da independência’, o ‘pai da paz’, o ‘pai da democracia’. 
A ausência do feminino nos discursos políticos exige de nós uma reflexão sobre a participação efetiva das mulheres na busca da paz.

Os muitos estudos feitos sobre o passado recente mostram como a violência colonial e patriarcal andam de mãos dadas; em Moçambique, na guerra de libertação, as mulheres combatentes foram construídas como as que ‘alimentam, produzem e mobilizam’ os combatentes. 
Essa construção de género da moçambicana em função da maternidade reforçou a visão patriarcal da nação. 
E assim as vozes das mulheres sobre a sua experiência de opressão, violência e resistência permanecem enterradas sob camadas de silenciamento.

Uma leitura atenta da guerra civil que marcou Moçambique releva o peso brutal que esta guerra representou para as mulheres: garantir o sustento da família, suturar laços familiares estraçalhados, ser o pilar de segurança da família. 
Em suma, garantir a vida, mediar a paz nos gestos e ações quotidianas. 
Mas esta presença gritante parece desvanecer-se quando chegam as negociações ‘oficiais’ para a paz. 
Esta realidade está ligada aos debates sobre a objetividade histórica no Moçambique contemporâneo. 
As várias alianças entre perspetivas masculinas e libertadoras sobre os sentidos das guerras têm gerado narrativa políticas legitimadoras das lideranças política em conflito, tornando-as categóricas. 
Esta estratégia está intimamente associada à glorificação, principalmente dos guerrilheiros homens, e ao silenciamento da presença de milhares de mulheres que participaram ativamente destas lutas. 
Num contexto em que os projetos políticos são moldados, também, por opções políticas sexistas e geracionais (especialmente as gerações dos ‘libertadores da pátria’ e dos ‘libertadores da democracia’) as propostas de uma paz partilhada por todas e todos não se afiguram fáceis.

Mas as histórias silenciadas, protegidas por memórias subalternas continuam presentes, lembrando que a narrativa sobre a transição política não foi linear, e não é um património monolítico, protagonizado por uma só voz política. 
A história da participação política de mulheres nas lutas nacionalistas no contexto moçambicano é extensa. 
Como também é extensa a lista das personagens que se procurou remover da história, sem grande sucesso.  

A história de Moçambique integra múltiplas narrativas contraditórias sobre processos políticos e identitários. 
As narrativas de luta das mulheres expõem raptos, violações, ultrajes à dignidade humana, abusos dos direitos humanos cometidos por forças militares e de segurança. 
Mas é também uma história de negociações, redes de solidariedade e de múltiplos episódios de resistência. 
Estas narrativas revelam uma variedade de tensões e antagonismos que permearam (e ainda permeiam) a sociedade moçambicana. 
Descartar estas memórias é uma forma de manter silenciamentos. 
É, sobretudo, insistir numa visão abissal monocórdica e sexista sobre os factos e acontecimentos, sobre experiências de resistências, sobre múltiplas racionalidades políticas que compõem o mapa das memórias do que é Moçambique.

A ausência de uma presença ativa política das mulheres na busca de uma solução digna que promova a liberdade e a dignidade evidencia a herança de um conflito mais amplo que ainda precisa de ser tratado em toda a sua complexidade. 
Esta realidade ajuda a explicar porque juntas, mulheres jovens e não tão jovens insistem que a luta continua, um sinal claro de que a libertação e a dignidade não foram ainda plenamente alcançadas pelas mulheres de Moçambique.

Investigadora coordenadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Renamo “não tem pressa” em substituir Dhlakama

MOÇAMBIQUE
Bárbara Reis
15 de Maio de 2018, 19:09 
Como é que se substitui um líder que dominou um partido durante 40 anos e morreu sem aviso nem sucessão planeada? 
O antigo representante da Renamo em Portugal admite que o partido ainda não tem uma estratégia. 
"É preciso ter calma."






A Renamo está de luto até 14 de Junho e não tem pressa em iniciar o processo de substituição de Afonso Dhlakama, o líder histórico do maior partido da oposição de Moçambique que morreu no início do mês, disse ao PÚBLICO António Chichone, que foi representante da Renamo em Portugal nos últimos 15 anos.

Ainda sem estratégia para a sucessão, a cúpula tem sobre a mesa três cenários para escolher o sucessor. 
A decisão caberá à Comissão Política Nacional da Renamo, que tem 11 membros, e que nomeou o ex-guerrilheiro Ossufo Momade como novo coordenador, cargo que Dhlakama ocupou até à morte. 
“É a comissão que vai decidir se o novo líder será escolhido num congresso extraordinário, pelo Conselho Nacional ou por um Conselho Nacional alargado”, disse Chichone, representante da Renamo em “Portugal, Europa e resto do mundo" entre 2002 e 2017 e que hoje, embora seja apenas um militante, continua a ser um porta-voz semioficial do partido. 
O Conselho Nacional tem 100 membros.

Um dos factores desta equação é o dinheiro, já que “pode não haver fundos para fazer um congresso neste momento”, admite Chichone. 
Mas não é o único.

“Fomos apanhados de surpresa com a morte de Sua Excelência o Presidente Afonso Dhlakama”, diz o ex-representante da Renamo. 
“Ele foi um pai, um guia, um mestre. 
Era um homem com uma dimensão universal. 
O mobilizador que ele era, o carismático que ele era, o político que ele era, o estratega que ele era... não será fácil substituir. 
A dificuldade não seria tão grande se o vazio não fosse tão grande.”

O timing parece ser o menor dos problemas. 
“O partido não está parado, nem na corda bamba, mas não posso dizer se a eleição do novo líder vai ser daqui a quatro ou seis meses — ou depois de amanhã. 
Pode ser antes das autárquicas ou depois. 
É prematuro. 
Estamos todos expectantes para saber quem vai ser o novo líder, para sairmos desta angústia, mas temos de ter calma, não podemos fazer isto a correr”, diz Chichone. 
A pressa interessaria apenas aos “inimigos da Renamo”, aos que querem “ver o partido cair do cavalo”.

