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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Criação do Estado de Israel

PALESTINA
Cátia Mendonça
13 de Maio de 2018, 2:51 
No dia 14 de Maio de 1948, os convidados chegaram ao Museu de Telavive. 
Tinha-lhes sido pedido para não contarem a ninguém o que ali iam fazer. 
Mas ao entrarem no Boulevard Rothschild perceberam que não havia segredo — meia cidade estava ali, à espera de David Ben Gurion, que chegou às quatro da tarde. 
Já dentro do edifício, proclamou a criação do Estado de Israel, escassas horas depois de ter expirado o mandato britânico naquela parte da Palestina. 
“Este é o direito natural do povo judeu. 
Ser como qualquer outra nação.” 
Não é, como mostram as 14 guerras em que participou ao longo da sua História e que lhe permitiram não apenas consolidar território, mas fazê-lo crescer.

Nas vésperas da I Guerra Mundial, parte do Médio Oriente ainda estava sob o Império Otomano. Outros territórios estavam sob controlo britânico e italiano, e outros já tinham conquistado a sua independência

No dia que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a maior parte do Médio Oriente ainda era administrada pela potência colonial da Grâ-.Bretanha. Turquia e Irão eram independentes.
Em 29 de Novembro de 1947, por 33 votos a favor, 10 contra e 13 abstenções, a ONU divide a Paslestina do mandato britânico em dois Estados: um judaico e um árabe. a Resolução 181 previa uma união económica e colocava Jerusalém sob estatuto internacional. Os dois Estados seriam territórios descontínuos ligados por corredores estreitos. Ao Estado judaico foi atribuída uma larga faixa costeira ao longo do Mediterrâneo, a Galileia oriental, e praticamente todo o deserto do Neguev, com uma saída para o mar Vermelho. Ao Estado árabe foi oferecida, a Galileia ocidental, com acesso ao Mediterrâneo, a partir de Acre, a Cisjordânia (excepto Jerusalém), e a Faixa de Gaza. Jaffa, cidade portuária de maioria árabe, permaneceria um enclave árabe, Os Sionistas apoiaram este projecto de divisão que garantia soberania e imigração sem entraves. Os árabes rejeitaram-no unanimemente e pegaram logo em armas, O plano jamais chegou a ser aplicado.



A Vitória dos Seis Dias de Junho de 1967, dá a Israel importantes posições estratégicas. Começa uma acelerada colonização da Cisjordânia e é anexado o sector oriental de Jerusalém. A cidade é unilateralmente proclamada "cidade una e indivisível" do Estado Judaico.


Ap
osw a Guerra de Yom Kippur, a única alteração, imposta pelos Estados Unidos, foi a evacuação da cidade de Kuneitra nos Montes Golã. Em 1981 este planalto, conquistado à Síria em 1967, é anexada por Israel, e um tratado de paz, devolve ao Egipto a península do Sinai. Em 1982, Israel invade o Líbano e cerca Beirute, mas, em 1985, depois de expulsar 8.000 guerrilheiros da OLP, reposiciona-se numa "zona de segurança", no Sul do país - a retirada total só se dará em 2.000


Os Acordos de Oslo assinados em 1992 por Israel e pela OLP por Arafat  levam a uma complexa fragmentação territorial. A Autoridade Palestiniana passa a controlar 70% da Faixa de Gaza. Na Cisjordânia são instituídas três zonas:  A (controlo palestiniano);  B (controlo misto) e C (controlo exclusivo de Israel), incluindo as instalações militares e 150 colonatos judaicos. Este mapa de Oslo ficou mais retalhado em 2.000, quando, depois da Segundo Intifada, Israel ocupou militarmente a Cisjordânia e iniciou um "muro de separação  ou "barreira de segurança" - que tem transformado povoações palestinianas em guetos.


As iniciativas legislativas do Governo de direita dominado pela ala nacionalista do Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, visa criar mais retalhos no mapa, abrindo caminho para a anexação de facto de territórios ocupados. Em Setembro de 2017, o Parlamento aprovou uma lei que permite a criação de universidades na Cisjordânia ocupada. E há iniciativas para os tribunais israelitas terem jurisdição na Área C, que compreende 60% da Cisjordânia. Os colonatos legais ou "ilegais" não cessam de aumentar


MURO DA CISJORDÂNIA
Muros, vedações electrificadas e outros obstáculos são utilizados para controlar o movimento dos palestinianos. A construção do muro dentro da Cisjordânia continua, apesar do tribunal internacional de Justiça ter considerado que não devia existir.



