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terça-feira, 18 de março de 2014

Ocidente avança para sanções, mas Moscovo não treme

Obama afirmou que Washington pode aplicar mais sanções
ALEXANDRE MARTINS e JOAO RUELA RIBEIRO 17/03/2014 - 19:23
UE e Estados Unidos anunciaram congelamento de bens e revogação de vistos de vários políticos russos e ucranianos. Ucrânia mobiliza reservistas, receando novos movimentos separatistas.

À vitória esperada, seguiu-se a resposta esperada. Um dia depois do referendo na Crimeia em que a integracão do território ucraniano na Rússia foi praticamente consensual, os Estados Unidos e a União Europeia anunciaram que vão aplicar sanções  a vários dirigentes russos e ucranianos.

A opção pela integração da península do Mar Negro na Rússia recolheu 96,77% dos votos, segundo as contas da comissão eleitoral, não havendo margem para grandes surpresas. As sondagens à boca das urnas apontavam para um resultado acima dos 95%.

Tal como previsto, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE chegaram a acordo para a aplicação de sanções a 21 cidadãos russos e ucranianos, acusados de terem responsabilidades no processo que levou à realização do referendo. As medidas passam pelo congelamento de bens e pela revogação de vistos de circulação. As personalidades abrangidas pela lista de sanções englobam três chefes militares russos, o primeiro-ministro da Crimeia e alguns membros das duas câmaras parlamentares russas. No final desta semana, na cimeira de líderes da UE, poderão ser aprovadas novas sanções a personalidades mais próximas do Presidente russo, Vladimir Putin, de acordo com a agência Reuters.

Pouco depois, a Casa Branca anunciava que o Presidente Barack Qbama tinha dado uma autorização executiva para a aplicação de sanções a 11 cidadãos russos e ucranianos, seguindo a mesma lógica de Bruxelas. A lista dos visados foi revelada e inclui vários políticos próximos de Putin, entre os quais o vice-primeiro-ministro russo e a presidente da câmara alta do parlamento, bem como líderes separatistas da Crimeia, como o primeiro-ministro regional, Sergei Aksionov.

Obama veio, logo de seguida, garantir que poderá haver lugar a mais sanções, “se a Rússia continuar a intervir na Ucrânia”. Ainda assim, o Presidente norte-americano afirmou que espera que seja encontrada "uma forma de resolver esta situação pela via diplomática, de maneira a atender aos interesses da Rússia bem como da Ucrânia". Horas depois do anúncio das sanções, fontes do Kremlin revelaram que Putin assinou um decreto em que é a Crimeia é reconhecida como "um Estado soberano e independente".

Sanções não assustam
A perspectiva das sanções não parece ter causado grande impacto junto dos visados. O vice-primeiro.ministro russo, Dmitri Rogozin foi o primeiro a desvalorizar as penalizações: “Camarada Obama, e o que fará àqueles que não têm contas nem bens no estrangeiro? Ou não pensou nisso?", escreveu Rogozin no Twitter, seguido de "Acho que o rascunho da ordem do Presidente dos EUA foi feito por algum brincalhão".

Os mercados financeiros também não acusaram o anúncio das sanções sobre a Rússia. Durante a tarde, a Bolsa de Moscovo contabilizava ganhos de 3,7% e o rublo tinha recuperado algumas perdas iniciais. A reacção, segundo a Reuters, reflectia o sentimento dos investidores em relação ao carácter apenas simbólico das sanções, uma vez que não incluíram administradores de grandes empresas russas como se chegou a antecipar. Na sexta-feira, o jornal alemão Bild noticiava que Alexei Miller, presidente executivo da Gazprom, e Igor Sechin, presidente da Rosneft, estariam na lista da UE.

Assim que os resultados finais do referendo foram anunciados, as autoridades pró-russas da Crimeia arrancaram para uma alucinante corrida legislativa. Em poucas horas, o novo Conselho de Estado da República da Crimeia pediu formalmente a integração na Rússia, anunciou a nacionalização de duas grandes empresas de gás ucranianas (a Chornomornaftogaz e a Ukrtransgaz) e deu três opções aos militares ucranianos: integrarem as forças armadas da Rússia, partirem para a Ucrânia ou mudarem de profissão. Esta é, de resto, uma das questões mais sensíveis no processo de anexação. Várias bases militares na península encontram-se cercadas por forças militares pró-russas - que Moscovo insiste nada terem a ver com as suas forças armadas.

Para Moscovo já seguiu o pedido formal para a anexação e Aksionov deslocou-se à capital russa para reunir com responsáveis do Kremlin. Segundo a agência russa Interfax, o pedido inclui a mudança da hora na Crimeia, para ficar em linha com Moscovo - se o pedido for aceite, a capital da Crimeia, Simferopol, passa de mais duas horas em relação a Portugal continental para mais quatro horas. Para além disso, o território prevê adoptar o rublo já na próxima semana, que deverá conviver com o hrivinia ucraniano durante seis meses. Aksionov revelou igualmente que o governo russo já concedeu uma primeira tranche de assistência financeira, no valor de 15 mil milhões de rublos (295 milhões de euros).