O perfil do futuro líder

Uma coisa é clara para Chichone: o perfil ideal do sucessor. 
“O partido tem de escolher uma pessoa das bases, humilde e humana, sem medo, com vocação e que reflicta o sentimento do povo, com um discurso motivador — porque a Renamo é um partido de bases e as bases procuram esse aconchego. 
E tem de ser próximo dos militares e dos civis.”

No funeral de Dhlakama, a 9 de Maio, na cidade da Beira, centro do país, Filipe Nyusi, Presidente moçambicano e líder da Frelimo, não só fez um elogio ao antigo rival como apelou a que, em sua homenagem, o processo de paz seja consolidado e os acordos feitos respeitados. 
António Chichone faz o mesmo apelo: “Dhlakama lutou pela democracia em Moçambique até ao seu último suspiro. 
Morreu na mata, sem médicos, sem remédios. 
Foi um grande herói de Moçambique. 
Muitos esperaram uma cisão, mas isso não aconteceu: a sua morte uniu ainda mais o partido.”

A primeira decisão nesse sentido é concorrer às eleições autárquicas de Outubro. Dhlakama “queria que as pessoas se recenseassem e é isso que temos estado a fazer — apelar ao recenseamento para as autárquicas, que está a terminar”, diz Chichone. 
“A Renamo vai participar nas autárquicas. 
Não há dúvida. 
Essa é a melhor forma de honrar Sua Excelência o Presidente.”

Nyusi e Dhlakama tinham acabado de chegar a acordo quanto à descentralização — um dos três temas por resolver desde o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, em 1992, entre o então Presidente Joaquim Chissano e Dhlakama. 
Os governadores das 11 províncias de Moçambique são nomeados pelo Presidente e a Renamo há muito que defende que devem ser eleitos por sufrágio universal. 
O partido da oposição também propôs alterações relativas aos administradores distritais (nomeados pelo Ministério da Administração Estatal e Função Pública) e a forma como são eleitos os presidentes dos 53 municípios. 
“No fim de Fevereiro, os dois líderes [Nyusi e Dhlakama] decidiram que deve haver mudanças e que devia ser o parlamento a decidir quais.” 
O acordo em relação à integração dos antigos guerrilheiros da Renamo nas forças de segurança nacionais também estará muito avançado.

Há o receio, admite Chichone, de que os acordos “sejam postos na prateleira”, agora que a Renamo não tem presidente. 
Mas como muitos moçambicanos e analistas, este porta-voz semioficial acredita que chegou o momento de “mostrar ao mundo que os moçambicanos conseguem entender-se e dar-se bem”. 
E por isso, neste momento, tem um desejo acima de todos: “Que Deus inspire os nossos representantes na Comissão Política.”

breis@público.pt

“Hoje as bases da Renamo são pessoas de meia-idade: querem oportunidades para os filhos”

ENTREVISTA
Bárbara Reis
21 de Maio de 2018, 7:02
Duas semanas após a morte do líder histórico, especialista em política africana faz ponto da situação: os sinais positivos, os retratos cirúrgicos e a antecipação do futuro de Moçambique segundo Alex Vines.








Alex Vines, fundador e director do Programa de África da Chatham House, o prestigiado think tank britânico, conhece Moçambique desde 1984. 
Publicou um livro em 1991 (Renamo: terrorism in Mozambique) e integrou a equipa eleitoral da UNOMOZ, a missão da ONU que acompanhou as presidenciais de 1994, em Chibuto, província de Gaza. 
Vines é o tipo de analista que, a seguir à morte de Afonso Dhlakama, telefona a várias pessoas da Renamo e da Frelimo para tomar o pulso ao ambiente político. 
Diz que os ex-guerrilheiros continuam a ter muito poder e que a escolha de Ossufo Momade para supervisionar a transição da Renamo após a morte do líder histórico o coloca como o candidato mais forte na linha de sucessão.

O que viu de relevante em Moçambique desde a morte de Dhlakama, a 3 de Maio?

Foi muito importante o facto de o funeral ter tido muita dignidade. 
O discurso do Presidente de Moçambique e de outras pessoas no funeral; a presença de diferentes grupos da Renamo nas cerimónias; do outro partido, o MDM [Movimento Democrático de Moçambique], com Daviz Simango e José Domingos; e até Ivete Fernandes, viúva do antigo secretário-geral da Renamo [Evo Fernandes, assassinado em Lisboa em 1988]: tudo isso foi muito importante e vai ajudar a Renamo no futuro. 
A nomeação de Ossufo Momade como líder interino também é uma boa decisão, porque uma parte-chave da Renamo são os militares e os funcionários públicos de meia-idade. Ossufo vai conseguir gerir essa transição de forma responsável. 
Tive uma surpresa: a intervenção no funeral de Ivone Soares, a sobrinha de Dhlakama. Percebo que é uma das candidatas à sucessão de Dhlakama, mas nas cerimónias fúnebres soou deslocada. 
Avaliou mal a situação, usando-a para aumentar a sua base de apoio na corrida à liderança do partido.

O que quer dizer com “má avaliação”?

O Presidente Nyusi mostrou atitude de Estado e sensibilidade, dada a história difícil entre a Renamo e a Frelimo. 
A única nota desafinada foi Ivone Soares. 
A meu ver, isso significa que ela estará a sentir-se sob pressão e enfraquecida. 
Ela apoiava-se muito no tio. 
A morte de Dhlakama muda essa dinâmica.

O que o impressionou tanto na intervenção de Ivone Soares?

Estava muito emocionada, não usou um tom muito conciliador, tentou apelar ao apoio dos jovens da Renamo, mostrou demasiado as suas credenciais — deixando claro que era a sobrinha de Dhlakama e líder da bancada parlamentar da Renamo na Assembleia da República. 
Foi um discurso que surpreendeu. 
Em inglês dizemos raised eyebrows. 
E, no caso, Ivone Soares fez enrugar a testa à Frelimo, aos diplomatas e até na própria Renamo houve caras de espanto. 
É claro que ela estava comovida. 
Dhlakama é da família, não é apenas o seu líder. 
Isso explica uma parte. 
Mas também é indicativo de que a luta pela sucessão está em cima da mesa.

