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domingo, 16 de março de 2014

Ucrânia denuncia reforço militar russo na Crimeia em dia de votação

Eleitora vota na aldeia de Pobednoe
PÚBLICO  16/03/2014  - 11:55 (actualizado às 13:38)
Ninguém duvida que o referendo seja desfavorável à separação da Ucrânia. Moscovo levanta bloqueio às bases ucranianas, mas só até sexta-feira

Os habitantes da península ucraniana da Crimeia estão, este domingo, a votar sobre a sua ligação à Rússia - um escrutínio considerado ilegal pela Ucrânia, pelos Estados Unidos da América e pela União Europeia. Ao mesmo tempo, o Governo de Kiev denunciou o reforço da presença militar russa na região.

Os eleitores, milhão e meio, são convidados a escolher entre a integração na Federação da Rússia e uma autonomia mais alargada no seio da Ucrânia. Apoiada pelo Governo de Moscovo, a consulta eleitoral foi organizada pelas autoridades pró-russas locais num tempo recorde de duas semanas. A votação decorre sem a presença de observadores ou jornalistas locais.

Ninguém duvida que o referendo, que o Governo de Kiev e os países ocidentais consideram violar a Constituição ucraniana, seja desfavorável à separação da Ucrânia, devido ao peso maioritário dos russófonos na população. A votação é boicotada pela população tártara.

“Vim votar neste dia de festa para benefício da Crimeia e dos seus habitantes e agora vou celebrar”, disse à Reuters Vladimir, um eleitor dos seus 40, depois de votar num escola na região de Sinferopol, a capital.

As perguntas feitas aos eleitores prevêem duas hipóteses - a primeira é a secessão e reunificação com a Rússia, a segunda o regresso à Constituição de 1992, que permite maior autonomia e dá poder aos órgãos regionais para escolherem o seu rumo.

As urnas abriram às 8h00 locais (6h00 em Portugal Continental) e encerram 12 horas mais tarde. Os primeiros resultados deverão ser divulgados pouco depois.

Já com as urnas abertas, o ministro interino da Defesa da Ucrânia, Ihor Teniukh, disse que a Rússia continua a reforçar a sua presença militar na Crimeia e tem agora 22.000 soldados na região - um número largamente superior ao limite de 12.500 previstos nos acordos sobre a permanência na região da frota russa do Mar Negro.

“Infelizmente, num curto período de tempo, esses 12.500 aumentaram para 22.000. É uma brutal violação dos acordos bilaterais e uma prova de que a Rússia trouxe ilegalmente tropas para o território da Crimeia”, disse Teniukh, numa entrevista à agência Interfax. “As forcas armadas ucranianas estão a tomar as medidas adequadas ao longo das fronteiras a sul”, acrescentou.

Desde que Viktor Ianukovich foi afastado da presidência da Ucrânia pelo Parlamento, em Fevereiro, após meses de contestação na rua, soldados russos assumiram o controlo efectivo da Crimeia.



Os comandantes das forças russas e ucrânianas na península da Crimeia chegaram este domingo a um acordo sobre o movimento de navios. A Rússia, que tinha bloqueado a entrada e saída de navios ucranianos (e o acesso às bases ucranianas), comprometeu-se a deixar de o fazer... mas só até sexta-feira 21 de Março. O anúncio do acordo foi feito pelo ministro da Defesa interino ucraniano, Igor Tenioukh.


O bloqueio estava a impedir o abastecimento que, pelo manos durante alguns dias, poderá ser retomado.

sábado, 15 de março de 2014

A contagem de votos do referendo da Crimeia será à porta fechada

Voluntários russos juntaram-se na praça Lenine, em Sinferopol
PAULO MOURA (em Sinferopol) 14/03/2014 - 20:18 (actualizado às 20:19)


Para não perturbar as pessoas com notícias de que a península estava a ser ocupada pelos russos, as televisões privadas ucranianas foram banidas. Os observadores internacionais não vão estar presentes. Nas mesas de voto, só estarão "pessoas de confianca".

O referendo foi organizado à pressa, para evitar as provocações, explicou o primeiro-ministro. “Quanto mais depressa, melhor”, disse ele ao PÚBLICO, durante a conferência de imprensa de ontem, quando colocado perante a hipótese de ter preparado a consulta com tempo e legalidade.

