Powered By Blogger

segunda-feira, 17 de março de 2014

As opções de Moscovo na Crimeia


OPINIÃO
JORGE ALMEIDA FERNANDES (http://publico.pt/autor/jorge-almeida-fernandes)  16/03/2014  - 01:20

O referendo na Crimeia pode levar a duas saídas. A primeira, a anexação do território pela Rússia, parecerá evidente na continuidade das últimas iniciativas de Vladimir Putin. No entanto, uma segunda opçao nao deve ser afastada: Moscovo poderá protelar e acabar por recusara anexação, não só pelos elevados custo
económicos e políticos, mas como plataforma para recuperar a influência na Ucrânia. É "o grande jogo’’ que se trava na fronteira entre a Rússia e a NATO.

Ganhar a Crimeia e perder Ucrânia seria uma vitoria de Pirro, a maior punição para a Rússia e para os seus desígnios estratégicos. Ao contrário, recuperar a influência em Kiev — e o Kremlin tem trunfos a jogar — garante-lhe o controlo estratégico da Crimeia.

Putin cometeu graves erros de cálculo em Kiev que lhe valeram uma humilhação. Mas a sua capacidade de manobra não deve ser subestimada.

Sem Ucrânia não existe a União Euro-asiática que ele tem em mira para elevar a potência da Rússia. A aventura na Crimeia não apenas uniu os ucranianos contra Moscovo como assustou o Cazaquistão, o outro país indispensável para a União. O Presidente Nursultan Nazarbaiev defendeu a integridade territorial da Ucrânia e repudiou os argumentos de Putin: o Cazaquistão tem 17 milhões de “russos étnicos" e não aceitará interferências em seu nome. Putin suscitou também uma enérgica reacção dos vizinhos europeus, da Polónia aos bálticos, o que significa potenciar a acção da NATO no Leste europeu.

A invasão da Crimeia — alertou a analista russa Lilia Chevtsova — põe em causa "a ordem mundial pós-Guerra Fria; é "um precedente que autoriza o Kremlin a uma intervenção directa nos assuntos de um Estado soberano"; implica uma "doutrina que ameaça a estabilidade de todo o espaço pós-soviético"; abriria caminho a uma tentativa de controlo sobre o Sul e o Leste da Ucrânia; o alvo seguinte poderia ser a Moldávia.

Tal como não se deve dar como adquirida a anexação da Crimeia, é prudente não excluir a hipótese, mesmo improvável, de Moscovo desestabilizar a Ucrânia Oriental para criar um pretexto de intervenção com consequências catastróficas.

Há um factor imponderável: Putin poderá ter ficado refém de si mesmo. A operação na Crimeia desencadeou uma vaga de "fervor imperial" na Rússia, reforçando a "paranóia do cerco", reportava ontem o Financial Times.

"Os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem."

O peso da geografia
Ignora-se o que vai na cabeça de Vladimir Putin. Angela Merkel disse que ele parece "descolado da realidade" e "vive noutro mundo".

Esse "outro mundo" é o da velha geopolítica, o da luta pelo espaço e pelo poder. Para o Kremlin, este não é um conflito sobre legalidade internacional. "O comportamento de Putin é motivado pelas mesmas considerações geopolíticas que influenciam todas as grandes potências, incluindo os Estados Unidos”, escreve o analista americano John Mearsheimer.

O jornalista e investigador americano Robert Kaplan publicou em 2012 um livro útil: The Revenge of Geography (A vingança da geografia). É um ensaio sobre geopolítica. Publicou agora um artigo sobre a Crimeia.







A um passo de uma nova Guerra Fria


OPINIÃO
DIRECÇÃO EDITORIAL 17/03/2014 - 00:59

A Crimeia votou como se esperava que votasse. Estaremos a caminho de uma nova Guerra Fria?

Nos primeiros dias de Março foi colocado junto à estátua de Lenine, no centro de Sinferopol, capital da Crimeia, o seguinte dístico: “Não toquem no nosso chefe.” Não tocaram. Pelo contrário. Do alto da sua imponente estátua, situada na praça que também leva o seu nome, o histórico líder soviético assistiu impávido ao agitar de bandeiras russas e de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo a celebrar o referendo onde uma grande maioria de votantes disse “sim” à integração na Rússia. Em Kiev, em Dezembro de 2013, Lenine teve pior sorte: a sua estátua foi furiosamente derrubada. Por isso também se manteve esta intacta e se consumou (pelo menos no desejo expresso num referendo ilegal e incontrolado) o regresso da Crimeia à “grande mãe” Rússia.


