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sábado, 15 de março de 2014

Ucrânia acusa Rússia de provocar tiroteio que matou duas pessoas em Kharkov na véspera do referendo

Manifestação pró-Russa, há dias, em Kharkov REUTERS
 REUTERS 15/03/2014 - 10:43 (actualizado às 11:15)


Dois homens de 20 e 31 anos foram mortos a tiro ao final da noite de sexta-feira durante confrontos entre manifestantes pró-Rússia e nacionalistas ucranianos.

As autoridades ucranianas acusaram este sábado a Rússia de provocar um tiroteio durante a noite, no qual duas pessoas morreram na cidade de Kharkov, a segunda maior da Ucrânia, e temem que Moscovo use a violência contra pessoas de origem russa para justificar uma invasão.

Na véspera do referendo da Crimeia, o ministro do Interior ucraniano disse que a polícia deteve cerca de 30 pessoas envolvidas em ambos os lados do conflito depois de dois homens, de 20 e 31 anos, terem sido mortos ao final da noite de sexta-feira quando manifestantes pró-Rússia lutaram com rivais perto de um gabinete de um grupo nacionalista ucraniano.
Ambos os grupos usaram armas de fogo, disse o ministro Arsen Avakov. Moscovo, cujas tropas ocuparam a península ucraniana da Crimeia sob o fundamento de que a maioria de cidadãos de origem russa ali residente teme as novas autoridades de Kiev, a capital ucraniana, disse estar preparada para intervir para proteger os russófonos noutros locais da Ucrânia.

Um dia depois de confrontos fatais entre manifestantes rivais em Donetsk, outra cidade maioritariamente de falantes de russo, Avakov e o governador de Kharkov acusaram os activistas russos de fomentarem a violência e apelaram aos cidadãos para que não ripostassem. “Os incidentes desta noite foram uma provocação bem planeada por activistas pró-russos”, disse o governador Ihor Baluta. Segundo Baluta, um grupo de pessoas numa carrinha tinham provocado deliberadamente uma disputa com um grupo que mantinha uma manifestação pró-russa antes de se afastarem do local. Os activistas pró-russos seguiram-nos e encontraram a carrinha estacionada junto a um edifício onde ficam gabinetes de grupos nacionalistas ucranianos e os confrontos começaram.

“Provocadores a contrato de um país vizinho estão a criar provocações profissionais”, disse Avakov, que acusou aliados do Presidente deposto Viktor Ianukovich, apoiado por Moscovo, de financiar a instabilidade no Leste da Ucrânia com o auxílio de “forças extremistas russas”. No Facebook, lançou um apelo aos ucranianos: “Não os deixem manipular-vos. Parem esta hesteria … isto não é um jogo de soldados de brincar - este é um conflito real e são vidas reais”.

Em Moscovo, um alto responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros encarregue de questões de direitos humanos, Konstantin Dolgov, escreveu no Twitter que a instabilidade em Kharkov, provocadas pessoas que descreveu como “militantes neo­fascistas” tem de ser acompanhada com maior atenção para “neutralizar e punir os extremistas descontrolados”.

O Ocidente, que prepara sanções económicas contra a Rússia na sequência do referendo convocado para domingo na Crimeia, para preparar uma anexação da península, tem afastado o retrato que a Rússia faz das novas autoridades de Kiev - fortemente influenciadas por nacionalistas ucranianos de extrema-direita que detêm alguns dos postos de poder.


Há duas semanas, uma manifestação em Kharkov causou dezenas de feridos quando grupos de russos étnicos entraram em confrontos com simpatizantes dos novos governantes.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Estão a chegar camiões cheios de soldados russos à Crimeia, diz polícia fronteiriça ucraniana

Soldados ucranianos na base militar de Bakchisaray
PÚBLICO e AGÊNCIAS  03/03/2014  - 08:06  (actualizado às 20:51)
Ianukovich escreveu uma carta a Putin pedindo-lhe que intervenha militarmente na Ucrânia.
A Marinha russa tinha dado um prazo para as forças ucranianas na Crimeia apresentarem a rendição

Tropas russas assumiram o controlo da posto fronteiriço junto ao ferry que faz a ligação entre a Cimeia e a Rússia e estão a trazer para o lado ucraniano camiões chieos de soldados russos, alertou a polícia de fronteiras ucraniana, citada pela Reuters. O embaixador da Rússia nas Nações Unidas anunciou no Conselho de Segurança que o Presidente deposto da Ucrânia enviou uma carta a Vladimir Putin pedindo-lhe que use a força militar no seu país.