Quanto à presença de observadores internacionais ou organizações independentes, Sergei Aksionov disse não saber. “Esses pormenores, terá de perguntar nas comissões do parlamento”. Já para a questão das restrições e agressões a jornalistas tem uma explicação própria: “Só houve problemas com certos jornalistas que vieram lançar provocações sobre as milícias de auto-defesa. Nós queremos que todos os jornalistas possam fazer uma cobertura adequada do referendo”.

O director da comissão eleitoral, Michail Malichev, dissera que todos os jornalistas poderão ter acesso aos locais de voto, embora não durante a fase de contagem. Aí, será à porta fechada. Mas as acreditações para o evento ainda não foram emitidas. Registos por email foram solicitados para endereços diferentes, além de preenchimentos de fichas e outros papelinhos que eram sistematicamente perdidos pelas jovens jornalistas recém-transformadas em funcionárias em traje formal do novo Centro de Imprensa, que funcionou no Crim TV, o canal estatal onde um novo produtor leva todas as manhãs as notícias já escritas para serem lidas pelos pivots.

Aos canais privados ucranianos foi dito explicitamente que não poderiam cobrir o referendo. Além disso, para não haver riscos, os canais foram encerrados. Só lhes restam as emissões por cabo e satélite. O deputado Sergei Shuvainikov, um dos responsáveis pela organização do referendo, explicou-nos as razões da medida: “Esses canais andavam a dizer que a Crimeia estava ocupada pelos russos, que havia armas por todo o lado. Só tinham notícias negativas. Decidimos fechá-los, para que as pessoas se sintam em paz, e possam ir votar sem pressões”.

Quanto aos observadores internacionais, Shuvainikov garante que os convidou. “Enviámos convites para a Europa, EUA, ONU. Não responderam”. Questionado sobre a possibilidade de não ter havido tempo sequer para a volta do correio, o deputado admitiu que foram obrigados a encontrar um compromisso: “Por um lado precisávamos de mais tempo para organizar isto melhor. Por outro, era urgente avançar, antes que os fascistas de Kiev viessem por aí abaixo”.

"Eram provocadores”
Apesar da pressa, alguns observadores conseguiram chegar a tempo. Foi o caso de um grupo da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), que no entanto foi barrado na fronteira. “Não eram verdadeiros observadores, mas sim homens fardados, que só vinham recolher informações militares”, explica Shuvainikok. “Eram provocadores. Se tivessem vindo com roupa normal, teriam entrado”. Quanto ao representante do secretário-geral da ONU, que foi ameaçado na rua em Sinferopol e obrigado a fugir, isso deveu-se ao facto de “não ter pedido autorização ao governo e deputados para os contactos e as declarações que vinha fazer”.

Em suma, observadores não haverá nenhum. Excepto “organizações de activistas e os grupos de auto-defesa”. Os partidos não foram convidados, porque “isto não é uma eleição de partidos. Não tem nada a ver com política”.

Nas mesas de voto haverá “representantes da população”, pessoas comuns que puderam inscrever- se, nos últimos dias. “Mas não era qualquer pessoa na rua que podia dar o nome. Tinha de ser alguém de confiança, para evitar provocações”.

As equipas, constituidas pelos “activistas”, os elementos da “auto-defesa”, os representantes do Estado e os voluntários farão uma primeira contagem dos votos, à porta fechada. Elaborarão relatório, assinado por todos. Depois enviarão os boletins para o parlamento, onde será feita a contagem final, na presença apenas dos deputados.

Pelo menos 80% das pessoas votarão a favor da integração na Rússia, disse o primeiro-ministro e vários deputados, citando uma vaga sondagem, de que nunca precisaram a autoria nem a ficha técnica. O anunciado boicote da população tártara não é de levar a sério, disse Aksionov, porque, explicou, “O conselho dos tártaros (Majliss) não é representativo de toda a população tártara”.

E se a maioria da população não votar? Para o deputado Shubainikov, isso implicará a anulação do referendo, e a elaboração de um “novo plano”. Já o primeiro-ministro não é tão categórico. Não sabe o que fará nessa circunstância. Se a pergunta sobre a integração na Rússia não obtiver a maioria, aí sim, “será criada uma comissão para decidir o que fazer a seguir. Mas essa hipótese é absurda”.

Alerta máximo
As unidades de auto-defesa estarão em alerta máximo, durante a realização do referendo, entre as 8 da manhã e as 8 da noite, “para combater quaisquer provocações”. As bases militares ucranianas continuam cercadas por forças russas, que as obrigarão a entregar as armas até segunda-feira.