O Kremlin propôs a criação de um “grupo de apoio” para mediar a crise ucraniana, em resposta à proposta ocidental de um “grupo de contacto”, recusada na semana passada por Moscovo. O ponto de partida para uma negociação seria a implementação de algumas partes do acordo celebrado a 21 de Fevereiro entre a oposição e o Presidente ucraniano, Viktor Ianukovich, a garantia de que a língua russa seja o segundo idioma oficial e a descentralização do poder, abrindo caminho para a federalização da Ucrânia. A Rússia quer ainda que a Ucrânia declare a sua neutralidade política, afastando a possibilidade de integração na NATO ou na UE.


O governo de transição rejeita qualquer revisão constitucional no sentido da federalização e deu indicações de que se prepara para defender o território de novas incursões russas no Leste. O parlamento aprovou um decreto presidencial para uma mobilização parcial das suas forças militares e chamou 40 mil reservistas.

A arrogância dos vencedores

Os militares russos fizeram notar a sua presença no centro da
REPORTAGEM
PAULO MOURA (em Simferopol) 17/03/2014 - 18:25


Um dia depois do referendo na Crimeia, a capital, Simferopol, acordou com mais soldados e armamento russos nas ruas. Bases militares onde ainda estão soldados ucranianos continuam cercadas por tropas de Moscovo

Uma sms a meio manhã. A operadora do telemóvel KievStar informa: “A partir de hoje já não se encontra no seu país. As chamadas efectuadas a partir deste simcard passam a estar sujeitas a tarifas de roamming”.

As ruas do centro de Simeropol foram bloqueadas por soldados russos com equipamento e armamento de forças especiais. Todos os acessos ao parlamento estavam barrados, numa vasta área do centro da cidade. São os mesmos soldados russos que têm, desde há semanas, cercado as bases militares ucranianas e ocupado locais estratégicos, como os aeroportos. Mas nunca se tinham mostrado assim, no centro da capital. Só deixam passar quem provar ser funcionário do parlamento, ou jornalista, depois de cuidadosamente revistado.

Uma conferência de imprensa fora marcada para o parlamento, para anunciar as novas medidas legislativas, que incluíam a declaração da independência e o pedido de integração da Crimeia na Federação Russa. Os jornalistas fizeram fila à porta do edifício, mas à medida que entravam eram confrontados com uma misteriosa lista, nas mãos de uns não menos inescrutáveis agentes policiais. Ouviam o nome do jornalista, órgão de comunicação e país, verificavam a pauta e diziam, secos: “Niet!”

Foi “Niet!” para as agências Reuters e AP, para vários jornais e canais de televisão de reputação mundial. Quando chegou a vez do PÚBLICO, após uma hora de espera, o homem nem olhou para a lista. “Niet!” Nenhuma explicação de critério ou procedimento. Tanto quanto foi possível perceber, só entraram órgãos de informação russos.

A hostilidade para com os media estrangeiros tornou-se explícita, sempre à beira de descambar para a violência. Mas bem mais séria é a repressão a qualquer palavra ou gesto a favor da Ucrânia. Vários activistas ou simpatizantes da Maidan têm estado fechados em casa. Pessoas que são contra a integração na Rússia não ousam exprimir opiniões em público, têm medo até dos vizinhos e conhecidos. Alguns, talvez muitos, nunca quiseram ver a Crimeia anexada à Russia, mas acabaram por votar a favor, fosse por medo de perseguições, fosse por falta de alternativas. “Kiev traiu-nos. Deixou-nos sozinhos”, disse uma mulher. “A Rússia, tenho de admitir, veio dar-nos uma mão, apesar de eu não gostar dos seus métodos, e achar que tudo isto é ilegal e falso, e que eles não têm aqui qualquer espécie de direito histórico. Mas Kiev traiu a Crimeia. Lançou-nos nos braços dos russos”.

Muitos, decerto a maioria, estão verdadeiramente satisfeitos, e sentem-se agora mais em casa.
“Krutchev não tinha o direito de oferecer a Crimeia à Ucrânia. Quem lhe deu esse direito? Foi um abuso. Nós não somos um presente que se ofereça a alguém”.

Mas não deixa de sentir-se uma ausência, a vertigem de ter perdido um país de um dia para o outro. É perceptível tanto no medo dos ucranianos, tártaros ou cidadãos de outras etnias, como nos modos arrogantes dos vencedores.

Tensão nas bases militares
Nas bases militares ucranianas, cercadas há semanas pelas forças russas, a tensão aumentou visivelmente. Depois do anúncio, feito pelas novas autoridades, de que seria concedida uma “trégua” a estas bases até ao próximo dia 21, pensou-se que os cercos seriam levantados durante quatro dias, para que os ucranianos no interior dos edifícios pudessem fazer a escolha que lhes foi oferecida pelo governo: integrarem-se nas forças russas, tornarem-se civis ou fugirem para a Ucrânia.