COLONATOS
Os colonatos judaicos são locais onde vivem civis israelitas em território ocupado (e alguns casos anexado). São ilegais à luz da lei internacional. mas Israel distingue entre colonatos regulares (que a lei israelita permite) e "selvagens" (proibidos mesmo por Israel). Os colonatos israelitas são muito diferentes entre si podendo ir desde um par de caravanas ou pré-fabricadas no cimo de um monte (no caso dos "selvagens") até autênticas cidades estabelecidas, com instituições como câmaras municipais ou universidades.





O rocket man

EDITORIAL
Amilcar Correia
14 de Maio de 2018, 7:00
Merkel tem razão quando afirma que não se pode confiar nos EUA. 
E depois disto ainda você ainda acredita numa solução para o Médio Oriente?

O conflito entre Israel e a Palestina é irresolúvel com Trump na presidência, por dois motivos: a disparidade de poder inviabiliza qualquer acordo equilibrado entre as duas partes, e os EUA são incapazes de exercer uma intermediação imparcial por causa do comprometimento com Telavive e, já agora, com Riade. 
Só os EUA poderiam alterar a desigualdade dessa relação de poder entre uma potência nuclear, um Estado apetrechado com tecnologia militar americana de ponta, e um povo dividido entre duas circunscrições, separadas entre si, e entregues a um definhamento inevitável. 
Negociar com uma entidade dividida só eterniza o problema, a favor do elo mais forte, em violação dos  Acordos de Oslo, que declaram Gaza e Cisjordânia uma unidade territorial inseparável. 
Uma solução desejável seria, à semelhança do Acordo de Viena entre o Irão e os países do P5+1, os cinco países com assento no concelho de segurança das Nações Unidas e a Alemanha, alargar a outros países o papel de uma arbitragem imparcial. 
Israel, juntamente com a Índia e o Paquistão, cujos programas de armamento nuclear têm sido encorajados pelos EUA, recusa-se a assinar o Tratado de Não-Poliferação.

A renúncia dos EUA ao acordo com o Irão, apesar dos apelos da tríade França, Reino Unido e Alemanha, significa que o mundo multilateral como o entendíamos sofreu um duro abalo; que as relações com a Europa nunca foram tão dissonantes desde a II Guerra Mundial; e que o P5+1 será irrepetível. 
Trump sabotou o pacto comercial com o Canadá e o México, o acordo do clima de Paris, declarou a NATO obsoleta, ameaça com medidas proteccionistas e escolheu uma outra tríade: Rússia, Israel e Arábia Saudita.

Merkel tem razão quando afirma que não se pode confiar nos EUA. 
Numa semana, Trump diz que chegou a hora de deixar a Síria e que devem ser outros a resolver o problema. 
Na semana seguinte, diz que os mísseis “lindos, grandes e espertos” vão a caminho, mas o seu novo secretário de Estado lembra-se da invasão do Iraque, mas sem a referir, e diz que ainda andam à procura de provas e, já agora, de uma qualquer estratégia para aquela região convulsa. 
Se dois dias depois a Síria é bombardeada é porque James Mattis já tem as provas que justificam o lançamento dos mísseis ou Trump não quis esperar por isso.  
A União Europeia que tire as suas ilações antes de bombardear a Síria.

Trump só quer ser a personagem principal do reality show e ser ainda mais rocket man do que o próprio rocket man. 
E depois disto ainda se acredita numa solução para o Médio Oriente?

acorreia@público.pt
MÉDIO ORIENTE
Maria João Guimarães
Jerusalém 14 de Maio de 2018, 7:00
Nos cartazes espalhados pela cidade lê-se que "Trump Make Israel Great". 
Na euforia Netanyahu anunciou que vai construir "para este, oeste, norte e sul, em todas as direcções”. Perante os sinais pessimistas e com o processo de paz congelado, os palestinianos arriscam tudo para manter a sua causa nos media internacionais.

A mudança da embaixada americana de Telavive para Jerusalém, um movimento simbólico que mudou uma política de décadas e rompeu com o consenso internacional sobre Jerusalém – cidade com um estatuto especial porque israelitas e palestinianos a querem para capital – acontece nesta segunda-feira  num momento de extremos dos dois lados.

