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sexta-feira, 14 de março de 2014

“Depois da Crimeia, vamos ajudar outras regiões a libertar-se de Kiev”


Cartaz de campanha para o referendo: uma Ucrânia fascista ou russa VIKTOR DRACHEV/AFPD
PAULO MOURA (em Simferopol)  -  13/03/2014 – 20:10


A Ucrânia pode vir a ser “como a antiga Jugoslávia, onde cada nação quis a sua independência”, diz um dos líderes do partido que assumiu o poder na Crimeia.

O novo governo da Crimeia tomou o poder com a ajuda da Rússia, para proteger os cidadãos russos da península, e uma acção semelhante poderá vir a ser necessária nas outras regiões da Ucrânia com percentagens significativas de russos entre a população, disse ao PÚBLICO em Sinferopol Sergei Shuvainikov, deputado e conselheiro do primeiro- ministro.

Em Kharkov, Donnetsk, Dnipropetrovsk e Odessa tem havido manifestações de apoio à Rússia, e até assaltos aos parlamentos regionais e outros edifícios públicos por milícias pró-russas, desde que a Crimeia mudou de governo e iniciou o processo de integração na Federação Russa. Isso acontece porque também se sentem ameaçados pelo novo poder de Kiev, explicou Shuvainikov. E portanto deverá ser preciso ir lá ajudá-los. “Espero que isso aconteça”, disse o deputado. “Eles só estão à espera de verem o nosso exemplo, para actuarem da mesma maneira. Nós estamos a aconselhá-los a fazerem isso. E vamos ajudá-los, com o apoio dos nossos amigos russos”.

Sergei Shuvainikov é líder e fundador do Congresso da Sociedade Russa, uma das duas organizações que constituem, desde 2010, a Rússia Unida, a frente minoritária que tomou o poder na Crimeia. Os outros líderes são Sergei Tsekov (hoje vice-presidente do parlamento) e Sergei Aksionov (hoje primeiro-ministro).

Os “três Sergeis”, como lhes chama Shuvainikov, têm há muito o plano de anexar a Crimeia à Rússia, mas não só. O seu conceito é mais abrangente e ambicioso e não descarta hipóteses mais complexas e ousadas. “Regiões como Karkhov ou Donnetsk têm direito a querer a independência, ou a decidir o seu destino. Não é uma coisa inimaginável. Pode dar-se algo idêntico ao sucedido na antiga Jugoslávia, onde cada nação quis a sua independência”.

Mas há outros modelos possíveis, segundo Shuvainikov. “Na História já aconteceu outra possibilidade. No império russo, a Crimeia já esteve unida a outras regiões a nordeste. Uma tal entidade poderia ser viável”.

Shuvainikov considera que a legitimidade dos russos das outras regiões da Ucrânia para se rebelarem é a mesma de que gozam na Crimeia. “Agimos para proteger um milhão de russos em perigo”, explica.
“Quando vimos que o Governo legítimo de Viktor Ianukovich não conseguia defender a sua polícia, nem o regime, decidimos actuar. Assumimos o poder, para fazer um referendo em que os habitantes da Crimeia pudessem decidir o seu futuro. Marcámos para Maio, mas o perigo obrigou-nos a antecipá-lo.”

O “perigo”, diz, foi a rápida ascensão dos “fascistas” em Kiev. “Percebemos que os fascistas poderiam avançar para invadir também o parlamento da Crimeia. Por isso apressámos as coisas, e marcámos o referendo para 16 de Março”.

Sem receio da guerra
A hipótese de que as acções dos “três Sergeis” venham a provocar um conflito armado não parece assustar Shuvainikov. Tudo está a decorrer de acordo com o plano, e assim vai continuar. “A seguir ao referendo, uma delegação nossa irá à Duma de Moscovo. A Duma vai declarar oficialmente a Crimeia como uma república autónoma da Rússia.
Como o é a Inguchétia, o Daguestão ou a Tchetchénia. Depois fará as leis para a Crimeia”.