Vitaly Churkin fez o anúncio numa reunião do Conselho de Segurança, em Nova Iorque, convocada a pedido da Rússia. É de notar que Viktor Ianukovich. na conferência de imprensa que deu já Rússia a 28 de Fevereiro, em Rostov-on-Don, garantiu que "nunca teve intenção de pedir uma intervencão militar à Rússia" e também que não iria aceitar “qualquer tentativa para uma intervenção que quebre a integridade territorial do país”. Mas também se mostrava "surpreendido" por ainda não se ter encontrado pessoalmente com o Presidente russo.

Agora, na carta que terá enviado a Putin e que Churkin revelou nas Nações Unidas, Ianukovich apela à intervenção russa para restaurar a lei e a ordem. "Como representante legitimamente eleito, considero que os acontecimentos em Kiev deixaram a Ucrânia à beira de uma guerra civil. Os direitos dos habitantes da Crimeia estão a ser postos em causa.
Há actos de violência e de terrorismo, cometidos sob a influência de países Ocidentais".

A Marinha russa tinha dado um prazo para as forças ucranianas na Crimeia apresentarem a rendição. Naquela que é a declaração mais frontal até agora, o comandante da Frota Russa no Mar Negro exigiu a obediência das forças que ainda são fiéis a Kiev até às 5 horas da manhã (3I1 em Portugal). Se tal não acontecer, "será lançado um assalto real contra às unidades e secções das forças armadas ucranianas em toda a Crimeia", segundo Aleksandr Vitko, citado pela Interfax-Ucrânia.

O Ministério da Defesa veio negar que tenha lançado o ultimato, através do porta-voz que, em declarações ao jornal russo Vedomosti, considerou a notícia "um absurdo total". No entanto, vários correspondentes têm referido que, nos últimos dias, as forças russas já tinham lançado ultimatos às bases por onde passaram, e mesmo quando os prazos não foram respeitados nada aconteceu. Jornalistas que estiveram perto dos navios ucranianos esta segunda-feira afirmam terem ouvido o ultimato através de megafones.

O site da estação britânica noticiou que duas grandes bases militares ucranianas estão cercadas por tropas russas e grupos militarizados locais, que exigem aos soldados ucranianos que cortem com as autoridades de Kiev e passem a obedecer ao governo local, pró-russo.

As forças militares russas recém-chegadas à Crimeia são em número muito superior ao dispositivo armado ucraniano, segundo a estação. Guardas fronteiriços ucranianos acusaram na manhã desta segunda-feira a Rússia de bloquear as telecomunicações em partes da Crimeia e denunciaram movimentos navais no Mar Negro, junto a Sebastopol. Alertaram também para a presença de veículos armados no canal de Kerc, no leste. Mais tarde, o ministro da Defesa acusou aviões russos de terem violado o espaço aéreo ucraniano sobre Mar Negro, durante a noite de domingo.

"A situação na Crimeia continua tensa e a presença militar russa está a aumentar", afirmou o Presidente interino ucraniano, Oleksander Turchinov. "Peço à liderança da Rússia: parem as acções provocatórias, a agressão e a pirataria. Isto é um crime e irão pagar por ele", disse Turchinov, que confirmou que a situação noutras regiões do Leste e Sul do país está "difícil".

O primeiro-ministro ucraniano Arseny Yatseniuk disse entretanto que o seu país não desistirá da Crimeia. “Ninguém vai dar a Crimeia a ninguém”, disse. Um conflito na Ucrânia destruirá - acrescentou - a estabilidade regional. No domingo, o Presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov, pôs o exército em alerta máximo e ordenou a mobilização de reservistas.

Pelo mesmo tom alinhou Iulia Timochenko, uma das principais líderes da oposição que depôs Viktor Ianukovich e provável candidata presidencial. Em entrevista à CNN, Timochenko apelou "aos líderes mundiais para usar todas as possibilidades para impedir a Ucrânia de perder a Crimeia". "Se os instrumentos da diplomacia não funcionam, se todas os instrumentos negociais não funcionam, e se as relações pessoais com Putin não funcionam, então o mundo tem de aplicar vias mais fortes", afirmou.

A BBC noticiou que não foram disparados tiros mas que a Crimeia está, de facto, sob controlo russo. O chefe da diplomacia do Governo de Londres, William Hague, disse também que tropas russas têm já o controlo operacional da região e qualificou a situação na Ucrânia como a maior crise já vivida pela Europa no século XXI.