Engano. Em vez de levantarem, os russos apertaram o cerco. Na base de Perevolnia, uns 15 quilómetros a sul de Simferopol, dezenas de camiões e blindados militares russos estavam estacionados ao longo da estrada. Espalhados pelos campos em redor, numa paisagem de montanhas desertas, com vastas manchas de neve, marchavam soldados russos de camuflado verde, fortemente armados.

Os “homens de verde eram, como de costume, mudos. Nem uma palavra aos jornalistas, nem uma reacção aos fotógrafos ou repórteres de imagem. Já os elementos das unidades de auto-defesa se mostraram desusadamente desbocados. “Hoje ainda podes vir aqui, porque me pediram para ter paciência, e queremos evitar qualquer violência”, disse a um fotógrafo, um homem gigantesco que estivera a beber de uma garrafa de vodka. “Mas amanhã se vieres parto-te a câmara”.

Uma jornalista ainda lança, sem grande convicção: “E que tal respeitarem a liberdade de imprensa?”
Resposta imediata de uma mulher que integrava a unidade de auto-defesa:”Não vos damos liberdade nenhuma, porque vocês mentem”. Outro homem da milícia: “São uns mentirosos. Andam a dizer que aqui só há violência, quando tudo está pacífico”. Outro: “Para trás! Afasta-te já daqui, ou levas um encontrão!”

O líder do grupo de auto-defesa. Aleksander Bogelshov, um homem atarracado que foi em tempos, disse, soldado do exército soviético, apresentou a sua versão do que se passava no interior da base: “Os soldados ucranianos estão lá todos, mas não sitiados. Podem sair e entrar quando quiserem. Estão bem, têm comida, boas condições e total liberdade de movimentos”.

Pouco depois, um soldado ucraniano avançou pela estrada, a passos largos, em direcção ao portão da base. Entrou, sem responder a nenhuma pergunta dos jornalistas. “Estão a ver? Ele saiu e entrou, ninguém lhe fez mal”, disse Bogelshov. E acrescentou que iria ao interior da base chamar o comandante ucraniano, para que ele dissesse aos jornalistas como tudo estava bem, sem problemas, no interior da base. Após mais de uma hora de espera, o comandante ucraniano nunca apareceu.

Quem surgiu no portão foi um padre da Igreia Ortodoxa da Ucrânia, depois de ter passado uns 40 minutos no interior da base. “Há um clima de grande apreensão e nervosismo lá dentro”, contou o padre, Ivan Svechen. “Têm medo que haja um ataque, a qualquer momento. E todos estão firmes em obedecer apenas às ordens da sua hierarquia legal. Farão o que lhes for ordenado pelos seus chefes, em Kiev. São fiéis ao seu juramento. Se for preciso combater, tenho a certeza de que não hesitarão. Embora eu espere que isso não aconteça, e que não haja aqui um banho de sangue”.

O padre ortodoxo vai todos os dias à base, para rezar com os soldados. Até agora, disse ele, nenhum saiu, nem para ir para a Ucrânia, nem para se render.

“Todos esperam ordens superiores”.

Putin assina proposta para integração da Crimeia na Rússia

O Presidente russo vai fazer uma declaração no Parlamento russo
ALEXANDRE MARTINS  18/03/2014  -  09:50  (actualizado às 10:37)
Presidente russo discursa nesta terça-feira perante o Parlamento. Sanções dos EUA e da EU vistas como “uma palmada nas mãos”, Moscovo diz que despertam apenas “ironia e sacarmo”

O Presidente russo, Vladimir Putin, assinou nesta terça-feira uma ordem executiva com vista à integração da Crimeia na Federação Russa, instando o Governo e o Parlamento a aprovarem o documento de forma “expedita”.

"Vladimir Putin assinou a ordem executiva Sobre o Cumprimento do Acordo entre a Federação Russa e a República da Crimeia Relativa à Admissão da República da Crimeia na Federação Russa e à Criação de Novas Entidades na Federação Russa", lê-se num comunicado publicado no site do Kremlin.

A ordem executiva do Presidente Vladimir Putin é acompanhada por uma recomendação ao Governo e ao Parlamento para que aprovem a proposta de acordo com vista à integração da Crimeia na Federação Russa de forma "expedita" e "ao mais alto nível".

Um dia depois de ter reconhecido a Crimeia como um Estado independente e soberano, o Presidente Vladimir Putin dá assim mais um passo para a integração do território.

Logo pela manhã, ainda antes de anunciar a assinatura da ordem executiva, Putin transmitira oficialmente aos legisladores e ao governo o pedido das autoridades da Crimeia para passarem a fazer parte da Federação Russa.