Quanto aos militares ucranianos que se encontram na Crimeia, na sua maioria cercados nas suas bases, terão, a partir de segunda-feira, de entregar as armas. Depois, quatro hipóteses: “Poderão servir no Exército russo ou na polícia russa, tornar-se civis ou partir para a Ucrânia.” A possibilidade de alguns resistirem não é credível, diz o deputado. “Já os tenho visto em bases aqui em Simferopol, ucranianos e russos juntos, a beberem vodka. Portanto não haverá problemas”.

Interrogado sobre a possibilidade de uma acção militar por parte da Ucrânia, Sergei sorri. “Não conseguirão fazer isso, porque a fronteira está fechada e controlada”, explica. E quem controla essa fronteira? “Três tipos de forças: as milícias de auto­defesa, o novo exército da Crimeia e os soldados russos”.

Afinal sempre vieram soldados russos. “Não, já cá estavam. Há muitas bases. Os soldados russos sempre cá estiveram, na Frota do Mar Negro. Não precisámos de ir buscar mais”. Esses soldados, presentes na Crimeia, “são em maior número do que a totalidade das Forças Armadas da Ucrânia. E têm armamento muito mais sofisticado. Por isso é absurdo imaginar uma guerra contra a Ucrânia”.

Se houver derramamento de sangue, possibilidade que é real, segundo o deputado, será por causa das “provocações”. “Recebemos a informação, no parlamento, de que alguns activistas ucranianos estão a disfarçar-se de soldados russos, para matarem ucranianos, provocando reacções e conflito. Estamos a trabalhar para que isso não aconteça, mas não podemos garantir êxito a 100%. O nosso objectivo é proteger todos os cidadãos da Crimeia, seja de que sector ou etnia forem”.

Interrogado sobre o rapto de Anatoli Kovalski, um prestigiado activista pelos direitos humanos e questões ambientais, que já pertenceu ao governo da Crimeia e é contra a anexação, Shuvainikov explicou: “O primeiro-ministro disse-nos que ele foi visto a rasgar passaportes de cidadãos russos, para os impedir de votar. Mas não sei se ele foi raptado.
Pode ser um rumor. De qualquer forma não fui eu que o mandei raptar. Foram os serviços secretos russos”

Também foram os serviços secretos russos, disse Shuvainikov, que em 27 de Fevereiro tomaram de assalto e içaram a bandeira russa no parlamento em Sinferopol, ainda que ajudados por milícias de auto­defesa. Esse grupo de homens armados e mascarados cercou o parlamento e instalou-se lá enquanto os deputados demitiam o governo e nomeavam outro, dirigido pelos líderes do Rússia Unida, partido que obteve pouco mais de 3% dos votos nas últimas eleições.

23 anos à espera
“Esperava por este momento há 23 anos”, diz Sergei Shuvainikov. “Desde o colapso da URSS que estamos a trabalhar para integrar a Crimeia na Rússia. Sou activista dessa causa desde que vim para cá. Criei jornais, organizações, fui perseguido, mas nunca desisti. Agora surgiu uma oportunidade histórica. Se os fascistas não tivessem tomado o poder em Kiev, não o teríamos conseguido tão cedo. É um momento histórico para a Crimeia”.

Sergei Shuvainikov nasceu na Rússia, na região siberiana do lago Baical. Estudou História e Literatura em Moscovo, mas nunca foi comunista.
Criou organizações de defesa de direitos humanos e das minorias. Por isso foi perseguido, chegou a ser preso. Foi para fugir ao KGB que veio para a Crimeia.
Mas nos anos 80 escreveu um livro contra a Perestroika. Nunca se conformou com o fim da União Soviética.


“Na História recente da Crimeia houve três tragédias”, diz. “A primeira ocorreu em 1944, foi a deportação dos tártaros por Estaline. A segunda, em 1954, foi a oferta da Crimeia à Ucrânia, por Krutchov. A terceira, em 1991, foi o colapso da URSS, por Gorbatchov”. Sob a liderança dos três Sergeis”, a justiça histórica começa em 2014.