Nada disto foi novidade, nem sequer o júbilo expresso nas ruas, ou a celebração mais do que antecipada (horas antes do fecho das urnas) de uma vitória previsível. Na entrevista que concedeu a Teresa de Sousa, publicada na edição de ontem, o investigador francês Jacques Rupnik disse claramente: “Não há qualquer meio, nem para a Europa nem para os Estados Unidos, de impedir a integração da Crimeia na Rússia.” E se, como Rupnik também disse, “a Europa se construiu contra a geopolítica”, é a geopolítica que não só a Europa mas o mundo, em particular os Estados Unidos, têm agora pela frente no caso da Crimeia. As promessas de sanções, que voltaram a fazer-se ouvir, só surtirão efeito se com elas se pretender atingir um fim óbvio. E está à vista que só muito dificilmente este será a “devolução” da Crimeia, por mais que a Ucrânia a reclame (baseada na lei e em tratados de delicada elaboração internacional). Ao contrário, se tais sanções servirem para coisa nenhuma, haverá um impasse e o regresso, com novos contornos, da velha Guerra Fria. John Kerrv dizia, há dias, que a porta da diplomacia continuava aberta. Pois é tempo ainda de usá-la, para evitar males piores para todos.

União Europeia reafirma que considera referendo ilegal e prepara sanções

John Kerrv e Sergei Lavrov, os chefes da diplomacia norte-americana e russa
MARIA JOÃO GUIMARÃES 16/03/2014 - 20:44


Estados Unidos também insistem na ilegalidade e acusam Rússia de violar a lei internacional e de continuar a levar a cabo acções "perigosas e desestabilizadoras". Moscovo diz que respeitará o resultado.

Ainda a votação não tinha terminado e não só se festejava nas cidades da Crimeia como, no palco internacional, Bruxelas e Washington reafirmavam que consideram ilegal o referendo pela separação da Ucrânia e integração na Federação russa.

Numa declaração conjunta, os presidentes do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e da Comissão Europeia, Durão Barroso, condenaram a consulta eleitoral e anunciaram que, numa reunião a realizar esta segunda-feira, os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros vão discutir em Bruxelas a possibilidade de sanções. Na semana passada, os chefes de estado e de Governo evocavam já a possibilidade de aplicar sanções a pessoas concretas, com congelamento de bens e restrição de vistos para pessoas que tenham sido responsáveis pela violação da soberania da Ucrânia. Se forem aprovadas, estas serão as primeiras sanções europeias à Rússia desde o fim da Guerra Fria, nota a Reuters.

A Casa Branca declarou também este domingo que não irá reconhecer o resultado de um “referendo feito sob ameaça de violência e intimidação de umaintervencão militar russa que viola a lei internacional”. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse ainda que as acções da Rússia, escalando de uma ocupação militar há duas semanas para “exercícios militares na fronteira Leste da Ucrânia”, eram “perigosas e desestabilizadoras”.

Em sentido contrário, o Presidente russo, Vladimir Putin, garantiu que “respeitará a escolha dos habitantes da Crimeia”, segundo um comunicado do Kremlin. Alena Arshinova, do partido Rússia Unida, de Putin, defendeu que Moscovo tem a responsabilidade “de manter a paz e estabilidade no território da antiga União Soviética” e que neste papel a Rússia se via obrigada a concretizar o que fosse decidido no referendo na Crimeia.

O governo de Moscovo anunciou por outro lado que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, concordaram, também este domingo, em procurar uma solução para a crise ucraniana através de reformas constitucionais. Mas não foram dados pormenores sobre essas reformas, apenas que deverão ter em conta os interesses de “todas as  regiões da Ucrânia”.

O que fará Moscovo?
Com o referendo a dar a esperada vitória à integração da Crimeia na Federação Russa, o mundo aguarda o que fará Moscovo.

Analistas esperam que a Rússia anexe rapidamente a península, numa acção não vista na Europa há décadas, e a primeira entrada de um território na Rússia desde o fím da União Soviética em 1991. “Até Abril, a Crimeia fará parte da Rússia”, disse Fiodor Lukianov, director do jornal trimestral Russia in Global Ajfairs. “Mesmo que não haja precedente, vão fazê-lo o mais rapidamente possível.”