O pedido feito pelo governo pró-russo da Crimeia após os resultados do referendo de domingo terá de percorrer o seu caminho legislativo - a proposta de integração terá de ser aprovada pelos governos da Rússia e da Crimeia e pelo Tribunal Constitucional russo, e ratificada pelas duas câmaras do Parlamento russo (o Conselho da Federação e a Duma).

Ainda na manhã desta terça-feira, Vladimir Putin irá discursar perante o Parlamento russo, aguardando-se que avance mais pormenores sobre o futuro da Crimeia.

Sanções são apenas “uma palmada nas mãos”
A rapidez com que Moscovo tem agido após o anúncio dos resultados do referendo de domingo mostra que Vladimir Putin não terá ficado muito impressionado com as sanções anunciadas na segunda-feira pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros anunciaram a "limitação de viagens" e o "congelamento de bens" a 21 cidadãos russos e ucranianos, que acusam de terem sido responsáveis pela situação na Crimeia. Os ministros partiram de uma lista com mais de uma centena de nomes, mas as várias sensibilidades levaram a que o grupo tenha sido reduzido a duas dezenas - de que não fazem parte, pelo menos por agora, presidentes das grandes empresas de petróleo e de gás do país.

A lista, disponível no Jornal Oficial da União Europeia, inclui três responsáveis cujos nomes surgem também entre os 11 que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pôs de lado para poderem vir a ser alvos de sanções do mesmo género. A principal diferença é que a lista europeia inclui alguns responsáveis militares, como o vice- almirante Aleksandr Viktorovich Vitko, comandante da Frota do Mar Negro.

Mas as respostas da União Europeia e dos Estados Unidos, que se dirigem aos políticos mais próximos de Putin, não parecem ter afectado a confiança de Moscovo, a julgar pela resposta do mundo das finanças e pelas declarações de alguns dos visados.

Um dos mais ousados foi o vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozin, que usou o Twitter para ridicularizar as sanções definidas por Barack Obama. "Acho que a ordem do Presidente dos EUA foi escrita por algum brincalhão", escreveu Rogozin, questionando também o que iria fazer Washington aos responsáveis russos e ucranianos que não têm bens no estrangeiro.

Nesta terça-feira, um dos principais conselheiros de Putin para as relações internacionais, Iuri Ushakov, disse às agências noticiosas russas que as sanções anunciadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia despertam apenas "ironia e sarcasmo".

A relevância das sanções europeias e americanas foi questionada em alguns jornais de ambos os lados do Atlântico. No The Washington Post, o colunista Dana Milbank escreveu que “a conversa sobre os amigos [de Putin] pode impressionar a audiência americana, mas não há muito nas sanções que possa enfraquecer os amigos de Putin ou castigar a Rússia pelas suas acções", notando ainda que a bolsa de Moscovo subiu quase 4% e que o rublo aumentou a sua cotação face ao dólar e ao euro, "aparentemente devido à crença de que as sanções dos EUA, e sanções similares anunciadas pela União Europeia, não foram tão más como se receava".


Larry Elliot, editor de Economia no britânico Guardian, descreveu as sanções como "uma palmada nas mãos" de Vladimir Putin. "A reacção dos mercados financeiros às sanções do Ocidente é sintomática. O rublo e as acções na bolsa de Moscovo subiram, e o preco do petróleo desceu. Conclusão: os passos anunciados pelos EUA e pela UE foram vistos como uma palmada nas mãos de Vladimir Putin, o mínimo que poderia ser feito sem que Barack Obama, Angela Merkel e companhia perdessem a face", escreveu o jornalista do The Guardian.

“Crimeia será sempre uma parte inseparável da Rússia”, afirma Putin

ALEXANDRE MARTINS  18/03/2014  -  12:51


Presidente russo discursa perante o parlamento e assina acordo de integração com os actuais líderes da Crimeia

Perante uma ovação em pé dos membros do Parlamento russo, algumas lágrimas, e com o hino da Rússia como música de fundo, o Presidente Vladimir Putin assinou nesta terça-feira o acordo para a integração da Crimeia na Federação Russa com os líderes das autoridades pró-russas da península.

Num discurso repleto de exaltações patrióticas e de acusações ao "auto-intitulado" governo de Kiev, aos Estados Unidos e à União Europeia, Putin tratou de selar aquilo que já se tornara inevitável nos últimos dias: a Crimeia voltou à Rússia.

Antes de iniciar o seu discurso, Vladimir Putin dirigiu-se aos membros das duas câmaras do Parlamento russo (o Conselho da Federação e a Duma) e pediu "uma salva de palmas" para a Crimeia.

Para enquadrar as palavras que se seguiriam, o Presidente russo salientou a importância da Crimeia para a Rússia, depois de ter sido recebido com uma ovação em pé. "Este assunto tem uma importância vital, uma importância histórica para todos nós", disse Putin, depois de ter afirmado que o referendo de domingo decorreu "em total acordo com os procedimentos democráticos e com as normas legais internacionais".