Em Jerusalém Ocidental, o ambiente é de festa. 
Neste domingo, parte da baixa da cidade, toda em azul e branco e cheia de bandeiras, parou para cantar e dançar: grupos de jovens religiosos, abraçados, dançavam aos pulos e cantavam músicas emblemáticas do país, brandindo bandeiras; no meio da Jaffa Street, uma mulher de saltos altos fazia uma coreografia com duas grandes bandeiras, deixando turistas embasbacados e adolescentes em risinhos. 
Placards e autocarros declaravam em letras brancas sobre fundo azul: “Trump Make Israel Great”.

É o Dia de Jerusalém, o aniversário sobre a conquista da parte oriental da cidade por Israel na guerra de 1967 (que foi depois anexada, uma decisão nunca reconhecida internacionalmente).

E foi neste contexto que chegavam ao país os representantes norte-americanos para a inauguração da embaixada, Jared Kushner, conselheiro de Trump, e a sua mulher, Ivanka, a filha do Presidente.

O apoio internacional a esta mudança é bastante reduzido. 
Da União Europeia, só a Áustria, Hungria, Roménia e República Checa estiveram numa recepção neste domingo no Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. 
Os dois primeiros países têm no poder políticos de direita e extrema-direita que já foram acusados de anti-semitismo, mas que querem manter boas relações com Israel.

Para a cerimónia desta segunda-feira, foram convidados 86 embaixadores e encarregados de negócios, 40 dos quais aceitaram, mas a maioria dos Estados europeus não irá

De resto, Guatemala, Paraguai e Honduras já anunciaram que vão também mudar as suas embaixadas para Jerusalém. 
Desde os anos 1980 que a cidade tinha apenas duas embaixadas e a última saiu em 2006; mantiveram-se apenas alguns consulados.

Eurovisão e expansão

Para "inaugurar" o Dia de Jerusalém, o primeiro-ministro israelita dirigiu-se aos seus ministros na reunião do Governo do início da semana (que em Israel começa ao domingo), dizendo “Bom toy dia (um dia muito bom). 
Foi uma referência ao tema Toy, da cantora israelita Netta que venceu, na véspera, o festival Eurovisão da canção, que teve lugar em Lisboa. 
Foi uma vitória importante porque trás o festival para Israel no próximo ano – Netanyahu já anunciou que Jerusalém é a cidade que o recebe – e aconteceu apesar de uma campanha de boicote do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções).

Netanyahu aproveitou todo este balanço para anunciar um plano “para construir e desenvolver Jerusalém, para este, oeste, norte e sul, em todas as direcções”.

Para marcar a diferença e mostrar que esta não é uma decisão com apoio unânime entre israelitas, o movimento Peace Now terá nesta segunda-feira um sinal perto da nova embaixada dos EUA dizendo “Duas embaixadas para Jerusalém – um interesse para Israel”. 
A organização argumenta que esta mudança decidida por Donald Trump despreza a pretensão palestiniana e o seu custo será que o conflito que não terá fim. 
“Se alguma vez houver uma solução de dois Estados, é preciso ter em conta a posição israelita e a palestiniana.”

"Este é o resultado da colaboração de um Presidente a quem não interessa nada o que se passa aqui com um Governo que não quer saber do futuro da cidade", disse ao PÚBLICO o responsável da organização New Israeli Fund, Mickey Gitzin. 
Para este activista, a mudança da embaixada pode ter "muito apoio público” e  fortalecer o primeiro-ministro. 
Mas "também cria uma situação mais frágil por ser uma medida unilateral"

"Running the show"

Depois de anos e anos de conversa sobre um processo de paz inexistente, a solução de dois Estados (um israelita e outro o palestiniano) parece mais longe do que nunca, e os palestinianos numa situação especialmente difícil. 
Estão divididos, com uma liderança - a Fatah, na Cisjordânia - envelhecida e preocupada com auto-preservação, e outra, o Hamas, acossada pelas consequências de mais de dez anos de isolamento e um bloqueio quase total em Gaza. 
Faltam constantemente água potável, electricidade, e cuidados médicos.

Com a decisão de mudar a embaixada, os Estados Unidos vêem dar um passo decisivo para a pretensão israelita, sem considerar a posição palestiniana.