Na Renamo, há alas que a vêem como uma mulher demasiado jovem, urbana e cosmopolita para representar o partido. Qual é a sua leitura?

Tudo isso é verdade. 
Não me parece que um moçambicano de 40 ou 50 anos que vive em Sussundenga [Manica] ou Gorongosa [Sofala] lhe dê grande atenção. 
O poder de Ivone Soares decorre muito do seu tio. 
Ela é uma senhora de Maputo, cosmopolita e urbana. 
E, além disso, não tem muito autocontrolo e tem grande dificuldade em perdoar a Frelimo. É neste aspecto que ter Ossufo Momade como figura de transição — e ele pode vir a tornar-se o líder da Renamo — é uma boa escolha. 
Ele é mais ponderado, tem a experiência da guerra, tem o respeito dos antigos combatentes. 
Alguma imprensa, sobretudo da África do Sul, disse que “a Renamo de Momade” ameaçara abandonar as negociações de paz com a Frelimo, mas não é de todo verdade. 
Não há dúvida sobre qual é a vontade da Renamo: eles querem acordos de paz duradouros. 
O processo de paz vai avançar. 
Esse foi o último desejo de Dhlakama. 
Ele compreendia as pessoas do centro de Moçambique, que são as bases do partido. Sabia o que elas querem. 
Hoje, as bases da Renamo são pessoas de meia-idade: querem oportunidades para os filhos. 
Isso significa que há aqui uma possibilidade. 
Mas os políticos têm de agir com boa-fé. 
Tanto a Renamo como a Frelimo.

Civil ou militar: qual é o melhor perfil para o futuro líder da Renamo?

A escolha terá que ser feita pelo partido. 
Na Renamo nunca houve discussão democrática. 
Tudo girou sempre em torno do comandante Dhlakama. 
Vamos ver quão aberto vai ser este debate. 
Mas o facto é que a principal base de apoio da Renamo são os ex-guerrilheiros do centro de Moçambique. 
São eles que dão à Renamo o poder negocial que obriga o governo a negociar e a chegar a compromissos. 
Imagino que os militares vão ter um papel predominante nesta questão. 
A escolha de Ossufo Momade para supervisionar a transição já mostra isso. 
Dos três interessados ao lugar — Ivone Soares, Bissopo e Momade — ele está, naturalmente, na posição mais forte. 
É um antigo guerrilheiro. 
Bissopo é de uma geração mais nova, nunca lutou na guerra civil, que acabou em 1992. Aliás, uma das coisas incríveis da Renamo é que os “seus” jovens votam no partido, mas não querem lutar por ele. 
Há anos que toda a actividade militar da Renamo é feita por homens de meia-idade e são eles próprios que dizem aos jovens para se manterem afastados do conflito e concentrarem-se na sua educação. 
Esta é uma questão geracional. 
E é um sinal forte de que a Renamo quer encontrar uma solução duradoura para as questões pendentes. 
Parece que a eleição dos governadores [das províncias, hoje nomeados pelo Presidente da República] está resolvida: a Frelimo já concordou e só falta oficializar. 
Quanto aos outros temas pendentes — integração dos ex-militares nas forças de segurança nacionais e a desmobilização — há um acordo praticamente fechado. 
Quando Dhlakama morreu, estavam a oito semanas de o terminar.

A morte de Dhlakama ajuda ou complica esse processo?

A curto prazo, vai desacelerar o processo. 
Penso que não vão conseguir anunciar um acordo dentro das oito semanas previstas — vão estar ocupados a encontrar um novo líder. 
Mas a longo prazo, e se o Governo agir de boa-fé, pode significar a sobrevivência do acordo. 
Uma das fraquezas de Dhlakama era ser inconsistente. 
A sua opinião era a da última pessoa com quem tinha falado. 
Melhorou muito com os anos, mas a complexidade da sua personalidade pode significar que a implementação dos acordos que venham a ser feitos seja mais fácil e mais duradoura sem ele. 
Nesse aspecto, Momade é muito diferente.

A Renamo ainda não decidiu se o novo líder será escolhido num congresso extraordinário, pelo Conselho Nacional ou por um Conselho Nacional alargado. Ainda é um partido sem regras internas claras?

Sim. 
Os congressos da Renamo foram sempre simples exercícios de confirmação de Dhlakama. Até houve um congresso que teve de ser feito por telefone: Dhlakama estava escondido no centro, ligou para a Beira, onde os militantes estavam reunidos, e foi reconduzido por telefone. 
Para mim, o que é surpreendente é a Renamo — mesmo tendo Dhlakama estado várias vezes à beira de ser morto pelo Governo — nunca ter acreditado que um dia ele morreria. Estavam totalmente impreparados para a sua morte. 
Isto também mostra que Dhlakama era um homem muito inseguro e que nunca deu espaço para que outros emergissem — talvez a excepção tenha sido, um pouco, a sobrinha. 
Na Renamo, a sucessão nunca foi tema de debate.

Uma das questões é saber se a Renamo tem fundos para fazer um congresso extraordinário para eleger o futuro líder.

A Renamo não tem dinheiro, tem muito pouca experiência e todas as pessoas do partido com quem falei nos últimos dias estão muito traumatizadas com a morte de Dhlakama. 
Não há instituições, não há procedimentos. 
Os congressos do partido nunca foram democráticos. 
O paradoxo é que Dhlakama autoproclamou-se “pai da democracia de Moçambique” — e a Renamo forçou, com sucesso, a abertura do espaço político —, mas nunca houve democracia na Renamo. 
O primeiro congresso foi organizado pelo governo da África do Sul no tempo do apartheid. A história da Renamo está cheia de contradições. 
Infelizmente é para “inglês ver”, nada mais. 
Nesse sentido, a Frelimo, com as suas facções, sempre foi mais democrática. 
Desde que Dhlakama regressou à violência armada, a disciplina foi reforçada. 
O regresso à violência armada, em 2013, foi uma forma de reafirmar a sua autoridade.