Seguiram-se anúncios sobre o futuro da Crimeia e condenações ao governo provisáorio da Ucrânia, numa declaração que torna cada vez mais a integração da Crimeia na Federação Russa como um facto consumado, que não se vê nesta altura de que forma poderá ser contrariado – na segunda-feira, Putin reconheceu a independência da Crimeia, e já nesta terça-feira aprovou uma ordem executiva que dá início à sua integração na Federação Russa e assinou o acordo com o primeiro-ministro e com o presidente do Parlamento Crimeia, Sergei Aksionov e Vladimir Konstantintinov (presente na cerimónia esteve também Alexei Chalii, presidente da Câmara de Sevastopol).

Putin tratou também de negar as acusações de que a Rússia poderá estar a preparar-se para invadir outras regiões da Ucrânia. “Não acreditem nos que tentam assustar-vos com a Rússia e que dizem que outras regiões vão seguir-se à Crimeia. Não queremos a fragmentação da Ucrânia. Não precisamos disso”, afirmou


Três línguas oficiais na Crimeia
Apesar das acusações ao governo interino da Ucrânia, o Presidente russo afirmou que as relações do seu país com o “povo amigo” da Ucrânia terão sempre uma importância crucial”.

Mais do que tentar tranquilizar as minorias da Crimeia (principalmente ucranianos e tártaros), que receiam pelo seu futuro no seio da Federação Russa, Vladimir Putin quis conquistar o seu apoio, com o anúncio de uma decisão sobre um tema que já se revelou ser crucial para o desenvolvimento da situação no terreno – a futura Crimeia, integrada na Federação Russa, terá como línguas oficiais não só o russo, mas também o ucraniano e o tártaro.

O anúncio de Putin surge como uma resposta ao sentimento que foi criado em finais de Fevereiro, quando o Parlamento da Ucrânia votou a favor da revogação da lei de 2012 que permitia a cada região definir outras línguas oficiais para além do ucraniano, desde que fossem faladas por mais de 10% da população.

Essa revogação (que surgiu logo após a destituição do Presidente Viktor Ianukovich) foi vetada pelo Presidente interino, Oleksandr Turchinov, mas o mal já estava feito. Na altura, Turchinov disse que a lei ainda em vigor "não é equilibrada", mas explicou que vetou a sua alteração por considerar que não protegia todas as línguas.

Com esta questão ainda em aberto, Vladimir Putin aproveitou para voltar a agitar o fantasma da perseguição à população russófona da Ucrânia, afirmando nesta terça-feira que "as auto-intituladas autoridades ucranianas aprovaram uma lei escandalosa sobre as línguas, que violou os direitos das minorias".

Para se perceber a importância da questão da língua, o primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arsenii Iatseniuk, viu-se obrigado a tentar tranquilizar os habitantes das regiões ucranianas de maioria russa, no Sul e nas proximidades da fronteira com a Rússia. "O Presidente em exercício, Oleksandr Turchinov - que, já agora, nasceu em Dnepropetrovsk [cidade de maioria russa] -, tomou a decisão de manter em vigor a lei das línguas adoptada em 2012, com o meu total apoio enquanto primeiro-ministro da Ucrânia. Esta lei ainda está em vigor", frisou Iatseniuk numa comunicação ao país através da televisão, nesta terça-feira.

"Neonazis e anti-semitas"
Quase ao mesmo tempo, em Moscovo, Vladimir Putin voltava a salientar a ligação afectiva entre a Rússia e a Crimeia. "Nos corações e nas mentes do povo, a Crimeia sempre foi e será sempre uma parte inseparável da Rússia. Este compromisso, baseado na verdade e na justiça, é firme, e passou de geração em geração", disse Putin perante os membros das duas câmaras do Parlamento russo.

Depois, virou-se para Kiev - reforçando o tom de inevitabilidade da integração da Crimeia na Rússia - e disse que "as relações com a Ucrânia e com o povo irmão ucraniano foram sempre, continuam a ser e serão sempre de uma importância crucial, sem quaisquer exageros".

Mas a mensagem para o governo provisório da Ucrânia caminhou no sentido oposto, como já se esperava. Foram os actuais "auto-intitulados" governantes ucranianos que abriram as portas aos "extremistas", disse o Presidente russo, que descreveu as autoridades de Kiev como "nacionalistas, neonazis, anti-russas e anti-semitas".

"Os que estiveram por detrás dos recentes axontecimentos andaram a preparar mais um golpe de Estado. Planearam tomar o poder de assalto, sem olhar a nada. Houve perseguições, terror e assassinatos. São eles que estão a tomar decisões sobre a vida dos ucranianos", acusou Vladimir Putin.