Mas há quem diga, aponta o diário britânico Times, que o principal obstáculo à integração da Crimeia está nas próprias leis russas, segundo as quais um novo território só pode juntar-se à Federação russa depois de um acordo entre Moscovo e o país a que o território pertencesse anteriormente. Com a Ucrânia a classificar o referendo como inconstitucional, não parece haver uma hipótese de um acordo desse género.

Crimeia pede integração na Rússia, União Europeia aprova sanções contra 21 pessoas

Houve festejos nas ruas de Sevastopol
PÚBLICO  17/03/2014 – 07:50   (actualizado às 13:15)

Integração na Federação Russa aprovada por 96,77% dos eleitores, num referendo que os Estados Unidos e a União Europeia consideram ilegítimo e ilegal. Ministros europeus aprovam sanções contra 21 cidadãos russos e ucranianos e Vladimir Putin faz declarações na terça-feira

A integração da península ucraniana da Crimeia na Federação Russa foi aprovada por 96,77% dos eleitores que votaram no referendo de domingo, anunciou o presidente da comissão de eleições local. As agências russas avançam que a Crimeia já pediu formalmente a integração na Rússia e a mudança para o fuso horário de Moscovo, até 30 de Março.

Em conferência de imprensa, o responsável pela comissão de eleições, Mikhail Malishev, precisou que o "sim" à pergunta "É a favor da reunificação da Crimeia com a Rússia como parte da Federação Russa?" obteve 96,77% dos votos. Segundo o mesmo responsável, votaram 83,1% dos 1.274.096 dos eleitores.


Os resultados finais
O anúncio do resultado final foi recebido com entusiasmo no Parlamento russo. O vice-presidente da câmara baixa (Duma), Sergei Neverov, anunciou que "todos os passos legislativos necessários sobre os resultados do referendo serão tomados o mais rapidamente possível". "O referendo mostra que o povo da Crimeia vê o seu futuro com parte da Rússia", acrescentou o mesmo responsável.

As primeiras estimativas apontaram para uma vitória da integração na Federação Russa com um resultado acima dos
95%, pelo que o anúncio oficial não altera em nada a situação.


A consulta não é reconhecida pela União Europeia e pelos Estados Unidos

Assim que os resultados finais do referendo foram anunciados, as autoridades pró-russas da Crimeia arrancaram para uma alucinante corrida legislativa. Em poucas horas, o novo Conselho de Estado da República da Crimeia pediu formalmente a integração na Rússia, anunciou a nacionalização de duas grandes empresas de gás ucranianas (a Chornomornaftogaz e a Ukrtransgaz) e deu três opções aos militares ucranianos: integrarem as forças armadas da Rússia, partirem para a Ucrânia ou mudarem de profissão.

O governo russo começa já a fazer contas. O vice-ministro das Finanças disse nesta segunda-feira que "a provável integração" da península ucraniana na Federação Russa "terá um impacto significativo" na economia do país. Sergei Shatalov admite mesmo que o processo terá de incluir a aplicação de "um regime especial de impostos" durante um período de transição.

Pouco tempo depois do anúncio dos resultados finais surgia a notícia de que as autoridades pró-russas da Crimeia já enviaram o pedido formal de integração na Federação Russa ao parlamento do país. Segundo a agência russa Interfax, o pedido inclui a mudança da hora na Crimeia, para ficar em linha com Moscovo - se o pedido for aceite, a capital da Crimeia, Simferopol, passa de mais duas horas em relação a Portugal continental para mais quatro horas.

O Presidente russo, Vladimir Putin, vai fazer uma declaração perante o parlamento russo na terça- feira.


O primeiro-ministro da Crimeia, Sergei Aksionov, disse à mesma agência que o rublo será adoptado na próxima semana com uma segunda moeda oficial, em simultâneo com o hrivnia ucraniano. Este sistema deverá estar em vigor dentro de seis meses.

“Ganhámos. A Crimeia é parte da Rússia”


REPORTAGEM
PAULO MOURA (Simferopol)  16/03/2014  -  23:09


Com 95% de votos no “sim”, muitos milhares vieram para a praça celebrar a Rússia. Na noite dos
Bairros tártaros, o silêncio. Famílias ucranianas começavam a planear o êxodo.

As urnas fecharam às oito horas da noite, mas às sete e cinco minutos o resultado foi anunciado oficialmente no palco em frente à estátua de Lenine, por uma deputada que acabara de cantar uma velha canção soviética: “Ganhámos. A Crimeia é parte da Rússia.” O número exacto seria anunciado depois: 95% de votos a favor da integração da Crimeia na Rússia.