Ao dizer que a embaixada passava de Telavive para Jerusalém, Trump anunciou o reconhecimento de “uma coisa que já é a realidade”. 
As suas palavras levaram muitos a temer que, de seguida, reconheça os colonatos judaicos em território ocupado (ilegais, segundo a lei internacional) porque também são uma realidade, e que a situação regional continue a manter-se a favor de Israel.

O Presidente norte-americano disse também que em breve anunciaria um plano de paz – ele que se vê como um mestre em conseguir bons acordos (de negócios), prometeu o “acordo do século”, ou seja que faria a paz entre israelitas e palestinianos.

Ninguém está a suster a respiração e os líderes palestinianos já disseram que recusam qualquer papel de mediador dos Estados Unidos depois da embaixada em Jerusalém. Acusam Turmp de falta de neutralidade por nem sequer ter mencionado que os palestinianos reclamam a parte oriental da cidade para capital de um futuro Estado.

Até a data escolhida para a inauguração da embaixada pelos EUA (o gabinete de ligação com os jornalistas de Israel deixa claro nas suas comunicações com a imprensa que são os americanos quem manda: “The Americans are running the show”) foi vista como problemática. 
Embora coincida com a data do aniversário dos 70 anos do Estado judaico no calendário ocidental, este já tinha sido antes comemorado em Israel, que segue o calendário hebraico. Assim, vai acontecer na véspera da data em que os palestinianos assinalam a Nakba, ou catástrofe, que ocorreu quando muitos fugiram ou foram expulsos das suas casas e terras após a criação do Estado hebraico, tornando-se refugiados.

Tendas nos hospitais

E tem sido com o mote dos refugiados que na Faixa de Gaza tem decorrido o protesto chamado Grande Marcha do Retorno, que pede o direito de regresso destes refugiados às suas terras. 
O protesto começou pacífico mas a aproximação dos manifestantes à barreira que separa Gaza do Estado hebraico e a presença de militantes do Hamas deixou Israel nervoso.

As autoridades israelitas deixaram claro que não permitiriam que ninguém atravessasse a fronteira, e atiradores posicionados do outro lado têm disparado sobre quem se aproxima – morreram já mais de 40 pessoas e centenas ficaram feridos, muitos com pernas amputadas, no que motivou fortes críticas de grupos de defesa dos direitos humanos.

O ambiente em Gaza é de especial tensão por se prever uma tentativa de passagem da fronteira, promovida pelo Hamas e antecipada para segunda-feira para coincidir com a abertura da embaixada. 
O Hamas, no poder no território, fez subir a expectativa de que irá haver uma tentativa de passar a barreira que separa Gaza de Israel.

Os maiores hospitais da Faixa de Gaza estão não só em alerta máximo (e as suas condições são já péssimas por causa da falta de electricidade – só há durante quatro horas por dia –, medicamentos e de materiais, tudo isto por causa do bloqueio de Israel e do Egipto), como foram ainda erguidas tendas com camas extra fora dos edifícios principais. Estão prontas para receber um grande número de feridos, caso a passagem da separação dos territórios aconteça mesmo.

“Está toda a gente em suspenso”, dizia na sexta-feira Mohammed abu Nusabeh, do Crescente Vermelho, enquanto chegavam manifestantes que iam sendo tratados sobretudo por terem sido expostos a gás lançado pelos soldados israelitas. 
“Estamos a tentar estar preparados, com cinco postos médicos nos cinco pontos principais da marcha, 60 ambulâncias, e mais de 900 membros do pessoal e voluntários”.

Mas a organização está preocupada com duas coisas. 
Deverá haver concentrações junto da barreira em mais pontos além dos cinco assinalados. E se alguns passarem para o lado israelita? 
"Como vamos lá buscar alguém que esteja ferido sem sermos nós atingidos?", pergunta Mohammed abu Nusabeh.

O nervosismo mostra-se ainda no grande número de postos de controlo do Hamas em várias estradas de Gaza, e também pelos comentários que são feitos no posto de fronteira quando os jornalistas saem do território. 
São tantos os repórteres a entrar e a sair por estes dias - há já muito tempo que não havia tantos jornalistas no território palestiniano. 
A Marcha do Retorno pôs a questão palestiniana de novo nos media internacionais.