Em relação às sanções anunciadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia - cujo impacto tem sido desvalorizado em Moscovo o Presidente russo disse que iriam ter uma resposta, já que as entende como um acto de agressão.

Durante o seu discurso, Putin acusou os Estados Unidos e a União Europeia de terem dois pesos e duas medidas, dando como exemplo a independência do Kosovo. "Não se pode dizer uma coisa hoje e outra amanhã", acusou o Presidente russo, dizendo ainda que os países ocidentais tiveram um comportamento "irresponsável" na questão da Ucrânia.


Jacques Rupnik: “A Europa fez-se contra a geopolítica, foi inventada para conter o poder”



ENTREVISTA
TERESA SOUSA   16/03/2014  -  09:23

Autor de uma vasta obra sobre a Europa de Leste, incluindo os Balcãs, a sua conversão democrática e o seu regresso preparada para um mundo em que a geopolítica está de “regresso” à Europa, Jacques Rupnik é investigador em Sciences Po, Paris. Em entrevista ao PÚBLICO, diz que o que está a acontecer na Ucrânia é aquilo que acontece com o fim dos impérios, apenas 25 anos depois. O problema é que a Europa não está preparada para um mundo em que a geopolítica está de regresso.

A União Europeia foi apanhada de surpresa pela crise ucraniana, que se desenvolveu a uma velocidade imprevisível. Foi por causa da crise, que não a deixa pensar em mais nada?
A Europa estava demasiado centrada nos seus próprios problemas em torno da crise do euro e isso explica, em parte, a razão pela qual não avaliou os desafios da sua periferia imediata. Em segundo lugar, o que era proposto no Acordo de Associação da União Europeia não foi visto por Bruxelas como qualquer coisa de revolucionário - uma espécie de jogo de vida e de morte na relação com a Ucrânia e, sobretudo, com a Rússia. As políticas de vizinhança não são mais do que isso: acordos que permitem o acesso ao mercado europeu, que asseguram ajuda à modernização e que garantem uma melhoria das políticas de vistos. Mas, em nenhuma circunstância, isso significa a adesão à União Europeia. A UE pensou que não estava a propor nada de extraordinário ao ponto de poder provocar uma crise interna na Ucrânia e uma crise na relação com a Rússia. Creio que houve alguma subestimação da possibilidade de a Rússia ver neste acordo uma mudança radical da orientação política ucraniana, o que não era caso.

Pode haver ainda outra explicação: a União Europeia nunca conseguiu elaborar uma estratégica comum para as suas relações com Moscovo.
Isso também é verdade. A prudência na relação com a Ucrânia também se destinava a acomodar diferentes visões que coexistem na União sobre às relações com a Rússia. Mas ninguém queria que, através de um gesto inconsequente, se abrisse uma crise nas relações com a Rússia. Esta crise ucraniana acabou por ser reveladora dessas diferentes sensibilidades europeias em relação à Ucrânia e à Rússia. Que não se resume, como se pensou muitas vezes, a países como a Polónia ou os Bálticos, que estão na linha da frente e que se sentem mais próximos das dificuldades da Ucrânia. Temos de nos lembrar que parte da Ucrânia fazia parte da Polónia e que isso deixou laços privilegiados. Mas não é só isso. Nessa diversidade de sensibilidades em relação à Ucrânia há, no entanto, um denominador comum: ninguém quer um novo alargamento da União. A opinião pública europeia é esmagadoramente contra. Na Alemanha é de 75 por cento, em países como a Holanda, Áustria ou França é de 70 por cento. E mesmo na República Checa chega aos 51 por cento contra a continuação do alargamento.

É um pouco como aconteceu com a NATO: os europeus também perceberam que o alargamento à Ucrânia e à Geórgia, defendido pelos americanos, não era uma boa ideia
E também porque havia uma maioria de ucranianos que não queriam. Há uma década, a NATO era considerada como uma linha vermelha que não devia ser ultrapassada, mas a União Europeia não era vista, incluindo na Rússia, como uma instituição particularmente ameaçadora. Isso mudou depois da Revolução Laranja de Dezembro de 2004 e desde que Vladimir Putin decidiu retomar a influência na antiga periferia soviética da Rússia. O Acordo de Associação foi visto em Moscovo como se se tratasse de uma separação da Rússia.