Aplausos. Gritos. “Rússia! Rússia!” Um raio lazer projectado no edifício do Ministério do Interior e no peito de pedra de Lenine: “Primavera da Crimeia.”
Mais canções. Já não os hinos patrióticos das manifestações das últimas semanas, mas cantigas populares, ligeiras, até infantis, dos tempos da União Soviética. As letras falam de amor, de flores, ou são lengalengas para adormecer. A muitos fazem lembrar a infância.

O dia do referendo da Crimeia decorreu sem incidentes. As estações de voto abriram a horas, não houve violência, nem queixas de maior. Aleksander, um homem de 68 anos, boné e muletas, ex-combatente no Exército Vermelho, reformado dos caminhos-de-ferro e tocador de acordeão nos tempos livres, saiu da cabine de voto a chorar. “O Governo de Kiev não é legítimo”, disse ele. “Podiam ter deixado Ianukovich terminar o mandato, e depois votavam noutro presidente, nas eleições. Agora o poder está na rua. Os fascistas do Sector Direito têm armas e preparavam-se para atacar as bases militares, e depois mandar em nós... Por isso tivemos de pedir ajuda à Rússia.” Aleksander vê toda esta informação nos canais de televisão russos. Os ucranianos foram fechados, mas ele não se importa. Nunca os via. “Não gosto das canções que eles passam. Ainda bem que os fecharam. Tínhamos de estar sempre a ouvir aquela música...”

Às 11 horas da manhã, na Escola número 7, já tinham votado um quarto dos eleitores registados. Havia muita gente a chegar às mesas de voto, mas não faziam filas, empurravam-se até conseguir impor a sua vez. Exibiam o documento de identificação, viam o nome ser confirmado na lista. Numa cabine fechada, preenchiam o boletim, que introduziam, aberto, sem o dobrar, numa urna transparente.

“As pessoas que estão nas mesas de voto são activistas de organizações cívicas, aprovadas pela comissão do referendo”, explicou o presidente da assembleia de voto. Logo pela manhã, uma comissão da Duma de Moscovo veio verificar se tudo estava correcto. Fez isto em todas as assembleias de voto.

Não há observadores. Mas o momento da contagem dos votos será aberto aos jornalistas, prometeu o presidente. Regressámos pouco antes das oito, mas era mentira. As portas estavam fechadas.

Na Escola número 16, ao fim da manhã, registara-se apenas um problema, um eleitor cujo nome não constava da lista. Mas provou que vivia na zona, votou. Natasha Kalashnikova, 27 anos, economista, grávida de um rapaz, acha normal que a generalidade dos países do mundo não reconheça o referendo. “Não é do interesse dos EUA, da Europa, etc., que a Rússia se desenvolva.” Também não acha estranho que quem contesta a integração da Crimeia na Rússia não tenha tido direito a fazer qualquer campanha. “São uma minoria. Por isso nem quiseram fazer publicidade.” Natasha veio votar com o pai, Iuri Nichomaievich, 65 anos, que diz, muito excitado: “Só espero que Putin não esteja a fazer isto por razões geopolíticas, mas para defender o povo da Crimeia.” Acrescenta: “Desculpe estar tão eufórico. Pareço agressivo, mas não sou.”



domingo, 16 de março de 2014

Uma conspiração de homens de negócios

O potencial da Crimeia é imenso, mas está por explorar filippo monteforte/afp
PAULO MOURA (Sitnferopol) 16/03/2014 - 00:57


A “Primavera russa da Crimeia” foi também uma conspiração de homens de negócios. Empresários ligados à Rússia sentiam-se discriminados pela corrupção ucraniana. Agora, um novo grupo de oligarcas, que patrocinou o golpe e o referendo, assume o poder na região. O referendo ainda não se realizou, mas já se fazem os negócios.

Evgueni Michailov entra e dirige-se para a mesa do costume, no In-Time, um dos melhores restaurantes de Sinferopol, não longe do parlamento.
Pede um capuccino e recomenda otiramisu, como quem sabe do que está a falar, e sabe. Disso e muito mais. Estende um cartão-de-visita. “Deputado do Parlamento da República Autónoma da Crimeia. Presidente do Comité Olímpico da Crimeia.” E muito mais, diz ele. halterofílismo, por exemplo. E negócios. Principalmente agora.