Apenas uma base parece não estar cercada. É o quartel da zona A4408, em Sebastopol. “Os russos estiveram cá, mas foram embora”, contou o soldado de sentinela. “Voltaram. Fizeram um ultimato: teríamos de entregar as armas dentro de uma hora. O nosso comandante recusou. Depois disseram que tínhamos um dia. Já fizeram cinco ultimatos”, disse o soldado, olhando apreensivo para os veículos militares russos que iam passando na rua em frente. “Nós gostaríamos de votar no referendo”, disse ainda. “Mas acho que não podemos. Os nossos nomes não constam das listas”

Há checkpoints em todas as estradas da península. Os mais rigorosos instalaram-se na zona da fronteira, que separa a Crimeia do resto da Ucrânia. Por aí é difícil passar. Até as equipas de jornalistas estrangeiros foram barradas, ou obrigadas a entregar todo o equipamento.

Em redor de Sebastopol há seis checkpoints, com um total de cerca de 300 homens. Num deles, na estrada que liga Sebastopol a Sinferopol, o comandante explicou que todos os que ali estão são voluntários. Ele próprio, Alec Galavai, de 48 anos, decidiu ir para ali quando soube que “os fascistas se preparavam para atacar a Crimeia”.

Alec foi oficial do exército em Kamchetka, no leste da Sibéria, hoje está reformado. Ofereceu-se como voluntário e constituiu uma equipa. Recorreu a organizações de cossacos em Sebastopol, que por sua vez chamaram os colegas cossacos da Rússia.

Sotnia Nicolai, 55 anos e uma estatura de gigante, é um deles. Veio da região russa do Don. “Os camaradas de Sebastopol convidaram-me”, diz. “Tudo pago, hotel de luxo, não estamos nada mal aqui”. A sua missão é revistar os carros em busca de armas. Até agora não encontrou nada.

O checkpoint tem vários veículos, uma tenda, um tanque coberto com panos. “É um tanque antigo, propriedade de um amigo meu que tem uma agência turística”, disse o comandante. “Pedi-lhe o tanque só para enfeitar. É para meter medo”. Como armas de fogo, o piquete tem só duas espingardas. Mas se for preciso chamam a polícia que usa armas automáticas. Todas as unidades de auto-defesa da região de Sebastopol são comandadas por um mesmo homem, chamado Alexei Michaelich Xalei, diz o comandante. “As unidades de Sinferopol estão sob o controlo pessoal por Aksionov.


Na tenda, um grupo de mulheres preparou sopa, sandes e vários petiscos para os voluntários. “Não nos conhecíamos, agora somos muito amigas. Já combinámos, todos os anos nesta data viremos aqui para comemorar a entrada da Crimeia na Rússia”, disse Znaida Raustava, servindo a todos, jornalistas incluídos, uma sopa Salanka.

As provações que aguardam a Ucrânia

Depois da revolução e dos mortos, os desafios do futuro
JORGE ALMEIDA FERNANDES   09/03/2014  - 08:04

 Após a proclamação da independência, em Dezembro de 1991, os ucranianos apostaram ser o “interface” entre a Rússia pós-soviética e a nova Europa saída da Guerra Fria, conjugando uma identidade europeia com os laços históricos e económicos que os ligam à Rússia. O lema passou a ser: “Dentro da Europa e perto da Rússia.” Os povos não escolhem a sua geografia nem os vizinhos.

Os desafios que agora se colocam à Ucrânia são desesperadamente mais difíceis do que destituir Viktor Ianukovich. Kiev conta com os ocidentais para travar Moscovo, pelo menos nos próximos tempos. Mas não confiam cegamente. Conhecem a fraqueza política da UE, sentem que os americanos estão longe e a Rússia mesmo ao lado. Levam a sério os discursos de Moscovo considerando a “perda” da Ucrânia como uma “ameaça à sua segurança nacional”, porque este é um sentimento largamente partilhado pelos russos. Sabem ainda que o projecto de uma união aduaneira, antecâmara da União Euro-asiática que integraria Kiev no espaço de influência russo, é a trave mestra da política de Vladimir Putin para restabelecer a “potência russa”. E não crêem que ele desista de interferir na Ucrânia.