Centenas de pró-russos tomaram de assalto o edifício da administração regional de Donetsk, no Leste da Ucrânia, segundo a AFP. Antes, manifestantes concentrados no local tinham apelado aos funcionários para ignorarem a nomeação do novo governador nomeado pelo poder interino de Kiev, noticiou a agência Itar-Tass. No edifício está há três dias hasteada a bandeira russa.

A Rússia e a China estão de acordo sobre a situação na Ucrânia - informou o Governo de Moscovo, numa altura em há informações de que forças russas assumiram o controlo da Crimeia.

O acordo de pontos de vista entre a Rússia e a China foi anunciado num comunicado do ministério russo dos Negócios Estrangeiros, segundo o qual, numa conversa telefónica entre os ministros Serguei Lavrov e Wang Yi foi sublinhada a “grande concordância de pontos de vista da Rússia e da China sobre a situação”.

O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, reafirmou entretanto a defesa da legitimidade do destituído Presidente Viktor Ianukovich e o não reconhecimento das novas autoridades de Kiev. E o ministro das Finanças, Anton Siluanov, disse que o governo de Moscovo tomará uma decisão sobre ajuda financeira à Crimeia até ao fim desta segunda-feira.

Numa entrevista à BBC, William Hague manifestou preocupação pela “possibilidade de movimentações russas noutras partes da Ucrânia”. O responsável pelos Negócios Estrangeiros do Reino Unido disse que apesar da Rússia ter legalmente direito a manter tropas na região, o governo de Moscovo deve ordenar o seu regresso às casernas.

Moscovo considera declaração de Kerry "inadmissíveis"

Fontes governamentais dos Estados Unidos, que têm mantido contactos com os seus aliados, fizeram saber que Washington privilegia o recurso a pressões económicas a eventuais medidas de carácter militar. Mas as palavras que o secretário de Estado de Washington, John Kerry, proferiu no domingo suscitaram reacções de Lavrov, que vê nelas ameaças à Rússia que são "inadmissíveis". Kerry qualificou o que está a acontecer na Ucrânia e a autorização do Parlamento de Moscovo ao Presidente, Vladimir Putin, para enviar tropas para a Ucrânia como um “incrível acto de agressão”.

"Para além de não ter a cimeira do G8, o Presidente Vladimir Putin pode não ficar sequer no seio do G8", avisou John Kerry. "Se quer ser um país do G8, tem de se comportar como um país do G8". O secretário de Estado vai a Kiev na terça-feira para se encontrar com o novo governo interino.

O Presidente Barack Obama falou no domingo com os chefes de governo do Reino Unido, David Cameron, e da Alemanha, Angela Merkel, e com o Presidente da Polónia, Bronislaw Komorowski. Todos concordaram que o "diálogo entre a Rússia e a Ucrânia deve começar de imediato, se necessário com mediação internacional". Os aliados manifestaram "grave preocupação" pelo que está a acontecer na Ucrânia e expressaram o seu apoio às autoridades interinas de Kiev e aos seus esforços para realizarem eleições em Maio - anunciou a Casa Branca. Prometerem igualmente apoio financeiro à estabilização económica do país.

Serguei Lavrov refeitou também esta segunda-feira, uma reunião sobre direitos humanos em Genebra, as acusações de que a Rússia está a agredir a Ucrânia e acusou o Ocidente de colocar o seu “calculismo geopolítico” acima do destino do povo ucraniano.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, decidiu enviar à Ucrânia o seu número dois, Jan Eliasson, para avaliar a situação no terreno. E declarou que vai pedir a Lavrov para a Rússia se abster de actos ou retórica que contribuam para aumentar a escalada da crise e procurar o diálogo com as novas autoridades de Kiev.

O primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, apelou a uma solução política e diplomática que salvaguarde a soberania e a integridade territorial do país e condenou a escalada militar na Crimeia. A posição do chefe do executivo português foi transmitida aos jornalistas no final de uma reunião com o primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel. "A situação na Ucrânia merece a maior atenção. Os acontecimentos recentes na Crimeia colocam em causa a manutenção da paz e segurança internacional. Portugal continua a acreditar na necessidade de se encontrar uma solução política e diplomática que preserve a unidade da integridade territorial e da soberania da Ucrânia", declarou.


Uma equipa do Fundo Monetário Internacional (FMI) deve chegar terça-feira à Ucrânia para discutir um plano de ajuda às novas autoridades que pediram assistência financeira à instituição. A missão deve fica no país até dia 14 de Março e "discutirá as reformas que possam servir de base a um programa de ajuda".