"Estamos aqui para dizer ao mundo que este é um país ocupado, e já não há países ocupados no mundo”, disse Huda Elian, responsável do comité que junta todas as facções palestinianas na Marcha, e também pela parte das mulheres.

Para aliviar a tensão, o Egipto abriu o posto de Rafah, deixando passar alguns casos humanitários graves. 
Mas é muito pouco para soltar toda a pressão acumulada em Gaza. 
O Hamas fomentou a ideia de que os jovens devem tentar passar a barreira e eles estão cheios de energia e querem agir. 
Se voltar atrás, o movimento islamista arrisca-se a ver os protestos pelas terríveis condições em Gaza virarem-se contra si.

maria.joao.guimaraes@público.pt

Tehila lutou por Israel e não é uma janela partida que estraga isso

ISRAEL
Maria João Guimarães
Telavive 14 de Maio de 2018, 7:00 

Nascida na Roménia há 88 anos, Tehila Ofer foi combatente do Palmach. 
Da sua casa em Telavive conta como foi e o que acha do Estado de Israel no seu 70.º aniversário.

Há 70 anos, Tehila Ofer lembra-se que ouviu que David ben Gurion tinha proclamado a independência do Estado de Israel. 
“Não liguei nenhuma”, conta agora. 
Na altura, não lhe passava pela cabeça que ia mesmo haver um Estado, embora fosse por isso que estava onde estava: na fronteira do Líbano, à espera de um ataque dos libaneses. “Tínhamos tão poucas armas, não tínhamos força aérea, não tínhamos marinha, como podíamos ter um Estado?”, pergunta agora Tehila Ofer, então num batalhão do Palmach, a força de elite da Hanagah (embrião do Exército).

Há 70 anos, o que a preocupava era que se esperava um ataque de libaneses e sírios – e enquanto os homens estavam a lutar, as mulheres do batalhão iam ao final da tarde carregadas com armas e mantimentos para os homens que estavam na frente.

Tehila Ofer chegou ali vinda da Roménia. 
Interessou-se muito cedo por sionismo – quando tinha dez anos, lembra o “impacto profundo” de ter de usar a estrela de David para se identificar como judia na Roménia, o seu país de origem. 
Na sua aldeia participou num movimento jovem sionista banido, “marxista mas sionista”, basicamente, “um grupo de miúdos de 12 anos com um de 14 como líder”. 
Aos seus 14 já era ela a líder, e aos 16 anos tomou a decisão de ir para a “Eretz Israel/Palestina” (diz sempre as duas expressões juntas). 
“Os meus pais não tentaram impedir-me.”

Viajou até à Jugoslávia e embarcou num dos navios que levava ilegalmente judeus da Europa para a Palestina, então sob controlo britânico (as autoridades britânicas limitaram muito o número de imigrantes legais). 
“Eram navios com milhares de pessoas a bordo, na altura este era o maior, depois foi o Exodus, que se tornou o mais famoso. 
Íamos na parte da carga e à noite saíamos para apanhar um pouco de ar fresco”, lembra.

Foi então que conheceu membros do Palmach, que deram instruções aos ocupantes do navio sobre o que fazer, caso fossem interceptados pelos britânicos (e foram): atirar tudo o que tivessem à mão para atrasar o processo o mais possível (e foi o que fizeram). 
“Era meio da noite, eles chegaram com holofotes, queriam que fossemos para Chipre, recusámos. 
Quando chegámos a Haifa, atirámos tudo o que tínhamos, comida, conservas, carvão, óleo. 
Mas venceram-nos com gás, e lá nos tiraram um a um, e levaram para Chipre”.

Em Chipre os campos para judeus deportados eram especialmente duros para os sobreviventes do Holocausto. 
"Era estar outra vez num campo com arame farpado”, lembra Ofer. 
Ela ainda se manteve por lá uns tempos antes de uma segunda tentativa. 
E, em 1947, Tehila Ofer chegou à Palestina e foi para um kibbutz para estudar – hebraico, a língua reavivada por judeus em Israel há algumas décadas, e trabalhar. 
“Seis horas de estudo, seis horas de trabalho.”