Este não é o seu único problema. O mais urgente é a economia, à beira de um colapso total. O sistema político — a “democracia dos oligarcas” — está esgotado e bloqueará quaisquer reformas. O novo e frágil governo conseguiu uma pausa de estabilidade, atenuando as tensões entre o Leste e o Oeste do país. Perdida a Crimeia, a prioridade centra-se nas populações russófonas do Leste, onde é forte a influência de Moscovo. Aguarda-se, enfim, a simbólica assinatura do acordo de associação com a UE e a “injecção” de empréstimos internacionais para evitar a bancarrota.

Mas continuará em aberto uma questão chamada Ucrânia.

Rússia e Europa
O primeiro dado a ter em conta é a estratégia tradicional de controlo da Ucrânia pela Rússia. Estão na memória espectaculares acções punitivas como o corte do gás ou a “guerra alfandegária” imposta no ano passado para travar o acordo com a EU.
Estes são instrumentos de excepção. A norma era outra: manter uma “Ucrânia fraca”, com um elemento de “instabilidade controlada”, escreve Andrew Wilson, do Conselho Europeu de Relações Externas. A ajuda russa foi sempre para “manter o regime a flutuar”, reforçando a sua dependência.

Dois especialistas polacos, Wojciech Kononczuk e Tadeusz Olszanki, faziam em Janeiro a mesma análise: “Uma Ucrânia autoritária, corrupta, opaca e politicamente instável, incapaz de fazer as reformas estruturais de que desesperadamente necessita, é amelhor garantia de que o país ficará fora da órbita da UE — ou até na esfera de influência da Rússia.”

“Todas as alavancas da Rússia na Ucrânia foram inteiramente fabricadas por ucranianos”, confirmam Samuel Charap e Keith Darden, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres. “A eficácia da coerção económica [de Moscovo] não deve ser creditada à força russa; é antes o reflexo da completa falência da elite ucraniana para reformar a economia do país.”

A economista ucraniana Olga Shumylo-Rapiola explicou que a recusa da adesão à Parceria Oriental da UE, em Novembro, não se deveu apenas às pressões russas mas aos oligarcas: “Kiev não quer reformas.” Os grandes oligarcas, como Rinat Akhmetov e Dmitro Firtach, os principais financiadores do Partido das Regiões, de Ianukovich, hesitaram mas acabaram por recusar: não lhes interessava mudar o quadro legal dos negócios e, sobretudo, detestavam a palavra “transparência”. Nos índices mundiais da corrupção, a Ucrânia surge no 144o lugar — em 177.

A “atracção europeia” não se deve apenas a uma partilha de valores e a uma vontade de maior independência. A maioria dos ucranianos admira e inveja a recuperação económica da Polónia ou da República Checa. Mas a Ucrânia não fez as reformas do Leste europeu após a queda do comunismo.

Estas reformas não são as da crise do euro. Trata-se da reestruturação da economia e das suas regras — e será muito duro. Uma sondagem feita em 2013 dava resultados interessantes. A adesão à união aduaneira russa ou ao acordo de associação com a UE partiam o país ao meio: 37% para a primeira opção, 39 para segunda. O apoio à primeira opção era esmagador no Leste. A escolha da UE era muito alta na Ucrânia ocidental e central.

No Leste, não pesavam apenas os laços com a Rússia. As pessoas temiam que as reformas levassem ao desmantelamento de várias indústrias. A economia é fortemente subsidiada. “Não estamos contra a UE mas não podemos aceitar as condições que nos põem de cortes salariais e redução de postos de trabalho, combinados com uma alta dos preços”, dizia um trabalhador a um jornal.

Oligarcas
“É impossível compreender a Ucrânia moderna sem compreender a teia de dependências entre as elites políticas e o mundo dos negócios”, explica Wojciech Kononczuk. “A interacção entre os interesses dos oligarcas é o verdadeiro mecanismo que molda a política ucraniana.” Os oligarcas são, inclusivamente, mais relevantes na cena política do que os próprios políticos.

Não se limitam a financiar os partidos e políticos. A sua opinião é determinante na tomada de dicisões. “É difícil identificar uma força política importante que esteja interessada na ‘desoligarquização’ da Ucrânia e — o que é crucial — tenha instrumentos para levar a cabo tal mudança.”

O que se passou com a queda de Ianukovich é a melhor ilustração. Os oligarcas deixaram-no cair seus interesses. Rinat Akhmetov deu o exemplo, apelando à defesa da “integridade territorial da Ucrânia”. Escreveu: “A unidade da sociedade, do mundo dos negócios e das autoridades é a nossa força.”