Rússia responde à ameaça de sanções com um sonoro “Crimeia, estamos contigo”

ALEXANDRE MARTINS  07/03/2014 – 12:01 (actualizado às 18:11)

 Observadores  da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa continuam a ser impedidos de entrar na península

A diplomacia raramente produz resultados de um dia para o outro, e poucos esperavam que a crise na Crimeia fosse ultrapassada horas depois de a União Europeia e os Estados Unidos terem apertado o cerco económico à Rússia. Por agora, as primeiras sanções norte-americanas e a ameaça de “ graves consequências económicas ” por parte dos líderes europeus não desviaram Moscovo do seu plano nem um milímetro: se o resultado do referendo marcado para o próximo fim-de-semana na Crimeia for favorável à integração na Rússia, a Rússia “respeitará a histórica decisão da Crimeia”.

A garantia foi dada olhos nos olhos aos representantes do parlamento regional da Crimeia que se deslocaram nesta sexta-feira a Moscovo, onde se reuniram com deputados de ambas as câmaras do parlamento russo. O presidente da câmara baixa (Duma), Sergei Narishkin, e a presidente da câmara alta (Conselho da Federação), Valentina Matvienko, fizeram das palavras de cada um deles as palavras do outro. Depois de Narishkin garantir que a Rússia respeitará o resultado do referendo, Matvienko garantiu que a Rússia “apoiará a decisão do povo da Crimeia”.

No próximo dia 16, os cidadãos da península que está no centro do conflito entre a Rússia e a Ucrânia - e que é, mais do que isso, uma luta pela influência política e económica que opõe Bruxelas e Washington a Moscovo - vão decidir se preferem manter-se integrados no território ucraniano, com uma autonomia reforçada, ou se querem mudar-se para a Federação Russa. O problema é que a consulta popular, que foi convocada por um parlamento regional tomado de assalto por meia centena de homens armados em finais de Fevereiro, não tem qualquer validade legal aos olhos da União Europeia, dos Estados Unidos e das novas autoridades da Ucrânia, que chegaram ao poder depois dos confrontos sangrentos em Kiev e da deposição do Presidente Viktor Ianukovich.

O Presidente francês, François Hollande, repetiu ontem o que outros líderes europeus, e o seu homólogo norte-americano, já tinham afirmado: “A integridade territorial e a soberania da Ucrânia não são negociáveis.” Numa reunião no Palácio do Eliseu com o líder do partido ucraniano UDAR, Vitali Klitschko, e com o deputado independente Petro Poroshenko, Hollande declarou que a União Europeia só aceitará um referendo na Crimeia se for o governo da Ucrânia a organizá-lo.

Enquanto Hollande falava aos jornalistas ao lado de dois protagonistas da revolução no poder da Ucrânia, a 2500 quilómetros de distância, no coração de Moscovo, mais de 65.000 pessoas recebiam os deputados do parlamento regional da Crimeia com cartazes e palavras de ordem de apoio à anexação da península pela Rússia.

Ao som de músicas de teor nacionalista interpretadas pelo cantor pop russo Oleg Gazmanov, milhares de manifestantes agitavam cartazes com frases como “Crimeia, estamos contigo" e "A Crimeia é território russo".

As manifestações a favor das políticas do Kremlin, escreve a agência AFP, “são normalmente orquestradas pelas autoridades, que levam os funcionários para os locais de protesto em autocarros”. O correspondente da BBC em Moscovo, Steve Rosenberg, fez a mesma interpretação, ao partilhar uma fotografia no Twitter com a frase “Eles cantam ‘Moscovo! Rússia! Crimeia!’ à passagem pelo Kremlin, nesta manifestação organizada pelas autoridades”.


O Kremlin continua a dizer que as forças russas na Crimeia limitam-se a proteger as suas instalações militares, mas ontem foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, quem explicou por que é que os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) continuam a ser impedidos de entrar na península ucraniana. O grupo de 43 representantes de 23 países da OSCE foi barrado por duas vezes por homens armados e não identificados porque a organização não esperou por um convite das autoridades pró-russas da Crimeia, “sem levar em conta os conselhos e as recomendações da Rússia”. “As estruturas executivas e vários Estados-membros da OSCE agiram de acordo com as piores tradições de dois pesos e duas medidas em relação à situação na Ucrânia”, acusou o ministro russo.

O poderio militar da Rússia e da Ucrânia

Comissão Europeia apresenta estratégia para vigiar e punir ameaças ao Estado de direito na União

 
PAULO PENA 12/03/2014 - 15:03
Durão Barroso implementa o relatório do eurodeputado Rui Tavares sobre a Hungria e propõe formas de lidar com “ameaças sistemáticas” aos pilares da democracia e separação de poderes.