É realista a Renamo adiar a escolha do novo líder durante meses?

A Renamo só vai precisar de resolver a questão da liderança no princípio de 2019. 
Nessa altura, precisam de um candidato para as eleições presidenciais. 
Para as autárquicas não é muito relevante. 
Provavelmente vão concorrer com Ossufo Momade e podem à mesma conseguir bons resultados, uma vez que há muitos moçambicanos decepcionados com a Frelimo. 
Nas últimas autárquicas, a Renamo não concorreu e o MDM ficou com os seus votos. Neste momento, uma das questões é saber se haverá uma plataforma comum da oposição.

Esta “nova era” é uma possibilidade para uma democratização interna da Renamo?

Os políticos profissionais da geração mais nova, como Ivone Soares e Bissopo, dizem que os militares não devem controlar a Renamo e que é necessário mais democracia. 
Vamos ver. 
Suspeito que o coração da Renamo continuará a ser formado pelos militares do partido: são eles que têm as armas, são eles que têm poder sobre a Frelimo, pois podem forçá-la a regressar às negociações — e um dos resultados disso poderá ser a eleição dos governadores das províncias e a Renamo ganhar cinco províncias, o que seria um enorme sucesso.

Nunca tiveram nenhum.

Sim e isso terá sido interpretado por Dhlakama como um sinal de que tão cedo não seria Presidente de Moçambique. 
Para a sobrevivência da Renamo, ele tinha de mostrar algum progresso e eleger governadores era uma forma de o fazer. 
Mas a Frelimo também tem de compreender que, numas eleições livres, poderá perder a maioria na Assembleia da República. 
Para um partido de libertação nacional que está no poder esse é um cenário muito difícil de aceitar.

breis@público.pt

quinta-feira, 17 de maio de 2018

ISRAEL
Texto Luciana Leiderfarb enviada a Israel
12 de Maio de 2018
O PRINCÍPIO DA INCERTEZA

Ao meio-dia de 14 de maio de 1948, Israel declarava a sua independência. Fazia-o no meio de uma guerra já iniciada pelos países árabes à sua volta, que rejeitaram o plano de partição proposto pela ONU. O país passaria por várias guerras e várias vitórias, mas isso não o tornou um completo vencedor. 70 anos depois daquele dia inaugural, é um puzzle complexo ao qual ainda faltam peças

Texto Lucxiana Leiderefarb enviada a Israel

Festa multidão nas ruas de Tel Aviv, a 20 de Maio sw 1948, a celebrar a proclamação do Estado de Israel

Um israelita nunca é só um israelita. 
É a mulher idosa que tenta sem sucesso comprar bilhete para o elétrico numa máquina. 
E é também a jovem que se oferece para a ajudar. 
Começam a falar hebraico, mas logo transitam para o russo, a língua materna de ambas. Podia ser qualquer outra — polaco, alemão, árabe, castelhano, francês, italiano, inglês. 
O importante é que num segundo, rodeadas pela multidão que aguarda pelo transporte, numa manhã abrasadora a anunciar um dia de calor levantino, e no meio do denso formigueiro humano que é Jerusalém, regressaram a um lugar que só elas conhecem. 
Não é um país, nem sequer uma língua. 
Não é nada de decifrável e, no entanto, é certo e real como o facto de as duas estarem ali a falar russo perante uma máquina que se recusa a imprimir um bilhete. 
Um israelita nunca é só um israelita. 
Do mesmo modo que Israel não é, nunca foi, apenas Israel.

Pisar chão israelita é ser de imediato capturado por esta diversidade. 
É perceber que a mesma pergunta terá pelo menos uma dezena de respostas diferentes. Que um puzzle perpetuamente incompleto nos obriga a perguntar pelas peças que faltam, a imaginar como tudo seria se elas lá estivessem. 
E a corroborar que uma tal ausência faz parte da definição do país, 70 anos após a criação do Estado. 
Não há conversa com um israelita, seja de que origem ou de que cor política for, que não conduza ao único problema que Israel ainda não pôde resolver — o dos territórios ocupados. 
Porque esta questão está ligada por um cordão umbilical ao futuro do país. 
“Israel é doloroso”, escreveu há dias David Grossman no jornal “Haaretz”, um dos maiores do país. 
“Israel é uma ilusão”, aventura Ofer, o taxista. 
As palavras de ambos encontram-se como se se conhecessem. 
Ofer também usa a palavra “milagre”, que ouviremos da boca de A. B. Yehoshua, outro grande escritor do país. 
Israel é um milagre, um ato de sobrevivência, uma impossibilidade. 
Uma vitória, uma tragédia. 
Uma vitória que é uma tragédia. 
Isso tudo: uma fortaleza inabalável, uma casa em construção, uma casa perdida, segundo a perspetiva e a experiência que se tenha do país.

Avraham Milgram não pode senão encarar este contraste de frente. 
Como historiador no Instituto Internacional de Estudos sobre o Holocausto do Yad Vashem, e como cidadão israelita desde 1973, sabe que uma verdade pode esconder outra, conhece as camadas de história em que assentam as narrativas sobre Israel. 
Sente a necessidade de esclarecer que o sionismo dos seus 20 anos, altura em que emigrou, não se assemelha ao de hoje. 
“O sionismo é um movimento político judaico moderno, criado no século XIX com o propósito de normalizar a existência dos judeus, que era anómala devido ao antissemitismo europeu — racial, eugénico, económico e religioso. 
Depois, no tempo dos nacionalismos, os judeus foram violentamente perseguidos e ficaram num limbo identitário. 
O sionismo nasce dessa angústia: os judeus queriam o mesmo que os outros e, nesse sentido, ter um território associado à sua nação. 
Sentiam que só se fossem maioria o seu problema seria resolvido.”