Logo a seguir à ocupação da Crimeia, foi selada uma aliança entre o novo governo e os oligarcas. Não foi surpresa, foi uma viragem. Iulia Timochenko, acabada de sair da prisão, também ela antiga oligarca, foi o pivot da manobra. Telefonou aos bilionários. O governo, muito frágil, delegou imediatamente em grandes oligarcas o governo das regiões mais sensíveis, sobretudo no Leste. Foi uma manobra de antecipação para prevenir referendos regionais separatistas.

As instituições
A Ucrânia tem uma sociedade dinâmica e culta. Mas a economia está em ruínas e muito distantes da Europa estão as suas instituições. O actual governo é composto por políticos do “sistema”, fiéis aos antigos hábitos, e por bandos armados. A unidade das mais heteróclitas forças foi imposta por uma emergência nacional. Em breve se levantará a questão da legitimidade. Os ucranianos estão cansados da corrupção, do clientelismo e da ilegalidade que marcaram a era pós-soviética.

O movimento “Euro-Maidan” derrubou Ianukovich mas não fez uma reforma política. Sem uma economia viável e instituições funcionais, a Ucrânia permanecerá altamente vulnerável às interferências de Moscovo. Anunciam-se vários riscos. Um deles é a parlamentarização do regime por oposição ao autoritarismo de Ianukovich, o que ameaça paralisar o governo e a tomada de decisões numa fase crucial da sua história.


Por fim, uma má notícia para Putin: a ocupação da Crimeia mudará o mapa eleitoral ucraniano, em favor dos “ocidentalistas”. Resume um analista: “Se Crimeia sai da Ucrânia, a Ucrânia afasta-se mais da Rússia.”

A Guerra da Crimeia não vai ter lugar OPINIÃO


OPINIÃO
CARLOS GASPAR 01/03/2014-00:41

Melhor do que ninguém, as elites russas conhecem a sua história e não estão condenadas a repetir os erros do passado.

Presidente Vladimir Putin cometeu dois erros sérios em relação à Ucrânia e parece prestes a cometer um terceiro.

O primeiro erro crasso foi ter impedido o Presidente Viktor Ianukovich de assinar o Acordo de Associação com a União Europeia, na cimeira de Vilnius, em Novembro passado. Desde logo, esse acordo era crucial para inverter a crise económica e financeira e conter o clientelismo do regime presidencialista, sem pôr em causa nem o estatuto internacional da Ucrânia, nem as suas relações com Moscovo. Por outro lado, os acordos não significavam um compromisso definitivo de integração europeia e mesmo uma eventual adesão da Ucrânia à União Europeia, ao contrário da entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte, não implicaria a sua vinculação estratégica à aliança ocidental. Por último, as sondagens indicavam, pela primeira vez, uma clara maioria da opinião ucraniana a favor da adesão à União Europeia, enquanto os partidários da adesão periferia russófona oriental.

Retrospectivamente - ironia da história - é possível admitir que a assinatura dos acordos europeus, ao contrário das prebendas russas, teriam permitido um prolongamento do tempo de vida do regime de Viktor Ianukovich. Mas Putin, aparentemente, teve medo da União Europeia.

O segundo erro, partilhado com um certo número de dirigentes ocidentais, foi ter pensado que Ianukovich não só conseguia adiar o colapso financeiro da Ucrânia com as promessas da Rússia sobre a assistência financeira e a diminuição dos custos da energia, como ia prevalecer, se necessário pela força bruta, contra as manifestações da oposição que cercaram, literalmente, o regime presidencialista durante os longos meses do Inverno. A violência da guarda pretoriana de Ianukovich, que prendeu e assassinou livremente os opositores na Maidan e arredores, desfez o que restava da legitimidade do seu regime.

No momento decisivo, as forças armadas ucranianas recusaram intervir contra os manifestantes: a sociedade ucraniana estava reunida na Maidan para depor um regime sem sustentação interna. O próprio Partido das Regiões, maioritário no Sul e no Leste da Ucrânia, deixou cair Ianukovich. Completamente isolado, o Presidente fugiu de Kiev e, segundo as últimas indicações, está refugiado num sanatório do Kremlin.