A Comissão Europeia enviou, nesta terça-feira, ao Parlamento Europeu e ao Conselho um documento em que assume uma “nova estratégia da União para “nova estratégia da União para fortalecer o Estado de Direito”. É a primeira vez que a Comissão reconhece a existência de “problemas sistemáticos” e não apenas pontuais, de violação das regras pelas quais se regem as democracias europeias.

Um dos principais momentos para esta alteração da política da Comissão deu-se com a aprovação, pelo Parlamento Europeu, em 2013, de um relatório sobre a situação na Hungria. O relator foi o português Rui Tavares, que avaliou as diversas mudanças que o Governo do primeiro-ministro Viktor Orban introduziu na Constituição e funcionamento do regime húngaro. Entre elas estavam leis pontuais, como a que criminaliza os sem-abrigo, ou as alterações à legislação eleitoral, alterações constitucionais, como a que extingue o Supremo Tribunal, e mudanças no ordenamento jurídico, como a eleição dos reguladores e as funções do Tribunal Constitucional.

A União Europeia sempre tratara estes assuntos caso a caso, e apenas aqueles que tinham uma relação directa com o “acervo comunitário". E para cada um deles, os Estados-membros (neste caso a Hungria) apresentavam justificações e, até, semelhanças com as leis de outros Estados-membros. O que o relatório aprovado introduziu, de novo, foi uma leitura “sistemática” destes casos. Ou seja, que cada uma destas alterações não era apenas grave, por si só, mas colocava em risco o funcionamento do Estado de direito como um todo, “sistematicamente”.

É isso que esta posição da Comissão vem, agora, reconhecer. E resolver: “Esta estratégia será aplicada quando os mecanismos internos de salvaguarda se mostrarem incapazes de efectivamente combater as ameaças.” A Comissão assume, assim, um papel que lhe estava destinado no papel (“guardiã dos Tratados") mas que estava por preencher, na prática.

Ao seu dispor, o executivo de Barroso tem uma vasta gama de recursos, que vão do soft power à chamada “bomba atómica”, o artigo 7.0 dos Tratados, que permite colocar um Estado-membro de “quarentena”, sem direito de voto e sem ajudas financeiras.

Neste documento, a Comissão alerta que está, de facto, a criar condições para usar, na prática, a “bomba atómica”. E rodeia-se de algumas das sugestões lançadas pelo relatório de Rui Tavares, como a articulação com a Comissão de Veneza e a inédita integração da rede de Tribunais dos Estados-Membros no lote de instituições comunitárias.


O eurodeputado português adianta ao PÚBLICO que estes “são passos cruciais e na direcção certa". A Comissão "parece entender que a resposta está na constitucionalização do Estado de direito à escala europeia e na promoção de uma união de valores democráticos e direitos fundamentais. É escandalosa a assimetria entre a atenção que a Comissão tem dado aos orçamentos dos Estados-membros por comparação à sua passividade na defesa dos valores fundamentais da União como o respeito pelo Estado de direito, a democracia e os direitos humanos", avalia Tavares. "Após muito esforço do Parlamento Europeu, no meu relatório, e não só, essa assimetria começa a ser corrigida", destaca o eurodeputado.

OCDE suspende adesão da Rússia e reforça laços com a Ucrânia

O Presidente russo, Vladimir Putin, espera há sete anos pela adesão da Rússia à OCDE
ALEXANDRE MARTINS  13/03/2014 – 12:52

Processo, iniciado em 2007, foi adiado por causa da crise da Crimeia

Os Estados-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), suspenderam o processo de adesão da Rússia e aprovaram um reforço das relações com a Ucrânia, numa decisão rara que resulta das pressões da União Europeia e dos Estados Unidos para isolar Moscovo por causa do conflito na Crimeia.

Num comunicado publicado nesta quinta-feira, a OCDE avança que "as actividades relacionadas com o processo de adesão da Federação Russa foram adiadas", sem avançar qualquer motivo ou sugestão de data para o regresso às negociações.

Mas não será difícil adivinhar o motivo - para além da suspensão do processo de adesão da Rússia, a OCDE anuncia, no mesmo comunicado, a intenção de reforçar os lacos com as novas autoridades da Ucrânia.

"Os Estados-membros acordaram também que a OCDE deve responder positivamente ao pedido da Ucrânia para fortalecer a cooperação existente entre a Ucrânia e a OCDE, para que o país possa tirar partido dos conhecimentos da OCDE, enquanto lida com as mudanças nas políticas públicas que tem pela frente", lê-se no comunicado.