Ela queria trabalhar com tractores na agricultura. 
“Porquê? 
Porque a primeira vez que vi mulheres num tanque foi quando o Exército Vermelho entrou na Roménia [contra ao nazis] em 1944 e isto ficou a ser para mim um desafio para o futuro.” 
Na altura, no kibbutz, “claro que nunca imaginei que haveria um dia tanques no Estado de Israel”, diz a rir. 
“Por isso um tractor era o mais aproximado.”

Dessa altura diz simplesmente: “Foi aí que nos tornámos israelitas. 
Começámos a falar hebraico, mesmo que o nosso hebraico fosse muito mau.”

E logo de seguida, passaram de ser “um grupo de imigração para ser um grupo do Palmach, e começámos a treinar com armas”. 
Dizer armas é quase exagerado, já que “era uma arma para umas 30 pessoas.” 
O estudo ficou adiado e no kibbutz passou a trabalhar-se meio mês e treinar outro meio mês. 
“Era o único exército do mundo que assegurava o pagamento da sua existência.”

Foi aí que começou a Guerra da Independência, sublinha, “não com a declaração de independência, mas com a declaração da partição [da ONU] a 29 de Novembro” de 1947.

O que aconteceu foi que era preciso lutar e foi isso que ela fez. 
Explica que as mulheres tinham, muito raramente, posições de combate. 
O que faziam era sobretudo tarefas de apoio nas unidades e os homens é que combatiam. “Claro que se houvesse um ataque pegava numa arma e lutava. 
Mas não eram as mulheres que iam para o campo de batalha ou conquistar posições”, clarifica.     

E no meio disto, um dia, na Galileia: “O comandante chamou-nos, era uma sexta-feira, seis da tarde. 
Disse duas coisas: que Ben Gurion tinha declarado a independência três horas antes, e que era preciso levar coisas aos rapazes que estavam na frente. 
A última parte é que me interessou e voluntariei-me para ir”. 
Também porque “eram pessoas muito próximas, partilhámos tendas no kibbutz, muitos eram namorados”.

O que se seguiu foi duro. 
“A noite em que levei os mantimentos foi a última vez que vi três amigos. 
Depois chamaram-nos para reconhecer os corpos. 
Éramos um grupo de 15. 
Após este combate, um estava doente, três estavam mortos e dois feridos. 
Perguntámo-nos quantos combates aguentaríamos até acabar o grupo…”

As baixas eram muitas e vieram muitos novos imigrantes da Europa, mas não tinham tido interesse prévio pelo sionismo, não sabiam distinguir onde era Telavive ou Hebron ou Eilat, e não falavam uma palavra de hebraico.

Tehila ficou com a missão de lhes ensinar hebraico, ainda que ela também não falasse assim tão bem. 
“Era um hebraico de vida ou de morte. 
Era para aprenderem palavras como ‘deitem-se’, ‘fujam’,  saber dizer ‘estou ferido’, saber ler ‘minas’”. 
As baixas iam continuando (seis mil pessoas do lado do recém-criado Estado morreram). “De vez em quando um dos meus alunos não aparecia no dia seguinte. 
Perguntava por ele, tinha caído em combate.”

Essa foi “a época de grande perigo para Israel”. 
Mas “a guerra de 1948 ainda não acabou”, diz. 
Porque “a cada dez anos há uma guerra e entre as guerras não há paz”. 
E, explica, “em cada família há pessoas no exército. 
Eu estive no exército, o meu marido esteve anos e anos; o meu filho também, a minha neta na força aérea, o neto no exército… vivemos nisso.”

“Moshe Dayan, o grande herói da guerra de 1967, disse que temos de deixar passar pelo menos 100 anos. 
Esperava que fosse mais cedo…”

Tehila tem agora 88 anos e fala muito quieta, pausadamente. 
Tem um sorriso calmo e uns pequenos ramos de veias azuis muito definidas na testa. Estamos na sua casa numa zona chique de Telavive; da janela da sua sala entra uma luz quente e vê-se o verde de um parque em frente.

O marido, Zeev, que conheceu no final da guerra e estava na mesma unidade do Palmach, está no escritório. 
As paredes estão cheias de livros sobre personagens da história militar de Israel que escreveram ambos e de distinções do Estado hebraico aos dois.