Confrontos entre manifestantes ucranianos e pró-russos em Donetsk fazem um morto

A polícia não foi eficaz a separar os manifestantes Reuters
 PÚBLICO 13/03/2014 - 23:13
Cidade no Leste do país com maioria russófona viveu episódio mais violento desde os últimos dias do regime de Ianukovich.

Pelo menos uma pessoa morreu e mais de uma dezena ficaram feridas em confrontos entre uma manifestações pró-russa e outra pró-ucraniana em Donetsk, uma cidade onde no Leste da Ucrânia onde a maioria da população é russófona.

É o pior episódio de violência desde os últimos dias do Presidente Viktor Ianukovich no poder em Kiev, quando uma centena de pessoas morreram, a maioria delas vítimas de atiradores furtivos da polícia.

Os organizadores da manifestação pró-novo poder em Kiev dizem que a vítima mortal – que foi esfaqueada - era um jovem de 22 anos, do seu campo, que estava a protestar contra a invasão e tomada do poder na Crimeia pela Rússia. Outras 15 pessoas estão em tratamento no hospital, adianta a Reuters.

Activistas contra a invasão da Crimeia dizem que dois outros manifestantes morreram - uma informação que corria nas redes sociais -, mas não havia nenhuma informação oficial que o corroborasse.

A agência noticiosa diz que os jornalistas viram a polícia falhar repetidamente nas tentativas de manter as duas manifestações separadas. Os participantes nos protestos atiraram bombas de fumo e outros projécteis uns aos outros e havia brigas espalhadas por todo o lado. Os manifestantes pró-Rússia queimavam bandeiras e até cachecóis do clube de futebol local, o Shakhtar Donetksk - como dizia uma jornalista ucraniana no Twitter, Kateryna Kruk, “é a melhor prova de que isto é uma invasão de vândalos russos”.


Donetsk, a cidade que era o centro do poder de Ianukovich, tem vivido uma grande agitação, também com reivindicações separatistas, como acontece na Ucrânia, e não é a primeira vez que surgem acusações de que as manifestações pró-russa são alimentadas com excursões de manifestantes russos, vindos do outro lado da fronteira.

quarta-feira, 12 de março de 2014

John Kerry diz que a Rússia quer solução diplomática para resolver a crise na Ucrânia

 PÚBLICO 05/03/2014-08:31 (actualizado às 21:13)
 Encontros sucederam-se em Paris. Ministro russo reuniu com chefes da diplomacia da França, Estados Unidos. Reino Unido e Alemanha. Ucrânia acusou forças russas de terem tomado controlo parcial de uma base de lançamento de mísseis na Crimeia.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerrv. disse esta noite em Paris ter recebido indicações do interesse da Rússia em encontrar uma solução diplomática para resolver a crise na Ucrânia. “Existem várias ideias em cima da mesa”, notou Kerry, garantindo que as negociações estão em aberto e informando de novos encontros nos próximos dias.

O governante norte-americano falou aos jornalistas no fim de um dia de intensos contactos diplomáticos em Paris, que juntaram os responsáveis dos Negócios Estrangeiros dos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Rússia. O encontro foi promovido pelo Presidente francês, François Hollande.

A reunião em que participaram John Kerry, Sergei Lavrov, William Hague, Laurent Fabius e Frank- Walter Steinmeier começou ao início da tarde, avançou a Reuters.

Repetindo que os Estados Unidos consideram que a Rússia “errou” ao movimentar as suas tropas na Crimeia, e observando a unidade da comunidade internacional na condenação da decisão de Moscovo, o chefe da diplomacia norte-americana insistiu que “a violação da soberania da Ucrânia não ficará sem resposta” - e que esta poderá passar pela aplicação de sanções. “Essa é uma possibilidade que não está afastada” garantiu.

Sem produzir nada de concreto, as discussões vão continuar esta quinta-feira em Bruxelas, onde os ministros da União Europeia reunirão com os dirigentes ucranianos, e também em Roma, onde John Kerry voltará a conversar com o seu homólogo russo, Sergei Lavrov.