O anúncio surge um mês depois de o secretário-geral da OCDE, o mexicano Ángel Gurría, ter afirmado, durante uma visita a Moscovo, que as condições para a adesão da Rússia à OCDE estavam "suficientemente amadurecidas", apesar de salientar que era ainda necessário que o país procedesse a "algumas alterações legislativas".

Num sinal da importância para a economia russa de uma adesão à OCDE, o ministro do Desenvolvimento Económico do país, Alexei Uliukaev, descreveu a organização como "uma boa referência para os investidores", durante uma visita de trabalho aos Estados Unidos, há apenas três semanas.

"A participação [da Rússia] na OCDE significa que fazemos parte de uma família global que discute e resolve os problemas globais que todos enfrentamos.
Mas também há um aspecto prático, porque a integração na OCDE é uma boa referência para os investidores. Ser-se membro da OCDE é um bom sinal para os investidores e torna mais fáceis as decisões sobre investimentos", disse Alexei Uliukaev numa entrevista ao site da rádio Voz da Rússia.


O processo de adesão da Rússia à OCDE arrasta-se há sete anos e já mereceu comentários de desagrado por parte do Presidente russo, Vladimir Putin, em várias ocasiões. O último surgiu no mês passado, aquando da visita do secretário-geral da organização a Moscovo. "Espero que isto se faça algum dia", disse na altura Putin, citado pela agência Reuters.

Obama: Intervenção russa é “clara violação da soberania da Ucrânia”

Obama disse, ainda antes dos desenvolvimentos deste sábado, que poderia faltar à próxima reunião do G8
PÚBLICO  01/03/2014  - 18:16  (actualizado às 23:37)
Ocidente preocupado com possível conflito na Ucrânia. Obama apelou à via pacífica e Putin garantiu que se a violência persistir, Moscovo “reserva o direito de proteger os cidadãos russos”

Durante uma conversa telefónica com Vladimir Putin. Barack Obama afirmou que a intervenção na Ucrânia é "uma clara violação da soberania e da integridade territorial da Ucrânia" e lembrou que constitui "uma quebra do direito internacional". O Presidente dos EUA pediu uma "diminuição das tensões" através do regresso das forças militares às bases na Crimeia e garantiu que reconhece "os laços culturais e históricos profundos" que ligam os dois países.

"Se a Rússia tem preocupações acerca do tratamento das etnias russas e das populações de minorias na Ucrânia, a forma apropriada para as resolver é pacificamente", disse Obama ao Presidente russo, segundo uma nota da Casa Branca.

Putin alertou para "as acções provocatórias e criminosas dos ultra-nacionalistas, encorajadas pelas actuais autoridades em Kiev", e afirmou que "existem ameaças reais à vida e integridade física dos cidadãos e compatriotas russos no território ucraniano". "Se a violência se espalhar nas regiões do Leste da Ucrânia e na Crimeia, a Rússia reserva o direito de proteger a vida dos falantes de russo", afirmou Putin, de acordo com o Kremlin.

Já depois de conhecido o pedido para envio de tropas para a Ucrânia feito ao Parlamento russo pelo Presidente, Vladimir Putin, o Reino Unido pediu uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a segunda em dois dias, a realizar na noite de sábado. E os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia marcaram encontro para segunda-feira em Bruxelas. Citado pela agência ucraniana Interfax, Andry Deschitsia, ministro interino dos Negócios Estrangeiros do novo poder em Kiev, anunciou na tarde deste sábado que também a NATO, Aliança Atlântica, marcou uma reunião especial sobre a Ucrânia para segunda-feira.

Na noite de sexta-feira, dia em que a Rússia confirmou a acção militar na Crimeia, Obama manifestara-se “profundamente inquieto” e declarou que “qualquer violação da integridade territorial e soberania da Ucrânia seria profundamente desestabilizadora, e representaria uma séria interferência em matérias que devem ser decididas pela população ucraniana”. O Presidente dos Estados Unidos disse que as acções militares russas comportam um risco de desestabilização regional que mereceria “a condenação da comunidade internacional”.

Obama reuniu durante a tarde de sábado com a sua equipa de segurança nacional para avaliar as opções disponíveis para resolver a crise na Ucrânia, segundo uma responsável da Casa Branca, citada pela AFP. O secretário de Estado da Defesa, Chuck Hagel, esteve em contacto com o seu homólogo russo, Sergei Lavrov.