O terceiro erro, o mais perigoso, é a multiplicação das provocações, desde a rejeição do regime de transição até à organização das manifestações separatistas na Crimeia, passando pela mobilização das forças armadas russas e a realização de exercícios militares nas fronteiras da Ucrânia. O método é conhecido: os discípulos do KGB desistiram da luta de classes e passaram a manipular divisões étnicas e linguísticas, criando conflitos permanentes, incluindo Estados.fantasma, como a Abkházia ou a Ossétia do Sul, no "estrangeiro próximo".

Mas a Ucrânia não é a Geórgia. A Ucrânia é um grande país, não é independente por acaso e as suas divisões internas, bem marcadas, só podem levar a uma fragmentação do Estado, se a Rússia apoiar, política e militarmente, os movimentos secessionistas na Crimeia. Nesse caso, o Presidente Putin estaria a violar os acordos de desnuclearização da Ucrânia que asseguram à Rússia o seu estatuto como único Estado nuclear sucessor da União Soviética. Com efeito, até à data, o Estado ucraniano foi a única potência relevante que aceitou, para o bem e para o mal, desistir do terceiro maior arsenal nuclear mundial, nos termos do Memorandum de Budapeste, em que os Estados Unidos, a Federação Russa e o Reino Unido se comprometem todos a respeitar "a independência e a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia".

Esses acordos são parte integrante da ordem do pós-Guerra Fria e a sua violação, no caso de uma intervenção da Rússia, não poderia ser aceite pelas outras duas potências nucleares sem pôr em causa ostatu quo internacional.

No dia 27 de Fevereiro de 1854, a Inglaterra e a França apresentaram à Rússia um ultimatum para cessar a ofensiva dos seus exércitos nos Principados Danubianos contra o Império Otomano. Sem resposta, as esquadras das potências ocidentais, que já estavam nos Estreitos, seguiram a caminho de Odessa e Sebastopol para iniciar a Guerra da Crimeia. No ano seguinte, a derrota do império czarista foi um momento de viragem na história da Rússia e nas suas relações com a Europa. Com efeito, a guerra revelou as vulnerabilidades profundas das suas instituições políticas, militares e sociais, e um novo czar, Alexandre II, pôde realizar as grandes reformas internas, incluindo a libertação dos servos, que tornaram possível a modernização da Rússia.

Melhor do que ninguém, as elites russas conhecem a sua história e não estão condenadas a repetir os erros do passado. A Guerra da Crimeia não vai ter lugar.


Acalmar Vladimir Putin deixa-me nervoso


OPINIÃO
MIGUEL GASPAR (http:// www.publico.pt/autor/miguel-gaspar)   13/03/2014 - 00:51

 O Ocidente ainda não percebeu que a realidade mudou. E para pior.

Na manhã da próxima segunda-feira, 17, quando o resultado do referendo na Crimeia for conhecido, os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus vão reunir-se em Bruxelas e terão de decidir se avançam ou não com sanções contra Moscovo. Antes do referendo - que não inclui nenhuma pergunta na qual permite aos habitantes da Crimeia votar a favor da ligação à Ucrânia aquela região do mar Negro já declarou a sua independência, que Moscovo já reconheceu.

Na manhã de dia 17, as tropas e as unidades navais ucranianas na Crimeia, que têm estado cercadas por tropas russas sem identificação, poderão ser consideradas forças estrangeiras pelos novos senhores de Simferopol, a capital da região separatista. O que irá acontecer a esses militares, agora que Kiev já declarou que não responderá pela força à anexação de uma parte do seu território? Irão render-se? Serão expulsos? Serão presos?

Talvez esteja a aproximar-se o momento em que os líderes da União Europeia não terão alternativa a reconhecerem o que está a acontecer no Leste da Europa. No princípio da crise ucraniana, a chanceler Angela Merkel disse ao Presidente Obama que o líder russo, Vladimir Putin, estava “fora da realidade”. Na verdade, o que está a acontecer é que o Ocidente ainda não reconheceu que a realidade mudou, e para pior. As tentativas para fazer “desescalar” a crise ou para conduzir Moscovo ao diálogo com Kiev e mais genericamente a ideia de que é preciso “acalmar” o Kremlin pertencem ao domínio da doce realidade política em que os europeus gostam de viver.

O problema é que a outra parte mudou as regras do jogo. Se a União Europeia e o Ocidente não o reconhecerem, nunca conseguirão montar uma estratégia adequada para enfrentar um conflito longo e desgastante, que no imediato estão a perder. Se o Ocidente não for capaz de derrotar Moscovo, pode dizer adeus à sua credibilidade internacional e à paz na Europa. E Putin terá feito em cacos a ordem internacional do pós-Guerra Fria. A diplomacia e a cooperação global serão substituídas pela força e pelas esferas de influência. O polícia global, os Estados Unidos, ficará confinado à sua esquadra local.