Tehila foi ainda professora, jornalista, escritora. 
O tempo no Palmach ocupa uma pequena parte no seu currículo. 
Mas é essencial no definir da sua identidade. 
“Falo disso com algumas palavras”, diz, e começa a tentar procurá-las, a rever a formulação: “Acho que não estamos suficientemente orgulhosos na participação da fundação do Estado. 
Cada povo tem a sua história, tem os seus melhores momentos e os seus piores momentos, mas a oportunidade de ser é só uma. 
E nós aproveitámo-la”, defende.

Israel comemorou a independência seguindo o calendário hebraico, a 19 de Abril, a data assinalada nesta segunda-feira é a que segue o aniversário segundo o calendário gregoriano. 
Na data dos 70 anos, perguntaram-lhe se as suas expectativas se cumpriram. 
“Não, não completamente”, responde. 
“Mas o que digo é que quando se vive na nossa casa, e uma janela se partiu, fazemos os possíveis por a arranjar. 
Se não conseguimos, temos de aprender a viver com ela como está.”

A janela partida “é ainda não termos paz”. 
“Não fizemos o suficiente, adiámos as negociações. 
O outro lado também não fez o suficiente – mas temos de assumir que nós também não”.

O que era preciso “era termos dois Estados [um israelita e um palestiniano], com segurança, sim, e os cidadãos árabes israelitas que quisessem ficar também”. 
Também há outras falhas: “Como sou de esquerda não concordo com a política deste Governo, acho que temos um problema muito grande com os religiosos, é talvez o nosso maior problema interno. 
E ainda não chegámos a uma igualdade real entre homens e mulheres – apesar de estar muito melhor”.

Ou seja, “há coisas em que superou as minhas expectativas, e coisas em que não.”  

Mas “esta é a nossa casa, e uma janela partida não é suficiente para decidirmos mudar”, diz, à laia de conclusão. 
E depois de parar um minuto sublinha: “E quanto às expectativas, na altura não tínhamos expectativas!”

maria.joao.guimaraes@público.p

Boicote generalizado (Portugal incluído) à inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém

DIPLOMACIA
Lusa
13 de Maio de 2018, 17:20 actualizado a 13 de Maio de 2018, 18:40 
Ministério dos Negócios Estrangeiros revela que Portugal não se fará representar na cerimónia desta segunda-feira.

Portugal será um dos países ausentes na cerimónia de inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém, disse neste domingo à Lusa fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 
Ausentes estarão a Espanha, o Reino Unido, a França e Itália, entre dezenas de outros países, incluindo a maioria dos europeus. 
Com presença confirmada estão Roménia, Hungria, Áustria e República Checa. 
"Portugal não se fará representar na inauguração ", marcada para segunda-feira, afirmou a mesma fonte do Palácio das Necessidades.

A cerimónia contará com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e a delegação norte-americana, que já chegou a Israel e inclui o casal Ivanka Trump e Jared Kushner, filha do Presidente dos Estados Unidos e o marido e assessor presidencial, respectivamente.


São esperadas mil pessoas e foram convidados 86 embaixadores e encarregados de negócios, 40 dos quais aceitaram, mas a maioria dos Estados europeus não estará presente por não concordar com a mudança da embaixada de Telavive para Jerusalém, uma decisão anunciada por Donald Trump, que assim rompeu um consenso que vigorava entre a comunidade internacional.

O Governo português, pela voz do chefe da diplomacia, Augusto Santos Silva, opôs-se à decisão da Administração americana de transferir a representação diplomática de Telavive para Jerusalém, insistindo que a solução para o conflito em torno da disputa de poder sobre a cidade santa passa pela "coexistência" entre Israel e a Palestina.


"O Governo português ficará extremamente feliz no dia em que puder reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel, transferindo a sua representação diplomática de Telavive para Jerusalém, porque esse será o exacto dia em que Portugal poderá reconhecer Jerusalém como capital do Estado da Palestina e transferir a sua representação diplomática na Palestina de Ramallah para Jerusalém Oriental", declarou Augusto Santos Silva.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a mudança da embaixada em Dezembro de 2017, quando reconheceu Jerusalém como a capital de Israel, suscitando críticas da maioria da comunidade internacional e a ira dos palestinianos.

Estes reivindicam Jerusalém Oriental, ocupado em 1967 e posteriormente anexado por Israel, como a capital de um desejado Estado da Palestina.