“Iniciámos um processo que, segundo todos esperamos, nos poderá conduzir num sentido contrário à da escalada dos últimos dias. Foi muito construtivo, mas temos de ser realistas: estas são matérias duras e difíceis e o momento é muito sério. Mas pelo menos hoje já nos encontramos numa situação mais favorável do que ontem”, considerou John Kerry.

A AFP noticiou que os chefes da diplomacia norte-americana e russa, Kerry e Lavrov, conversaram directamente, na presença de François Hollande, após um almoço do grupo de trabalho internacional sobre o Líbano, no momento do café, no terraço do Eliseu. Um jornalista da AFP confirmou o encontro, em que, afirmou, também estavam Fabius e Steinmeier.

Anteriormente tinha sido anunciada a ausência do ministro russo Lavrov noutra reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros em que, com a presença do ministro interino da Ucrânia, Andri Deshchitsia, foi discutida a crise. Essa ausência foi confirmada pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry: "Tinha zero expectativas que esse encontro pudesse acontecer. Mas também não foi para isso que pedimos ao ministro para vir aqui", confessou.

O ministro britânico, William Hague, esteve também reunido com Andri Deshchitsia, entre outros, na residência do embaixador norte-americano em Paris. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, também esteve presente, segundo a BBC.

Os encontros desta quarta-feira antecedem uma cimeira extraordinária da União Europeia sobre a Ucrânia, marcada para quinta-feira. Durante a manhã, Kerry, que terça-feira esteve na Ucrânia, esteve em contacto com Hague e com o ministro interino dos Negócios Estrangeiros ucraniano.

Entretanto, os ministros dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, dos EUA e da Ucrânia concordaram quanto à necessidade de enviar observadores internacionais para a Crimeia e para o Leste do país. A OSCE anunciou esta quarta-feira que pretende enviar um grupo de monitores de 18 países para a Ucrânia. "Estamos concentrados na situação urgente no terreno na Ucrânia neste momento", afirmou o representante dos EUA na organização, Daniel Baer.

À chegada a Paris, Andri Deshchitsia teve palavras de diálogo. "Queremos dizer algumas coisas aos russos. Queremos manter um bom diálogo e boas relações com o povo russo. Queremos resolver este conflito de forma pacífica e não queremos lutar contra os russos", afirmou, citado pela Reuters.

Esta quarta-feira de manhã, Lavrov afirmou, no final de uma visita a Madrid, que o Ocidente deu um mau exemplo ao apoiar manifestantes que tomaram o poder na Ucrânia, violando a Constituição do país. "Não permitiremos um banho de sangue na Ucrânia. Não permitiremos qualquer atentado contra a vida e a saúde dos que vivem na Ucrânia, nem contra os russos que vivem na Ucrânia", afirmou.

Na linha das declarações de Putin, que na terça-feira afirmou que não há tropas russas em acção na Crimeia, Sergei Lavrov disse em Madrid que o Governo de Moscovo não pode ordenar aos homens armados que actuam na região da Crimeia que regressem às suas bases porque são “forças de autodefesa” e não soldados russos.

“Se se está a referir às unidades de autodefesa criadas por residentes na Crimeia, não lhes damos ordens, não recebem ordens nossas”, disse numa conferência de imprensa com o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Jose Manuel Garcia-Margallo. “Quanto ao pessoal militar da frota do Mar Negro, está nas suas bases.”

O ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Laurent Fabius, disse, esta quarta-feira, que as potências internacionais devem procurar retomar o diálogo sobre a Ucrânia. As autoridades de Kiev devem trabalhar tanto com a União Europeia como com a Rússia, "não com uma ou com a outra", afirmou, citado pela Reuters.

O secretário do Conselho de Defesa e Segurança da Ucrânia, Andri Parubi, disse a jornalistas esperar que a crise na Crimeia possa ser resolvida pelo diálogo, em breve. "A noite passada houve poucas situações de emergência e poucos conflitos", declarou. "Espero que nos próximos dias seja encontrada forma de resolver tudo através de negociações".