Há muito mais do que a Crimeia em jogo na Crimeia.
Mas o que quer então Vladimir Putin? A ex-secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, está entre os que comparam o pretexto da protecção dos russófonos para intervir militarmente ao nazismo. Esse padrão comum não é suficiente para dizer que Putin é como Hitler. Mas há outra comparação mais assustadora. Tal como na Alemanha nazi, a retórica da Rússia de Putin assenta na ideia da recuperação da grandeza de uma potência humilhada pela derrota - a União Soviética que perdeu a Guerra Fria. E não há nada de reactivo na política de Putin. Ele desencadeou a confrontação com a Ucrânia, impedindo-a de assinar o acordo com a União Europeia para forçar a sua integração na União Euroasiática, que é a pedra de toque da sua política externa. As fragilidades económicas e demográficas da Rússia poderão inviabilizar o êxito desta política no longo prazo, mas não vão impedir Putin de implementar esta estratégia.

Nada disto significa que estejamos a caminho de uma nova guerra fria. Isto significa, em primeiro lugar, que Vladimir Putin não tem medo nenhum do Ocidente. Ele compreendeu, por experiência própria, que, por trás da retórica dos direitos humanos e da condenação das políticas autoritárias de Moscovo, há uma passadeira vermelha estendida para lavar o dinheiro sujo dos milionários russos. E tem razão. A tibieza da resposta europeia ao que é uma anexação de facto da Crimeia e uma violação sem pudor das fronteiras ucranianas prova que Putin tem razão. Sim, ele pode fazer chantagem com o gás. Mas um estudo recente da Chatham House mostrava que hoje a Europa tem muito melhores condições para resistir a um boicote russo do que há cinco anos; e a Rússia precisa de vender o gás.

O que pode a Europa fazer? Em primeiro lugar, deixar de pensar no curto prazo - os negócios - e passar a pensar no médio e longo prazo - a política e as relações de poder, das quais dependem, em última análise, os negócios. Em segundo lugar, em conjunto, com Washington, montar uma estratégia consistente baseada em três pontos: apoiar a transição ucraniana, reconhecer a integridade das fronteiras da Ucrânia e fazer o necessário para obrigar a Rússia a fazer o mesmo. O que não é fácil, quando há um facto consumado na Crimeia. Ou mesmo sabendo que o novo poder ucraniano é frágil e permanece refém do poder dos oligarcas, que dominaram o país tanto no consulado de Iulia Timochenko como no de Viktor Ianukovich. No entanto, a resistência dos ucranianos à ameaça russa desencadeou a revolta da Maidan e pode levar a um reforço do sentimento de unidade nacional ucraniano. E é o direito dos ucranianos a serem uma pátria que deve estar à cabeça de todos cálculos políticos nesta crise. Essa coisa de acalmar Vladimir Putin é que nos devia deixar a todos muito nervosos. A mim pelo menos deixa.


Jornalista

Forças russas tomam o 11.º posto fronteiriço ucraniano

Barco russo ao largo da cidade de Sevastopol
REUTERS 09/03/2014 - 09:43
 Militares ucranianos não oferecem resistência.

As forças russas tomaram um posto fronteiriço a oeste, na Crimeia, este domingo, informou o porta-voz da guarda fronteiriça ucraniana, Oleh Slobodyan. Aprisionados no interior do edifício ficaram cerca de 30 pessoas, guardas e funcionários no local. Não há feridos a registar


A base de Chernomorskoye foi invadida por volta das 6h (4h em Portugal continental). As forças russas controlam agora 11 postos fronteiriços ucranianos, uma acção que começou há 11 dias. Os guardas ucranianos ficaram aprisionados em vários destes postos mas nunca ofereceram resistência.

Nasceu o novo Exército russo da Crimeia

“Hoje é um grande dia, um dia hiatórico”, disse o comandante do novo exército
REPORTAGEM
PAULO MOURA (Simferopol)  08/03/2014  -  15:32


Um grupo de cerca de 30 homens, com fardas novas, armas e um novo emblema bordado no braço, jurou este sábado defender a “República Autónoma da Crimeia”

O primeiro-ministro da auto-proclamada Crimeia russa, Sergei Aksionov, apresentou o Exército do novo país, declarando que se trata, a partir de agora, da única força militar legítima no território, com capacidade para garantir a estabilidade e a segurança de todos os cidadãos.