“Inquietação” foi uma palavra repetida por outros líderes ocidentais, caso da chanceler alemã, Angela Merkel, segundo a qual “tudo deve ser feito para preservar a integridade territorial” da Ucrânia. A chefe do governo de Berlim confirmou que tanto ela como “muitos outros” dirigentes ocidentais têm estado em contacto com Putin e com os novos responsáveis do governo de Kiev.

Também o Reino Unido e a França e manifestaram a sua preocupação. O chefe da diplomacia britânica, William Hague - que tem prevista para este domingo uma deslocação à Ucrânia para contactos com a nova liderança - disse que a autorização do Parlamento russo para uma acção militar é “uma ameaça potencialmente grave para a soberania da Ucrânia”.

Antes disso, no seu Twitter, Hague revelou ter falado com o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, sobre a necessidade e acção diplomática internacional, e com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, apelando a uma redução da tensão e ao respeito pela soberania ucraniana.

Numa declaração citada pela Reuters, Steinmeier referiu-se à situação como perigosa e pediu à Rússia para clarificar as suas intenções. “Quem agora puser mais petróleo no fogo, com palavras ou acções, está conscientemente à procura de uma escalada na situação”, disse. O ministro alemão sublinhou também a necessidade de uma posição comum da União Europeia sobre o problema ucraniano. A chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, pediu à Rússia para renunciar ao envio de tropas e anunciou que os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 28 vão reunir-se na segunda-feira para discutir a situação na Ucrânia.

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, defendeu que "os desafios da Crimeia devem ser abordados num quadro de respeito da unidade e soberania ucranianas".

O primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, sublinharam igualmente, por palavras mais ou menos iguais, a necessidade de “tudo fazer para que a integridade territorial do país seja totalmente respeitada”. Na mesma linha, o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, escreveu no Twitter que “a Rússia deve respeitar a soberania, integridade territorial e as fronteiras da Ucrânia”.


Outra das reacções veio do ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Cari Bildt, que no seu Twitter classificou a intervenção russa na Ucrânia como “claramente contra a lei internacional e os princípios da segurança europeia”.

Merkel assume posição de força e ameaça Putin com “enormes prejuízos políticos e económicos”

A chanceler alemã afirma que a eventual anexação da Crimeia irá mudar as relações entre a Rússia e a União Europeia
ALEXANDRE MARTINS  13/03/2014 – 20:32


Primeiro-ministro ucraniano participa em reunião do Conselho de Segurança. John Kerry e Sergei Lavrov reúnem-se sexta-feira em Londres

Agora que a realização do referendo de domingo na Crimeia adquiriu os contornos de um dado adquirido, de que já poucos duvidam com verdadeira convicção, as atenções da União Europeia e dos Estados Unidos voltam-se para segunda-feira, sustentadas em discursos cada vez mais duros e no reforço do cerco à economia russa, mas também na abertura de uma última janela para evitar o que o Ocidente diz estar em jogo: o possível regresso aos tempos da Guerra Fria.

Quem está a fazer uma forte investida diplomática nos Estados Unidos é o primeiro-ministro do governo provisório ucraniano, Arseni Iatseniuk, que esta quinta-feira participa numa reunião aberta ao público do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, depois na véspera se ter encontrado com o Presidente Barack Obama e outros líderes políticos norte-americanos. "Acreditamos que ainda temos uma oportunidade de resolver este conflito de maneira pacífica", afirmou Iatseniuk.

Em termos diplomáticos, há muito ainda posto em jogo na reunião marcada para sexta-feira, em Londres, entre o secretário de Estado norte-americano, John Kerrv, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. Os dois conversaram nesta quinta-feira ao telefone para preparar este encontro, que poderá ser também uma última oportunidade para aproximar as posições sobre a crise na Crimeia.

No entanto, o comunicado do Departamento de Estado norte-americano sobre a reunião deixa perceber que será difícil registar-se algo parecido com um compromisso, mas significa que Washington está a pôr no terreno todas as armas que admite usar nesta fase: a abertura ao diálogo (partilhada com Moscovo), a ameaça de sanções e o reforço de exercícios militares nas proximidades da Rússia, no quadro da NATO.

Em Londres, "o secretário [de Estado, John Kerry] vai reafirmar o seu forte apoio à soberania, à unidade e à integridade territorial da Ucrânia, e ao direito do povo ucraniano de escolher o seu próprio futuro, sem a interferência externa ou as provocações da Rússia”, lê-se no comunicado do Departamento de Estado norte-americano.

Nesta quinta-feira, perante o Congresso norte-americano, Kerry tentou uma abordagem mais conciliatória, afirmando que irá propor "algumas escolhas" a Lavrov, "na esperança de se encontrar uma forma de acalmar a situação e de respeitar a integridade e a soberania do Estado da Ucrânia".