A rejeição pela Ucrânia, ainda liderada por Viktor Ianukovich, de um acordo de associação e comércio livre com a União Europeia, e a aproximação à Rússia, em Novembro, deu origem aos protestos de rua que levaram à actual crise político-militar.

Os Estados Unidos acusam os russos de terem deslocado tropas para a Crimeia, num "acto de agressão". O Governo de Moscovo argumenta com a necessidade de defesa dos habitantes de origem russa e declarou que no terreno estão apenas "tropas de autodefesa". Na terça-feira, Kerrv manifestou surpresa pela negação de Putin da presença de soldados de Moscovo na Crimeia.

A Rússia assumiu nos últimos dias o controlo de facto daquela região ucraniana, onde a tensão se mantém mas sem episódios de violência. Já nesta quarta-feira, o Governo interino da Ucrânia acusou forças russas de terem tomado o controlo parcial de uma base de lançamento de mísseis na Crimeia

Bandeira ucraniana em Donetsk
A bandeira ucraniana voltou nesta quarta-feira a ser hasteada no edifício da administração local de Donetsk, no Leste do país, substituindo a russa que ali tinha sido colocada no sábado. Testemunhas citadas pela Reuters informaram que o edifício, que estava ocupado desde segunda-feira por manifestantes pró-russos, foi evacuado pela polícia.
A operação decorreu na sequência de informações de que as instalações estariam armadilhadas com bombas.

Um alto responsável da administração Obama citado pela Reuters disse, entretanto, que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propôs ao líder russo, Vladimir Putin, que faça regressar as tropas que tem na Crimeia às suas bases, e que em troca sejam enviados para a região observadores internacionais que garantam os direitos da população russófona. O assunto, abordado na conversa que Obama e Putin tiveram no sábado, foi também discutido com a chanceler alemã Angela Merkel, com quem Obama falou na terça-feira sobre a situação na Ucrânia.


Os Estados Unidos voltaram também a repetir que Obama não estará presente na cimeira do G8 marcada para Junho em Sochi, na Rússia, a menos que haja uma alteração na posição do Governo de Moscovo sobre a Ucrânia.

Jornalistas da Crimeia são proibidos de fazer a cobertura do referendo

Manifestação pró-russa em Sebastopol, na Crimeia VIKTOR drachev/afp
PAULO MOURA (em Sinferopol) 12/03/2014 - 20:00
Televisões ucranianas foram silenciadas pelo novo poder na península que se quer entregar à Rússia. Os jornalistas lêem as notícias que lhes põem à frente e são impedidos de cobrir os acontecimentos. "Tenho vergonha", diz uma conhecida jornalista, que agora empresta o rosto à propaganda oficial.

Há mais do que uma forma de silenciar a verdade. Elvira e Natasha sabem hoje isso, cada uma à sua maneira. São ambas pivots em canais de televisão da Crimeia. Elvira na TV Mar Negro, uma estação privada ucraniana, com sede em Kiev, Natasha na CrimTV, um canal estatal.

À entrada do edifício da TV Mar Negro há dois aquários, um póster de Iulia Timoshenko, a líder do partido ucraniano Pátria, e um monitor com a emissão do canal. Mas a imagem que surge no ecrã é a do Rossyia 24, um canal russo.

Elvira Jallal, 21 anos, é pivot dos noticiários e repórter especializada em crimes e conflitos. Diz ser jornalista por vocação, estudou Comunicação Social na Universidade de Teveride, em Simferopol. É filha de mãe ucraniana e pai afegão, tem olhos escuros e a pele clara, e é o rosto da TV do Mar Negro. Há duas semanas, maquilhou-se, sentou-se como habitualmente no estúdio do 3º andar para ler as notícias, quando reparou que no monitor onde deveria aparecer o genérico que precede a abertura do jornal havia uma imagem estranha.