Putin quer a Ucrânia dentro desta União Euroasiática que está a formar?
Isso mesmo. De alguma maneira, ele impõs uma escolha à Ucrânia: ou a União Euroasiática ou o acordo com a EU. É aqui que esta a novidade: a Russia passou a tratar a EU como um concorrente directo, incluindo-a numa estratégia numa estratégia ocidental que visa separar os vizinhos próximos da Rússia e que, consequentemente, constitui uma ameaça.
                                                       
Foi isso que a Europa nunca imaginou que Putin pudesse ir tão longe na Crimeia. Usa argumentos que faz  lembrar as invasões da Hungria (1956), da Checoslováquia (1968) e o próprio Afeganistão (1979): ir em socorro de um país irmão que pediu ajuda. Agora, o pretexto são os russos que vivem fora?
Há essas ressonâncias antigas. Antes era para salvar o socialismo, hoje é para salvar a minoria russa. Mas isso é ao nível da linguagem. De uma maneira mais geral, assistimos àquilo que costuma acontecer no fim dos impérios. É um problema que outros impérios viveram e que a Rússia está hoje a viver à sua maneira. O que hoje vemos na Crimeia devíamos ter visto depois da desintegração da União Soviética. A Ucrânia e as outras repúblicas tornaram-se independentes, 25 milhões de russos viram-se fora da Rússia, que lhes chama “pés-vermelhos, como a França chama “pied-noir” aos franceses que vieram das colónias do Norte de África. Nesse momento, a política russa podia ter sido ir defender os russos fora das fronteiras da Rússia.
Ora, isso não aconteceu.

E porque?
Porque Boris Ieltsin foi o principal instigador da fragmentação da URSS. Foi a Rússia que fez implodir a URSS. A implosão da União Soviética não veio da Ucrânia ou do Cazaquistão. Veio da própria Rússia quando Ieltsin, enquanto primeiro Presidente democraticamente eleito, se opôs a Gorbatchov, o último secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Havia nesse momento um conflito entre dois projectos. Gorbatchov propunha uma federação soviética e Ieltsin preferia a ruptura. Como foi ele o instigador, não quis uma política de mudança de fronteiras e de protecção das minorias russas. Já nessa altura havia um movimento na Crimeia, que incluía pedidos de socorro. Houve mesmo uma resolução do Parlamento russo nessa altura, que dizia que a Rússia os iria ajudar porque os considerava como parte integrante do seu território. Mas Ieltsin não queria qualquer acção militar. Em síntese, Ieltsin não era Milosevic. É esta a grande diferença. Milosevic disse: se não puder manter a Jugoslávia nas minhas condições, então vou construir a Grande Sérvia, incluindo todos os locais onde haja sérvios, na Croácia, na Bósnia e no Kosovo. Ieltsin não quis fazer isso e dai o milagre da implosão de um império quase sem violência. O mesmo problema regressa agora, com esta crise, quando Putin decidiu confrontar a política ucraniana com esta escolha: ou nós ou a Europa.

É essa a grande mudança?
É essa a grande mudança com que nos defrontamos na na Crimeia, que chega com um grande atraso. É um caso clássico de uma política pós-imperial perante uma região que é habitada por uma maioria russa, que nunca fez parte da Ucrânia, na qual foi integrada em 1954 por decisão de Nikita Krutchov, num gesto que não teve na época qualquer significado. Foi, aliás, para celebrar o 300o aniversário de um tratado que era interpretado como traduzindo a unidade entre a Rússia e a Ucrânia.

A União Europeia não aprendeu nada com a Geórgia? Ou eram circunstâncias diferentes?
Há semelhanças, porque também aí estávamos perante uma república independente e dois enclaves que reclamavam uma autonomia ou uma separação [Abkhazia e Ossétia do Sul]. A grande diferença foi que a iniciativa coube ao Presidente georgiano, quando lançou uma acção militar de reconquista desses dois enclaves. É a mesma ideia, mas o pretexto foi criado pelo Presidente da Geórgia. Agora não estamos na mesma situação, nem houve nenhuma declaração de hostilidade em relação à Crimeia. Podemos dizer, no entanto, que o novo Presidente ucraniano mostrou uma enorme falta de tacto quando decidiu eliminar o decreto que estabelecia o russo como língua oficial da Crimeia. Essa decisão funcionou como uma espécie de espantalho não apenas na Crimeia. Fizeram o contrário e, infelizmente, isso foi considerado como uma ameaça e serviu de pretexto a Putin para dizer que as tropas russas estavam lá para proteger os russos.

Ocidente já deixou cair a Crimeia?
Creio que não há qualquer meio, nem para a Europa nem para os Estados Unidos, de impedir a integração da Crimeia na Rússia. O referendo vai ser realizado    e não vejo que há forma de o impedir. O que penso que os europeus e o Ocidente, em geral, devem fazer e impedir que o que se passa na Crimeia se alastre para a parte oriental da Ucrânia. Porque, se isso acontecesse, seria muito mais grave. Além disso, não se trata apenas de apoiar um
movimento separatista: a Rússia quer
integrá-la no seu território e, do ponto de vista do direito internacional, isso é inaceitável para os europeus. Por isso estamos num processo complicado. Podemos dizer que vamos aplicar sanções, mas haverá uma espécie de Guerra Fria com a Rússia, durante um período hoje difícil de prever.