Líder da Al-Qaeda apela à guerra na mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém

ISRAEL
Lusa
14 de Maio de 2018, 7:25 

A mudança da embaixada norte-americana em Israel 
de Telavive para Jerusalém acontece esta segunda-feira 
Ayman al-Zawahiri, líder da Al-Qaeda e médico egípcio, disse que o "apaziguamento não funciona" e que apenas a "resistência, através da jihad" defenderá os interesses dos muçulmanos a viver em vários pontos de Israel.

O líder da rede terrorista Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri apelou à resistência "através da guerra santa" contra os Estados Unidos, a poucas horas da transferência da embaixada norte-americana em Israel de Telavive para Jerusalém.

Num vídeo de cinco minutos intitulado "Telavive também é uma terra de muçulmanos", divulgado no domingo, o médico egípcio, que assumiu a liderança da Al-Qaeda após a morte de Osama bin Laden, em 2011, descreveu a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) como "vendedores da Palestina", considerando que as "negociações e o apaziguamento não serviram os palestinianos".

A embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, reconhecida unilateralmente pelo Presidente norte-americano como capital de Israel, é inaugurada nesta segunda-feira, no dia do 70.º aniversário do Estado judaico, e contará com uma mensagem gravada em vídeo de Donald Trump.


Trump "foi claro e explícito e mostrou o verdadeiro rosto da Cruzada moderna (...) com ele, o apaziguamento não funciona, só a resistência, através da jihad [guerra santa]", de acordo com uma transcrição fornecida pela agência Intelligence Group, especializada na vigilância de sites islâmicos. 
Segundo o líder da Al-Qaida, os países islâmicos falharam na defesa dos interesses dos muçulmanos ao integrarem as Nações Unidas, uma instituição que reconhece Israel, "submetendo-se às resoluções do Conselho de Segurança da ONU, em vez de seguirem a lei islâmica".

No domingo, véspera da abertura da embaixada dos Estados Unidos, dezenas de milhares de israelitas marcharam em Jerusalém. 
O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e a transferência da embaixada, até agora em Telavive, foram anunciados por Donald Trump a 6 de Dezembro, em consonância com uma promessa eleitoral, mas em ruptura com décadas de consenso internacional.


Apesar da contestação da comunidade internacional e dos palestinianos, os Estados Unidos mantiveram a decisão. 
Na terça-feira, os palestinianos assinalam o "Nakba", ou "desastre", que designa o êxodo palestiniano em 1948, quando pelo menos 711.000 árabes palestinianos, segundo dados da ONU, fugiram ou foram expulsos das suas casas. 
Portugal não vai participar na cerimónia de inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém,disse, no domingo, à Lusa, fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Forças israelitas matam 28 palestinianos na Faixa de Gaza

MÉDIO ORIENTE
Rruters
14 de Maio de 2018, 10:39 actualizada às 13:19 

Mais de 900 manifestantes da Marcha do Retorno ficaram feridos. 
Já morreram mais de 70 pessoas desde que começaram estes protestos, há seis semanas.

As forças israelitas mataram pelo menos 28 palestinianos, esta segunda-feira, durante os protestos que decorrem ao longo da fronteira da Faixa de Gaza com Israel, segundo informam fontes dos serviços de saúde palestinianos. 

A morte destes manifestantes eleva para 73 o número de palestinianos mortos por disparos israelitas desde o início da Marcha do Retorno, iniciada a 30 de Março, e que terminará amanhã, assinalando a expulsão dos palestinianos da suas antigas terras, em 1948, para a criação do Estado de Israel, há 70 anos.

"Hoje é o grande dia em que vamos atravessar a cerca [de segurança] e dizer a Israel e ao mundo que não vamos aceitar para sempre a ocupação", disse à Reuters o professor de ciências de Gaza Ali, que não aceitou dizer o seu último nome. 

Os serviços de saúde palestinianos avançam ainda que há a registar mais de 900 feridos nos protestes desta segunda-feira, sendo que 450 destes foram baleados.

Israel justifica o recurso a munições reais (ao invés de balas de borracha, por exemplo) com a necessidade de prevenir a violação da fronteira. 
Esta segunda-feira foram já feridos 28 manifestantes palestinianos.

Os incidentes desta segunda-feira acontecem ainda no mesmo dia em que os EUA inauguram a sua embaixada em Jerusalém, perante protestos da generalidade da comunidade internacional.