“Quando olhei, vi que no ecrã estava um programa do Rossyia 24. O novo governo da Crimeia cortou a nossa emissão, sem avisar. Simplesmente bloqueou o sinal da antena”. A TV Mar Neero continuou a emitir apenas por cabo e satélite. Mais de 50% da audiência ficou sem o canal.

Os 11 jornalistas dos estúdios de Sinferopol continuaram a trabalhar, apesar de já não serem vistos em antena aberta. Mas mesmo assim as autoridades tentam bloquear-lhes o acesso a todos os acontecimentos relevantes da península. “As milícias russas são muito agressivas connosco”, diz Elvira. “Bloqueiam-nos a entrada em todo o lado. Há dias fui fazer uma reportagem à zona de entrada na península. Fomos barrados num checkpoint, e quando viram quem éramos, fizeram-nos entrar num carro, com um homem armado, levaram-nos para um local onde nos fizeram esperar meia-hora, até receberem ordens. Depois transportaram-nos para longe dali”.

“Não nos deixam fazer nada”
Quando o representante do secretário-geral da ONU foi ameaçado e obrigado a refugiar-se num café em Simferopol, Elvira correu para lá. Uma vez no local, proibiram-na de falar com Robert Serry.
Ameaçaram tirar-lhe a câmara e obrigaram-na a afastar-se.

“Os grupos de auto-defesa não me deixam fazer nada. Tenho muito medo. Eles agridem os jornalistas, apreendem o material. E está cada vez pior, em cada dia”.

Quanto ao referendo do próximo domingo, as autoridades já fizeram saber aos jornalistas locais que a cobertura vai ser proibida. “Disseram-nos que não poderemos filmar nos locais de voto, nem entrevistar ninguém”, diz Elvira. “Por mim, também não tenho vontade de noticiar o referendo. Tal como tenciono boicotar a votação, por considerar o referendo ilegal, também gostaria de boicotar a cobertura. Mas farei o que os meus editores decidirem”.

Elvira não se imagina a fazer jornalismo numa Crimeia governada por Moscovo. “Eu sei como é o jornalismo na Rússia. Por isso, se a anexação se concretizar, já estou a preparar o meu portfolio, para tentar encontrar trabalho noutras regiões da Ucrânia, ou na Europa. Tenho muita pena, porque gostava de trabalhar aqui”.

Antes, praticava-se na TV Mar Negro um jornalismo livre, embora não totalmente, admite Elvira. O canal é propriedade de dois deputados do Pátria, partido sobre o qual não convinha fazer reportagens muito negativas. “Mas podia-se criticar, até certo ponto. E abordar todo o tipo de temas. Agora, o que tentamos fazer é dizer a verdade sobre o que se passa. Os canais russos mentem, manipulam, só fazem propaganda”.

Tal como a TV Mar Negro, todos os outros canais ucranianos, incluindo o Chanel 5 e o 1+1, foram silenciados na Crimeia, substituídos por canais russos. A excepção foi o canal da comunidade tártara, cuja emissão prossegue normalmente. Não se sabe porque foi poupado, nem até quando.

O caso do CrimTV é diferente. As milícias russas vieram e encerraram o canal por um dia. A seguir reabriram, com um novo “produtor”, e nova “linha editorial”. O CrimTV é um canal de notícias. Como é do Estado, mudou de mãos, como tudo o resto. Margarita, uma jornalista a quem incumbiram de impedir o acesso de estranhos (incluindo repórteres estrangeiros) à redacção, garante que tudo está a funcionar normalmente. E ainda declara, com voz indignada, que quem decidiu encerrar os outros canais da Crimeia foi o governo de Kiev, “porque já abandonou o povo da Crimeia”.

A um canto do jardim em frente do edifício, porém, Natasha e uma amiga fumam um cigarro. Não falam muito com os outros cerca de 40 jornalistas porque, explicam, “ninguém confia em ninguém. Não queremos saber quem é que está de um lado e do outro. Já ninguém discute nada. Estamos todos muito cansados”.