Quando chegou a Israel vindo do Brasil, acompanhando um movimento juvenil socialista (ele sublinha o termo socialista), Avraham viveu um ano e meio num kibbutz antes de ingressar na Universidade Hebraica de Jerusalém. 
Assistiu à forma como populações de origens distintas moldavam à sua maneira a nova identidade israelita: os judeus árabes do Magrebe, da Líbia, do Iraque; os sobreviventes do Holocausto; a vaga de judeus polacos em 1956 e 1968, a de egípcios na crise do Sinai, a de iranianos aquando da Revolução Islâmica, a do milhão de judeus oriundos dos países soviéticos em inícios dos anos 90, a de mais de 40 mil judeus etío­pes. 
Porém, assistiu também ao reverso, e Israel está cheio de reversos: às consequências da Guerra dos Seis Dias, em que a vitória “se transformou numa grande tragédia”. 
“Tal como a de 1948, essa vitória era uma inevitabilidade para a sobrevivência de Israel, não havia outra saída e, no entanto, veio a ser a grande tragédia desta história”, diz Milgram. 
Embora Israel tenha feito a paz com o Egito e com a Jordânia, os territórios ocupados palestinianos — Cisjordânia e Gaza, ainda que Israel tenha retirado desta última em 2005, mantendo a hostilidade —, conservados intactos durante anos para serem devolvidos, começaram a ser colonizados por Israel nos anos 70. 
Sem parar, até hoje. 
E hoje, “estamos no auge do irredentismo da extrema-direita; estamos nos últimos instantes antes de a situação se tornar irreversível e sem solução”.

Vitória o General AVraham "Bren" Adan a erguer a bandeira de Israel durante a guerra de 1948, em Eilat, a Sul do país

À porta do Yad Vashem, situado na zona de Mount Herzl e inaugurado em 1953, dois homens de idade abraçam-se a chorar. 
Muitos são os judeus que ali se dirigem para descobrir o que aconteceu aos seus familiares durante a II Guerra Mundial. 
Estes contrastam com a paisagem humana maioritariamente jovem do país, que não sendo alheia ao dramático legado europeu, possui outras preo­cupações. 
Tem aquilo a que chamamos uma vida normal, e está em toda a parte: Elena Ferrante no top de vendas de livros, os cafés e os restaurantes cheios, as crianças com o tablet, muitas, muitas famílias com carrinhos de bebé — em Israel, cada mulher tem uma média de três filhos e a taxa de fertilidade é a mais alta da OCDE —, as bancas a venderem sumos de romã e de laranja, o judeu religioso absorto na leitura de um livro sagrado, o soldado novíssimo com a arma numa das mãos e um gelado a derreter na outra, o empregado árabe do hotel que se desdobra a explicar a razão por que, no Shabbat, o dia sagrado judeu — em que o descanso é levado pelos mais religiosos ao extremo de não acender uma luz —, a máquina de café está vedada a todos os restantes hóspedes. 
“Este é um hotel judeu”, desculpa-se. 
O problema das contradições gritantes é que não se podem ignorar. 
A não ser que se vejam todos os dias.

“Se leio os jornais, eles dão-me uma determinada imagem do país. 
Se vou para a rua, a realidade é outra”, contrapõe Dorit W. 
É sexta-feira à noite e, não sendo religiosa, ela e a família saíram de casa para cear com amigos. 
Não foi fácil encontrar um sítio aberto — abrir os estabelecimentos em pleno Shabbat significa pagar impostos elevados e desistir da denominação de Kosher — e claro que se deslocaram de carro, pois também todos os transportes públicos param durante a festividade. 
Mas um israelita laico de Jerusalém não se apoquenta: tem com certeza o Waze, a aplicação de GPS para telemóvel made in Israel que toda a gente utiliza, conhece o mapa da não observância citadina e faz questão de não se deixar dominar por regras que considera uma intrusão no domínio privado. 
E assim resolve a questão. 
“Israel muda o tempo todo, é aberto a tudo o que é novo. 
Experimentar está na base da sua cultura”, prossegue Dorit. 
O marido Roni concorda, acrescentando que “a inovação convive com as velhas tradições”, sendo as últimas secundadas sobretudo pelo discurso oficial. 
“Enquanto temos o establishment político claramente a estagnar, olha-se em redor e vê-se o contrário.”

Isto torna-se evidente ao sair de Jerusalém rumo a Telavive. 
Chegar a esta cidade à beira do Mediterrâneo, fundada há quase um século, equivale a tirar um espartilho, um casaco apertado — algo assim como ir de férias. 
Em Telavive, Israel relaxa, respira. 
Parece um outro país, o avesso da tensão opressiva da Cidade Santa. 
“Esta é uma bolha onde as pessoas são muito novas, cosmopolitas e liberais”, conta Sara Mucznik, de 35 anos, que aqui reside há nove. 
Portuguesa e judia, veio para ficar um ano no país que tantas vezes visitara na infância, e onde viviam a avó, os tios e os primos. 
Mas acabou por arranjar trabalho e decidiu fazer Aliyah, o retorno a Israel que permite aos judeus de todo o mundo tornarem-se cidadãos. 
“Esta sempre foi a minha segunda casa, sempre me atraiu a informalidade dos israelitas”, diz enquanto toma conta da filha Mia, de dois anos. 
E esse sentimento continua a ser partilhado por muitos judeus de todo o mundo — as estatísticas apontam para 27 mil imigrações em 2017, sobretudo da Europa. 
Sara passou cá duas guerras, viu rockets a serem lançados contra Telavive. 
Mas não sentiu que isso diminuísse a tolerância das pessoas. 
Ao contrário, “reforçou a ideia de que a paz é necessária” entre o seu grupo de amigos. Muitos deles já serviram no exército, um dos fatores que faz Sara pôr em causa a sua estadia em Israel. 
“Preocupa-me que os meus filhos tenham de passar por isso”, reconhece. 
Enquanto ainda só tem um, ela e o marido Evan, sul-africano, estão de viagem marcada para os Estados Unidos, onde vão viver pelo menos três anos. 
“Precisamos de sair e ver isto de longe para tomar uma decisão.”