“Diga-me: o homem mais esperto de Portugal consegue ganhar mil milhões de dólares num ano, partindo do zero?" Provavelmente não. “Pois na Ucrânia é possível. O filho do Presidente Ianukovich ganhou mil milhões num ano. Explicação do pai: ele trabalha muito, de dia e de noite.” Era assim, segundo Michailov, o mundo dos negócios na Ucrânia: quanto mais próximo do Presidente, mais dinheiro. O que dificultava um pouco a vida aos empresários de origem russa operando na Crimeia.

“Em cada negócio que tentávamos fazer, enviavam 40 fiscais de Kiev, para nos pôr problemas.
Inspeccionavam tudo, inventavam leis e burocracias, para nos paralisar. O objectivo, claro, era extorquir subornos. O sistema era tão corrupto, que não valia a pena mexer um dedo.”

Evgueni Michailov trabalha sobretudo no sector do turismo. O potencial da Crimeia é imenso, mas está por explorar. De facto, um passeio de carro pela zona costeira, de Sebastopol a Balaclava, permite observar uma paisagem de hotéis decadentes, edifícios em ruínas e estradas esburacadas, com um fundo de mar azul-escuro e transparente e falésias brancas. Com tal esplendor da Natureza, estranha-se a ausência de grandes investimentos em estruturas turísticas.

“Era impossível”, explica Michailov. “As leis mudavam todos os dias. Inventavam novos impostos, exigiam novas licenças. Os burocratas de Kiev viviam para fazer dinheiro à custa dos homens de negócios.” Não de todos, ressalva. O grupo próximo do poder prosperava. Os outros eram obrigados a “pagar subornos à polícia, aos serviços secretos, aos burocratas”. “Não há nenhuma empresa na Ucrânia que não tivesse de os subornar”.
Incluindo as de Evgueni Michailov? Silêncio. Um sorriso de ironia. “Não, eu era o único que não pagava. É por isso que estou pobre.”

As mesas do restaurante estão ocupadas por políticos, empresários, oligarcas, todos de fato e gravata. Discutem em surdina nos seus pequenos grupos, mas frequentemente estendem as conversas para a mesa ao lado. A de Michailov é das mais concorridas. Em breve se nos junta o presidente da câmara de uma cidade vizinha, Feodosia, e outro empresário da área do turismo.

Havia portanto um grupo de empresários privilegiados, ligados ao governo ucraniano, e os outros, que se sentiam prejudicados. Se o que dividia uns e outros era o facto de serem ucranianos ou russos, Michailov não confirma. Mas pelos exemplos que dá, parece ser o caso. Pelo menos na sua percepção.

Nas primeiras semanas da revolta em Kiev,
Michailov apoiou a Maidan. Mas depois percebeu que os seus líderes pertenciam aos mesmos círculos do poder. Nada ia mudar para melhor, na perspectiva dos empresários russos. Talvez para pior, o que se confirmou. “Os líderes que chegaram agora ao poder fazem parte do sistema de corrupção. Por isso nós tínhamos de agir. Era a altura. Se não fosse com o referendo, seria de outra maneira qualquer.”

Michailov apoiou a “Primavera da Crimeia”. Foi um dos seus protagonistas, juntamente com Serguei Aksionov (actual primeiro-ministro), Vladimir Constantinov (presidente do parlamento) e outros empresários seus amigos. Fizeram-no em coordenação com Moscovo, mas a iniciativa foi deles, diz Michailov, que gastou do seu bolso muito dinheiro com a “Primavera”.

“Sim, eu dei dinheiro para o movimento. Nasceu do povo, de forma espontânea, precisavam de apoio.” Só não dfiz com quanto. “Há quatro perguntas que não se fazem a uma pessoa: qual a sua religião, com que mulher anda, de quem recebe dinheiro e a quem o dá.”

Zelinski Kostiantin ainda não disse nada desde que se sentou à mesa. Está à espera da sua vez, para falar com Michailov. Tem um projecto e quer ajuda. A sua agência turística organiza um festival de jazz em Koktebel, na costa leste, perto da península de Kerch, vizinha da Rússia. Acontece que Michailov é proprietário de um hotel na mesma cidade. Outra coincidência: é deputado da Crimeia.