Kerry reconheceu que o que se passa na Crimeia poderá ainda entravar a cooperação diplomática entre os EUA e a Rússia sobre a guerra na Síria, nomeadamente ao nível da entrega para destruição das armas químicas do regime de Bashar Al-Assad.
"Esperamos que não, mas é evidente que isso é uma possibilidade", reconheceu na audição a que compareceu numa comissão do Senado. "Sublinhei isso mesmo a Lavrov, e ele está consciente dessa questão."

A esperança de Washington, segundo o próprio John Kerry, é que o Parlamento russo não tome nenhuma medida mesmo que o referendo se realize - e mesmo que a maioria vote a favor do processo de integração da Crimeia na Federação Russa. "Podem fazer isso [anexar a Crimeia], mas também podem organizar o referendo, aceitar o resultado e não levar o assunto à Duma [câmara baixa do Parlamento russo] para fazer as outras coisas", disse John Kerry.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, William Hague, fez questão de sublinhar o alinhamento de posições com os Estados Unidos, numa mensagem publicada no Twitter. que foi partilhada na mesma rede social por Kerry:
"Conversa telefónica proveitosa com o secretário John Kerry antes das conversações de amanhã [sexta-feira] em Londres. EUA e Reino Unido estão a trabalhar em conjunto.”

Merkel aumenta pressão
Mas o aviso mais contundente - e, por isso mesmo, mais surpreendente - partiu da chanceler alemã, Angela Merkel, que até há pouco tempo era vista como a porta-voz dos mais cautelosos em relação à resposta a dar a Moscovo.

Num discurso no Parlamento alemão, Merkel tratou de afastar quaisquer dúvidas sobre o seu posicionamento no conflito. Se Moscovo mantiver a sua actual estratégia - avisou a chanceler alemã -, "isso não irá apenas alterar a relação da União Europeia com a Rússia", mas irá também "causar enormes prejuízos à Rússia, em termos económicos e políticos".
Apesar de salientar que a eventual aplicação de sanções económicas duras à Rússia é algo que "ninguém deseja", Angela Merkel garantiu que a União Europeia e os Estados Unidos estão "prontos e determinados" a aprová-las, "se se revelarem inevitáveis". Para sublinhar a posição de força e o alinhamento com Washington, a chanceler alemã usou as mesmas palavras do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, para descrever as acções de Vladimir Putin em relação à Ucrânia e à região da Crimeia, ao referir-se a "um conflito sobre áreas de influência e reivindicações territoriais dos séculos XIX e XX, mas que se acreditava ser uma coisa do passado".

Angela Merkel, que cresceu na antiga Alemanha Oriental, fala russo fluentemente e governa um país com fortes relações económicas com a Rússia, era o maior trunfo da União Europeia para levar Vladimir Putin a sentar-se à mesa de negociações com o governo interino da Ucrânia, mas esse cenário é cada vez mais remoto.

Num sinal de que a União Europeia e os Estados Unidos já estão mais à espera de segunda-feira (após a realização do referendo na Crimeia, no domingo), do que de uma reviravolta na situação entretanto, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) suspendeu nesta quinta-feira o processo de adesão da Rússia e aprovou um reforço das relações com a Ucrânia.

Numa rara decisão com contornos políticos, os Estados-membros da OCDE acabaram por apertar o cerco económico à Rússia, que espera há sete anos para entrar numa organização definida pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Alexei Uliukaev, como "uma boa referência para os investidores". Numa entevista à rádio Voz da Rússia, no mês passado, Uliukaev frisou que "ser-se membro da OCDE é um bom sinal para os investidores e torna mais fáceis as decisões sobre investimentos".


Tanto a União Europeia como os Estados Unidos voltaram nesta quinta-feira a afirmar que estão prontos para aprovar sanções concretas contra cidadãos russos que considerem ser responsáveis pelos desenvolvimentos da situação na Ucrânia e na região da Crimeia. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, afirmou que "a Rússia rejeitou todos os esforços para acalmar a tensão" e anunciou que os países da UE vão fazer neste fim-de-semana uma lista com os nomes de cidadãos russos cujos bens serão congelados, apesar de o secretário de Estado norte- americano ter marcado no calendário a próxima segunda-feira como o dia de todas as decisões: "Se não houver nenhum sinal de nenhuma hipótese de andarmos para a frente e de resolver esta questão, daremos uma série de passos na Europa e aqui em relação às opções que estão ao nosso dispor", disse o responsável perante o Congresso norte-americano.