Qualquer israelita sabe que, acabado o liceu, terá de fazer o serviço militar — três anos se for homem, dois se for mulher. 
Trata-se de uma paragem obrigatória tão incorporada na vida dos mais jovens que é encarada com normalidade. 
“A nível pessoal, é o passo seguinte depois do liceu, é para onde as pessoas da minha idade vão, faz parte da experiência israelita”, salienta Yael W., de 16 anos, filha de Dorit e Roni. 
A um nível, como diz, “mais coletivo”, ir para o exército representa um dever para com o país: “Ninguém quer viver assim, não é uma escolha. 
Mas houve pessoas que me protegeram e agora é a minha vez.” 
Yael não teme vir a correr perigo, não porque não possa acontecer, mas porque ela se recusaria a aceitá-lo. 
“Seria injusto forçar-me a isso”, reflete, recordando que, em Israel, “se uma mãe perde um filho, pode não deixar os outros” entrar na vida militar. 
Para Yael, os verdadeiros problemas do seu país estão noutra direção: “Há uma razão para existirmos, isso ninguém pode discutir. 
Mas não sou sionista, não gosto do nacionalismo, não penso que estejamos numa boa direção.”

Ódio no Cairo, egípcios queimam a bandeira israelita como protesto pela morte de um bebé palestiniano, em Agosto de 2015

Há menos de um mês, Israel celebrou o Dia da Independência segundo o calendário hebraico. Jerusalém encheu-se de bandeiras brancas e azuis a flamejarem nas ruas, nas varandas e nas janelas dos carros. 
Mas ainda não as retirou, na expectativa de que sirvam também para festejar o Dia de Jerusalém, que este ano calha a 13 de maio. 
É um dia controverso, mas o mês não o será menos. 
A 14, enquanto o mundo assinala a independência de Israel, os palestinianos do país e dos territórios ocupados lembram o dia da nakba (catástrofe). 
Tudo isto ao mesmo tempo em que se assiste à mudança da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, uma decisão de Donald Trump a que os palestinianos prometeram responder com um dia da ira.

O Dia de Jerusalém marca aquilo a que Israel considera a “unificação” da cidade em 1967, antes em poder jordano — e por isso não admira que as bandeiras invadam também Jerusalém Oriental, onde vivem 300 mil palestinianos. 
“É um pesadelo: dezenas de milhares de colonos marcham pelas ruas, até dentro da Cidade Velha, na parte muçulmana. 
Os árabes trancam-se em casa nesse dia”, comenta Orit Kammir, que no ano passado participou numa manifestação paralela organizada pela esquerda, e que a polícia teve de cercar, para impedir a agressão dos oponentes. 
Esta advogada feminista de 57 anos, nascida e criada em Jerusalém, e doutorada nos Estados Unidos, descreve o dia como “um veneno” que é obrigada a engolir. 
E que se soma a um quotidiano em que, cada vez mais, “as pessoas perderam a esperança numa solução”.

‘As pessoas’ são os 60% que votaram à direita, que celebram a ocupação, que falam — repetindo a propaganda governamental — da Jerusalém reunificada; são os ortodoxos, os cada vez mais judeus que se viram para a religião, os judeus árabes, os que “não percebem que os judeus esperaram 2000 anos para aqui viver, mas a terra não esperou”. 
E são, também, simplesmente, “os que pensam que já não se trata de resolver o conflito mas de o gerir, que estar em conflito está no nosso ADN, que o resto dos israelitas está iludido, e que se continuarmos iludidos iremos morrer”. 
Orit vê nesta retórica os traços de um temor ancestral: o medo de ser a última geração de judeus e a justificação de que “tudo deve ser feito” para o evitar. 
Como ativista especia­lizada nos direitos da mulher, não pode deixar de relacionar esta questão com a corrida demográfica em curso em Israel, intimamente ligada à sempre presente questão da manutenção de uma maioria judia no país e a um assunto que em 70 anos, mesmo depois de entrado o século XXI, e ainda que o país ostente das mais altas taxas de educação universitária da OCDE, nenhum dirigente ousou tocar: a lei da família.

“Israel tem leis muito avançadas em temáticas como a violência sexual e a igualdade das mulheres no mercado de trabalho. 
Mas, para proteger a família judia, existem restrições incríveis aos seus direitos, como o facto de não termos leis de casamento e de divórcio”, esclarece, notando que a lei de igualdade das mulheres explicita que a mesma “não se aplica à lei da família”. 
Esta ficou remetida ao domínio religioso, como acontecia no Império Otomano. 
Na ausência de casamento civil, um casal misto ou um casal judeu que não pretenda um casamento religioso é forçado a contrair matrimónio fora do país — pela lei internacional, Israel não tem outra opção senão reconhecer essas uniões. 
Tal não se aplica aos divórcios, que passam necessariamente pelo Tribunal Rabínico. 
E este não os outorga em caso de oposição masculina. 
“Se o rabino diz ao homem que ele tem de dar o divórcio — o que ocorre raras vezes — e este não quiser, o Estado pode prendê-lo. 
Hoje, em Israel, há homens presos há uma década que não deram o divórcio às mulheres”, revela Orit. 
“Neste item estamos ao nível da Arábia Saudita. 
E o que para os de fora não faz sentido, cá dentro nem sequer é visto.”

Convivência palestinos e judeus numa praia de Tel Aviv, em Setembro de 2016

É, mais uma vez, o rio que corre ficando sempre o mesmo, a vida normal. 
A vida de um Estado que se define como democrático e judeu sem ver nisso qualquer contradição. 
As lojas de perucas e toucas usadas pelas judias religiosas para cobrirem os cabelos a proliferarem ao lado dos supermercados árabes, naquilo que Dorit W. descreve como “o símbolo da tolerância” de uma cidade mista e complexa como Jerusalém. 
Na vida normal, na rua, não se ouvem discussões. 
“Grandes populações em conflito coexistem sem problemas.” 
Se não fosse palestiniano, Mohamad Owedah talvez pudesse concordar. 
Esforça-se por isso, todos os dias, enquanto trabalhador social e coordenador da ONG Combatants for Peace. 
Encontramo-lo no bairro ortodoxo de Kiryat Yovel, num apartamento onde há 20 anos ajuda jovens deficientes a tornarem-se autónomos. 
Neste momento, vivem ali cinco raparigas judias que Mohamad assiste duas vezes por semana, embora ele não seja de ‘cá’, mas de ‘lá’. 
Da Jerusalém Oriental que foi anexada por Israel, mas cujos habitantes não são considerados israelitas.