Tudo conjugado promete um evento em grande, durante cinco dias, na primeira semana de Setembro. “Eu vou ajudar este homem, porque ele merece”, declara Michailov. Kostiantin sorri com tímida reverência. “A razão de não haver mais investimento na Crimeia é o facto de o turismo ser sazonal”, diz Michailov. “Mas não queremos que as pessoas venham apenas de Maio a Setembro, para nadar e apanhar sol. Queremos visitantes todo o ano. Por isso vamos apostar em projectos culturais, como este festival, e sanatórios para tuberculosos, em Ialta, estabelecimentos de águas termais...” É aqui que entra o autarca de Feodosia, que também veio pedir apoio para um projecto seu: termas.

“Em Feodosia mando eu”, diz Michailov, colocando o braço sobre os ombros de Kostiantin. “Ele é o meu número dois. Com a minha supervisão, está a organizar o referendo na cidade. E depois temos um grande projecto termal na região, que vai atrair turistas todo o ano, principalmente da Rússia. Antes, isto não seria possível.”

Com todos os investimentos planeados, a região vai dar um grande salto para a prosperidade, diz o deputado/empresário. Haverá mais empregos, bem pagos, os salários serão equiparados aos da Rússia. “Um professor aqui ganha 250 dólares por mês. Na Rússia, 800 ou 900. Um médico ganha 300 dólares na Ucrânia, 1200 na Rússia. Não é?” Volta-se para uma mesa ao lado: “Quanto ganha um médico?”

Os três russos sentados na outra mesa confirmam. São deputados regionais de Krasnadar e estão em Sinferopol a convite do novo governo. “Somos convidados do governo da Primavera da Crimeia”, diz um deles, Aleksander Vaslevn. Entrega um cartão-de-visita com uma fotografia sua em equipamento de motocross, montado numa traillerde 250 cm3. “A minha empresa organiza torneios”, explica. “Estamos aqui para montar um grande projecto conjunto com os amigos da Crimeia.”

Aproximam-se da nossa mesa e falam de cadeias de hotéis, percursos turísticos, trajectos dos ferries na baia do Mar de Azov. “Está a ver? É muito fácil para nós falar com os russos”, diz Michailov. “Se fossem franceses, só poderíamos falar do presente. Com os russos podemos falar do passado, porque é comum e nos entendemos. É uma questão de cultura, e também de genética. Nos russos posso confiar, porque são pessoas de carácter."

"[Os deputados de Krasnadar, tal como outros políticos, de Moscovo, e empresários russos], estão cá para nos ajudar a resolver os problemas, e para lançar investimentos conjuntos.”

Os negócios de Michailov sempre estiveram mais ligados à Rússia do que à Ucrânia ou à Europa. “A maioria dos turistas da Crimeia vem da Rússia. Os europeus não querem vir para cá. Todos os meus negócios são com a Rússia. E a União Europeia não me traz nenhuma vantagem. Tenho interesse em ligar-me ao parceiro mais poderoso, que é a Rússia”

A possibilidade de também haver corrupção na Rússia não preocupa Michailov. “Os russos são meus amigos. Com eles entendo-me bem. E confio totalmente em Aksionov e Constantinov. São homens de negócios como eu, nunca me irão pedir subornos. Eles também sofreram a corrupção de Kiev, não vão fazer a mesma coisa. Agora nada pode impedir o desenvolvimento, porque estamos entre amigos.”

Dias antes deste encontro faláramos com um empresário ucraniano, Serguei Kovalski, dono de uma cadeia de clubes nocturnos em cidades ucranianas. Tinha sido nomeado líder da Maidan na Crimeia, presumivelmente na esperança de que os seus meios financeiros ajudassem o movimento contra a anexação russa.

Rodeado de guarda-costas, no seu escritório nos bastidores do luxuoso clube de karaoke Broadway, Kovalski estava em choque por o seu pai ter sido raptado na véspera pelas unidades de autodefesa pró-Rússia. Toda a família tinha já fugido para outras regiões da Ucrânia, e Serguei temia pela sua sorte.

Dias depois surgiu a notícia de que tinha desaparecido. Na Broadway ninguém sabia dele. A Maidan elegeu novo líder, um tártaro. Era impossível ligar para o número de telefone de Serguei Kovalski. Uma operadora dizia que estava desligado, mas após muitas tentativas, conseguimos. "Está tudo bem consigo?", perguntámos.


“Sim, respondeu uma voz. Mas não era a dele

EM DIRECTO  16/03/2014  -  14:21
Imagens de uma mesa de voto em Sinferopol, na Crimeia, onde este domingo se vota um referendo que a Ucrânia, Os EUA e a União Europeia consideram ilegal