A cerimónia decorreu, com as possíveis pompa e circunstância , no parque Gagarin, em Simferopol. Quem chegou primeiro foi a milícia pró-russa, uns vinte homens armados de paus e escudos, que atravessaram a cidade gritando “Rússia! Rússia!”, passando sem reacção por várias manifestações contra a anexação da Crimeia pela Rússia.

Uma vez no parque, dispuseram-se em filas, circunscrevendo o espaço onde a cerimónia iria decorrer. Seria uma espécie de passagem de testemunho, das milícias populares e espontâneas de auto-defesa para as forças armadas oficiais da república.

Com uma escolta de rufias de calças sujas e casacos de cabedal gastos, entrou o primeiro-ministro. “Crimeia é Rússia!”, gritaram todos. Alguém preparou os microfones e uma mesa com vários documentos, coberta por uma toalha vermelha.

Por fim chegou o Exército. Cerca de 30 homens com fardas de camuflado verde, metralhadoras e um novo emblema bordado no braço, dizendo “República da Crimeia”. Via-se que as fardas eram novas em folha, impecavelmente limpas, embora se tenham esquecido de as passar a ferro.

O comandante deu um passo em frente e começou a empossar o novo corpo militar. “Esta é a primeira cerimónia do Exército da Crimeia”, diz ele. Este é o novo uniforme”. Uma banda de cinco músicos começou a tocar uma marcha. A seguir falou o novo chefe das Forças Armadas. “Olá defensores da Crimeia!”, começou. “Parabéns! Hoje é um grande dia, um dia histórico. Porque temos finalmente uma força de defesa da Crimeia”. Fez continência, marchou de um lado para o outro, deu algumas ordens militares, que mudaram de posição, com notória falta de treino. “Hoje é o dia internacional da mulher”, disse ainda o comandante, polindo desde já o carisma com um toque humanista e cultural. “E nós vamos defender as nossas mulheres e as nossas famílias”.

Gritou uma ordem com adequada virilidade castrense, e os novos soldados, muitos com mais de 50 anos de idade, alguns de barba por fazer, outros de grandes barrigas, deram voltas e meias-voltas, bateram pala, marcharam de um lado para o outro, desalinhados, empurrando-se, quase tropeçando nas botas.

A seguir o comandante chamou pelo nome cada um dos soldados, que se aproximava, assinava um documento e fazia o juramento, prometendo defender e proteger a “República Autónoma da Crimeia”, numa indicação de que o novo país terá o mesmo nome, embora integrado na Rússia. Quando todos tomaram posse, falou o primeiro-ministro.

“Tavaritch!” (camaradas), iniciou ele o discurso. “Vocês são os heróis da Crimeia. Graças a vocês, a Crimeia será uma terra segura e pacífica, livre dos provocadores. Há três meses que andamos a preparar isto. Agora posso garantir a todos que a Crimeia está segura e em paz”. Aplausos. A banda tocou o novo hino da Crimeia.

Interrogado sobre o destino dos militares ucranianos ainda sitiados nas bases da Crimeia, Aksionov disse ao PÚBLICO: “Os militares que estão nas bases têm agora duas opções: ou se tornam soldados do Exército russo da Crimeia, ou podem ir embora. As portas estarão abertas, podem sair e ir para a Ucrânia. Ninguém os vai impedir. Não queremos agredir ninguém nem lutar”. E à pergunta “Os soldados russos irão sair da península, agora que a Crimeia tem um novo Exército?, o primeiro-ministro respondeu: “Os soldados russos sempre estiveram aqui, e vão continuar a estar”.

Dando mostras de magnanimidade, numa atitude de estadista, Aksionov disse que todos os grupos étnicos ou ideológicos têm lugar na nova Crimeia. “Todos os que queiram viver na Crimeia e defendê-la serão recebidos de braços abertos”. Explicou que todo o estado está organizado, embora os organismos só tomem posse formalmente depois do referendo, para o qual “serão convidados observadores, a imprensa, etc”.


Sobre o problema da legitimidade do seu próprio governo, Aksionov não pestanejou: “Sou sensível a todas as questões de legalidade. Mas quem fecha os olhos às ilegalidades ocorridas em Kiev, não venha para aqui fazer críticas hipócritas. Nem as quero ouvir”.