Nascido em Silwan, perto da Cidade Velha, onde a sua família tem raízes há mais de 500 anos, define-se como “um estrangeiro na sua própria terra”. 
Como a todos os que vivem em Jerusalém Oriental, foi-lhe dado um cartão de residência. Não tem direito a votar, embora possa fazê-lo nas eleições municipais. 
E se sair de Jerusalém Oriental arrisca-se a perder o direito de regressar. 
“É muito complicado estar nesta situação. 
É como estar entre dois países, numa Green Zone, num limbo cheio de limitações”, confessa. 
Embora o Governo israelita defenda o contrário, esta parte de Jerusalém tem 60% da sua população a viver abaixo da linha de pobreza, de acordo — especifica Mohamad — com o padrão de vida israelita. 
Porque não é fácil de imaginar, oferece um exemplo: “Estamos num bairro ortodoxo onde vivem 500 pessoas, e a câmara construiu um jardim com brinquedos para as crianças. 
Em toda Jerusalém Oriental não vai encontrar uma coisa assim.” 
Porém, há coisas piores: “Quando os judeus dizem que conhecem os árabes porque têm uma empregada e um mecânico que o são, e vivem bem com isso; ou quando os próprios judeus árabes mostram ser os mais antiárabes de Israel, e votam na extrema-direita dos Ashkenazes [judeus da Europa Ocidental] para nos continuar a discriminar.” 
Para Mohamad, uma solução que não signifique a partição em dois Estados equivale a uma “doce ocupação”. 
Significa dizer: “Ocupo-te com um sorriso.”

Foi a pensar que nada chegará a bom porto sem um conhecimento mútuo que, há 15 anos, Amin Khalaf cofundou a Hand in Hand, a única escola israelo-árabe e bilingue do país. 
É cidadão israelita, tal como o milhão e 800 mil palestinianos que habitam no território de Israel desde 1948. 
Mas tendo todos os direitos, e apesar de existirem árabes israe­litas tanto no Knesset (Parlamento) como na Corte Suprema de Justiça, Amin não sente que a prática acompanhe o seu estatuto. 
“Posso nomear os problemas da educação. 
Como as escolas árabes têm resultados inferiores às judias, o orçamento também tem vindo a decrescer, e há cada vez menos dinheiro para investir na sua melhoria”, explica. Professor no Ono Academic College, uma escola privada israelita, vive por opção em Jerusalém Oriental, onde é responsável por uma ONG que ensina hebraico aos jovens palestinianos.

Esta também é a vida normal de Israel, onde um imenso conjunto de organizações trabalha para desfazer os nós históricos e políticos do país. 
Uma delas é Bimkom, fundada em 1999 por um grupo de arquitetos e urbanistas justamente para intervir nos problemas do território. 
A diretora executiva, Hetva Radovanitz, é uma brasileira de São Paulo que há 40 anos emigrou para Israel. 
E que, todos os dias, desde o seu escritório no bairro de Rehavia, se bate pela democratização e “humanização” do sistema de planeamento urbano israelita. 
O ponto de partida reside na premissa de que “o urbanismo pode ser um instrumento poderoso de implementação de uma política em lugares onde há disputa sobre a terra”. Uma estrada, diz Hetva, serve para unir dois ou três lugares, mas em termos políticos pode ser usada para os separar. 
É isto que acontece em Jerusalém Este e na própria Cisjordânia, sob ocupação militar israelita, onde as comunidades não estão apenas a ser divididas como a contínua confiscação de terras pelo Estado — para escavações arqueológicas, para um parque nacional, para o “bem público” — faz com que, entre estas, possa nascer um bairro judeu. Onde o planeamento urbano é feito sem contemplar o crescimento da população. 
Onde os palestinianos são “empurrados para uma de duas soluções: ou constroem ilegalmente, assumindo o risco, ou abandonam o território”.


Histórico o primeiro-monistro David Ben Gurion, à direita, a ser entrevistado por Edward G. Murrow no Kibbutz S de Boker, no deserto do Neguev, onde residia

Claro que há quem pense diferente. 
Os tais 60% que, sendo a franca maioria, não são fáceis de encontrar. 
Dov Kalmanovitch é um deles, está sentado num café do bairro ortodoxo de Ramot, onde vive, na paragem habitual antes de ir para o trabalho. 
Contabilista e, mais importante, um dos vice-presidentes da Câmara de Jerusalém, eleito pelo partido Yisrael Beiteinu [A Casa Judia], resume assim o que pensa de Israel: “Este país foi criado para resolver o problema dos judeus. 
É um país judeu e a sua capital é Jerusalém. 
Depois do Holocausto, temos de construir o país e o exército com o propósito de nos protegermos.” 
E os palestinianos? 
“Os palestinianos não são uma nação. 
Se querem fazer a paz e viver aqui, têm de reconhecer que os judeus o construíram. 
E se escolherem lutar não terão nada.” 
Dov aponta o dedo aos países árabes vizinhos, que, “após 70 anos, não quiseram integrar os palestinianos”. 
E porquê? 
“Porque querem que este conflito continue a existir.” 
E qual a situação dos palestinianos de Jerusalém Oriental? 
“Têm um estatuto superior aos da Cisjordânia e os mesmos direitos que os cidadãos de Israel”. 
Mostra-se surpreso ao ouvir que, daquele lado da cidade, os habitantes são apenas residentes. 
“Não sabia”, diz.