Isso é o que Putin quer. O problema é que já não estamos nesse tempo.
Não, mas podemos regressar lá. Putin pensa que o período anterior – com Gorbatchov e com Ieltsin foi aproveitado pelo Ocidente para tirar proveito da fraqueza da Rússia e Kiev            da sua excessiva vontade de cooperar. A conclusão que tira é que os ocidentais apenas compreendem a relação de forças. É esse o raciocínio de Putin, que é completamente século XIX e que assenta no equilíbrio de forças. Não se interessa pelas questões do direito e da democracia porque pensa que se trata de um mero verniz para camuflar as verdadeiras intenções do Ocidente. Mas também considera que se tornou indispensável para a resolução de algumas guerras internacionais - na Síria, no Irão, na retirada das tropas do Afeganistão, que passam pela Rússia e sobrevoam o seu espaço aéreo. Numa palavra, que deve haver uma nova Guerra Fria que será limitada no tempo e na natureza das medidas, porque os ocidentais e, em particular, os americanos precisam da Rússia para estes problemas internacionais.


E pensa também que os europeus — e, em primeiro lugar, a Alemanha — estão demasiado dependentes da Rússia, em matéria de energia mas também de comércio, para aplicar sanções económicas duras.
Ele conta com isso, naturalmente. Pensa que os europeus vão apresentar princípios comuns mas que, na prática, quando chegar o momento das sanções concretas, vão dividir-se muito depressa. É preciso lembrar que os interesses americanos e europeus neste domínio não são idênticos. O comércio entre a União Europeia e a Rússia é onze vezes maior do que o comércio com os EUA. A Alemanha tem 6 mil empresas implicadas na Rússia e há a dependência em relação ao gás. A Grã-Bretanha tem a City e, se as sanções passarem pelo congelamento dos bens financeiros dos oligarcas, haverá uma enorme resistência. Cada país tem os seus problemas. Os polacos, pelo contrário, querem sanções mais firmes. É muito difícil ter uma política unida nesta matéria. Haverá declarações comuns da diplomacia europeia, assente num certo número de princípios. Mas, quanto às sanções, vamos ter de encontrar o menor denominador comum por causa dos interesses particulares. A Itália, por exemplo, está muito reticente...

Por causa dos acordos de fornecimento de energia.
Sim. Vamos ter uma espécie de nova Guerra Fria diplomática. Não vamos à cimeira de Sotchi [do G-8] e outras coisas do género. Estive em Londres na semana passada e toda a gente me disse que a City estava absolutamente contra esse tipo de medidas, que muita gente considera como ineficazes.

Para a Europa está a ser muito difícil funcionar num mundo em que a geopolítica está de regresso.
Os europeus têm esta dificuldade de pensar apenas em termos económicos, enquanto isso se torna cada vez menos possível
O problema é que a Europa se construiu contra a geopolítica. A Europa foi inventada para conter o poder e não como um projecto de poder. Depois de 1989 e até recentemente essa era a esperança, talvez pouco razoável, de construir uma nova Europa que finalmente se unificava no projecto europeu, assente em normas comuns. Estas eram, de alguma forma, as armas da paz. Isso estaria bem num mundo que aceitasse uma potência normativa como é a Europa. Mas, depois do 11 de Setembro, assistimos ao regresso da política de potência. Não apenas os EUA, mas a China ou os BRIC agem na lógica da soberania e da potência. Querem a arma nuclear, como a Índia. Não entendem o poder partilhado da Europa. Acreditam mesmo que todas estas regras são uma invenção ocidental para continuar a tirar partido da sua superioridade. Vêem isso como um neocolonialismo disfarçado. Os europeus estão, como dizem os ingleses, na última estação mas sem sítio nenhum para ir. Têm grandes ideias sobre o direito, a norma, a virtude da interdependência económica e da paz, quando no mundo de hoje o que conta é cada vez mais a logica de potência. Talvez estar crise seja uma oportunidade que nos obrigue a pensar como é que a Europa se pode reinventar como actor geopolítico.

Um desafio muito difícil de alcançar...
Muito difícil. Quando vejo os ministros dos Negócios Estrangeiros francês, alemão e polaco irem juntos a Kiev, penso que é o princípio de uma convergência real perante uma situação concreta. Mas, pelo contrário, quando olho para o Mali, vejo que a França tem de ir sozinha.


Ele quer ser reconhecido pelos EUA como uma “grande potência” e considera que, desde há 25 anos, a Rússia foi ignorada. Gorbatchov chegou com as suas boas intenções e deitou abaixo a União Soviética. Ieltsin queria tanto agradar aos ocidentais que engoliu tudo. Putin acha que isso era contrário aos interesses da Rússia, remetida a um papel completamente subalterno. Como é que reconquista este estatuto? Pela afirmação do seu poder na Síria, no Irão, ou a fazer músculo na Ucrânia. Quer que a Rússia seja vista como um actor incontornável, mesmo que seja no sentido negativo do termo. Pensa que será por esta via que será reconhecida e respeitado por interlocutores como os EUA. Se quiser, quer ser o “inimigo preferido” dos EUA.