Dov Kalmanovitch foi o primeiro ferido da primeira Intifada, em 1988. 
Um cocktail molotov caiu na frente do carro que ia a conduzir. 
O treino militar ajudou-o a fugir do veículo a tempo de não morrer. 
Mas ficou desfigurado, esteve um ano no hospital e decidiu que se sobrevivesse daria “o melhor de si” a Israel. 
Tinha três filhos antes, teve mais três depois. 
“Eles queriam matar um judeu e graças a Deus eu trouxe mais seis ao mundo”, termina. Dov representa o extremo do extremo na direita israelita. 
Mas há também pessoas comuns como Yariv, um pequeno empresário da Galileia que, abominando “os perigos do nacionalismo” e declarando ser preciso “manter a democracia a funcionar”, considera que os palestinianos não querem a paz e “são os nossos inimigos”.

Se A. B. Yehoshua pudesse encontrar Dov ou Yariv, se pudesse olhá-los nos olhos, é provável que lhes dissesse: “Muito do desprezo que existe em relação aos árabes reside na culpa que temos. 
A ideia de que ‘eles merecem’ vem daí. 
Somos culpados. 
E para o compensar estamos a tornar-nos cada vez mais agressivos.” 
E não chegou a esta conclusão apenas, diz a sorrir, porque a mulher, que perdeu há um ano, era psicanalista. 
Chegou até aqui depois de um longo caminho na defesa da solução dos dois Estados, depois de 18 livros, muitos dos quais dedicados a observar o seu país, ele que é um dos maiores escritores de Israel. 
No seu apartamento de Givatayim, um subúrbio residencial de Telavive, conta-nos primeiro como tudo começou. 
E tudo começou “do quase zero, do perigo total, da amea­ça sobre Israel a cada momento de ser eliminado e destruído.”

Nascido em 1936, a sua família vivia há quatro gerações em Jerusalém. 
O pai tinha vindo de Salónica, na Grécia, no século XIX, e mãe de Marrocos em 1933. Considera-se um judeu mizrahi, oriental, e por isso pensa nos árabes “como primos”. 
Mas não está iludido: “Vejo-os com os seus problemas, as suas divisões. 
Não são fáceis e muitas vezes — repare na situação de Gaza — são vítimas das suas próprias lideranças. 
Mas eles não são estrangeiros, não se vão embora. 
Vamos ter de viver com eles para a eternidade, vivem entre nós e à nossa volta, e temos de ser muito cuidadosos na nossa relação.” 
O problema maior, diz, é a Cisjordânia. 
“E existe não pelos erros mas pela maldade de Israel.” 
Construindo os colonatos, levando para território ocupado meio milhão de judeus, Israel “impediu a solução dos dois Estados”, que A. B. Yehoshua subscreveu por mais de 50 anos. 
Hoje, já não está tão certo. 
“Escrevi sobre isto há semanas. 
Temos a obrigação de dar cidadania aos palestinianos da Cisjordânia, para abolir o apartheid. 
Poderíamos dividir o país em cantões, em áreas, numa espécie de federações. 
Mas continuar a insistir num impossível congela ainda mais a situação.”

Letras Os três maiores escxritores de Israel, reunidos em 2006, em Telavive, para uma confweência de Imprensa a exigir o fibal da guerra contra o Líbano. São eles: Amos Oz à direita, A.B. Yehoshua no centro e David Grossman à esquerda. O filho deste últimoviria a morrer três dias depois no conflito

A. B. Yehoshua viu o Estado começar. 
Ouviu pela rádio a Resolução 181 da ONU sobre a partição da Palestina, em novembro de 1947. 
Horas depois, Jerusalém foi cercada. 
“Caíram bombas na nossa rua, o meu pai foi ferido”, relata. 
E quando Ben Gurion declarou a independência, ao meio-dia de 14 de maio do ano seguinte, os exércitos de seis países árabes atacaram de imediato. 
“A decisão de criar um Estado foi muito corajosa e arriscada. 
Poderíamos tê-lo perdido. 
Foram tempos difíceis, não havia comida nem água, e de repente estávamos a ser ameaçados e em muitos casos mortos outra vez. 
Mas lutámos finalmente pelas nossas vidas porque atrás de nós está o mar e não tínhamos para onde fugir. 
Não havia alternativa.”

E que ruas eram as suas? 
“Vivíamos num apartamento alugado na King George. 
Naquele triângulo de ruas do centro de Jerusalém: King George, Jaffa e Ben Yehuda”, diz o escritor, olhando para trás e de novo para a frente, para as novas impossibilidades que Israel tem de encarar. 
Para o triângulo mais vasto que é Israel e a sua complexidade, e a sua soberana teimosia. Para o país dividido que celebra oficialmente a independência no mesmo dia que uma parte dos seus habitantes assinala a nakba. 
Para a juventude cansada de falar destes assuntos, ou simplesmente demasiado longe de não ter um Estado para saber o que isso é. 
Aproximando a lupa — qual o país que resiste a um tal exercício? —, para os problemas de Israel com os beduínos a quem não reconhece a terra e com os 40 mil refugiados a quem não outorga asilo. 
Para um Médio Oriente sempre em mortal ebulição — Yehoshua diz: “Até hoje Israel é o único Estado do mundo que está sob o risco de destruição total.”

E, no entanto, antes e depois, vive a sua vida. 
Normal, não completamente normalizada, como era o seu intuito inicial, os sonhos dos que fizeram nascer este país. 
Duas pessoas podem cruzar-se na rua e encontrar a sua língua materna, e por um curto instante revisitar uma antiga casa. 
Um palestiniano pode cuidar de cinco raparigas judias, religiosamente, duas vezes por semana. 
Ou explicar, com o máximo respeito, a um estrangeiro, a necessidade de observar o Shabbat. 
Isto também é Israel, 70 anos depois. 
Qual é mesmo o ditado, o velho ensinamento judeu? 
“O dia é curto e a tarefa imensa.” 
Se quiser outros 70, Israel tem mesmo de o praticar.