Natasha, 28 anos, uma franja de cabelo castanho claro cortada em linha recta sobre os olhos verdes, e maquilhada para entrar no ar, é a do canal. Lê os noticiários de hora a hora, durante o dia inteiro.

Estudou russo e literatura na universidade, mas optou por trabalhar em jornalismo, desde há oito anos, por influência da irmã mais velha, também jornalista, que trabalha em Kiev. “Este canal nunca foi totalmente livre, porque é estatal”, diz Natasha. “Sempre houve algumas interferências. Mas era possível criticar o Governo”. Agora, os jornalistas são obrigados a dizer o que lhes mandam. Natasha sempre escreveu as notícias que lia. Agora lê textos que lhe são entregues previamente escritos.

"Não concordo com o que leio"
“Não concordo com nada do que leio. Mas não posso desobedecer, ou serei despedida. E eu não tenho outro emprego para onde ir. Sou obrigada a aceitar. Nenhum jornalista se demitiu”. Nas notícias que lê, Natasha é obrigada a referir-se ao governo de Kiev invariavelmente como “fascistas” ou “nazis”. Ela que tem amigos e familiares noutras regiões da Ucrânia, que apoiam o novo governo saído da revolta da Maidan. É obrigada a noticiar que os “fascistas” estão a caminho para atacar os russos da Crimeia, que os militares russos vieram para ajudar, que só o referendo que levará à anexação os pode salvar, que as condições económicas serão muito melhores depois da anexação, etc.

“Eu sou ucraniana. Não quero mudar”, sussurra Natasha, cujo rosto é famoso na Crimeia. As pessoas conhecem-na e confiam nela. As suas mentiras, sabe-o, assumem uma gravidade maior. Por isso sente que está a trair. “Não sei o que fazer. Não posso perder este emprego. Mas tenho vergonha. O que faria no meu lugar?”, diz ela, num esforço por se justificar, perante jornalistas.

Depois do referendo, Natasha tenciona sair da Crimeia. Não sabe exactamente quando, talvez no dia em que a obriguem a alterar os documentos de identificação. O jornalismo nunca foi por aqui uma actividade muito livre ou nobre, na generalidade dos casos. Mas o que acaba de acontecer fez Natasha questionar-se pela primeira vez sobre a sua missão. “O que devo fazer?”, repete ela. “O que devo fazer?”


Num gesto em tudo semelhante ao das novas autoridades russas da Crimeia, o governo de Kiev encerrou os canais russos, que deixaram de poder ser vistos em território ucraniano. O Rossyia 1, o Rossya24, a NTV o Chanel1, todos eles foram cancelados, substituídos pelo sinal das estações ucranianas, em nome da “segurança nacional”. Pelo menos na propaganda, começou a guerra sem quartel.

EUA aprovam sanções e enviam caças F-15 para proteger os estados bálticos

As sanções incluem o congelamento de vistos CHIPSOMODB/ILLA/AFP

PÚBLICO 06/03/2014 - 14:24
Casa Branca anuncia congelamento de vistos a "responsáveis ou cúmplices de ameaças contra a soberania e a integridade territorial da Ucrânia".

Sem esperar pelos resultados da cimeira extraordinária da União Europeia sobre a situação na Crimeia, os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira um conjunto de sanções a aplicar aos "indivíduos e autoridades que puseram em causa a integridade territorial da Ucrânia”.

As medidas, aprovadas através de uma ordem executiva do Presidente dos EUA, Barack Obama, incluem o congelamento de vistos a russos e ucranianos que sejam "responsáveis ou cúmplices de ameaças contra a soberania e a integridade territorial da Ucrânia", avança a Casa Branca.

Para além do congelamento de vistos, Barack Obama assinou uma outra ordem executiva, que abre caminho à imposição de sanções adicionais, que poderão incluir o congelamento de contas nos Estados Unidos e a proibição da realização de negócios entre norte-americanos e russos e ucranianos que os EUA considerem ser responsáveis por violar a soberania da Ucrânia.

"A ordem executiva [do Presidente Barack Obama] é uma ferramenta flexível que nos permitirá aplicar sanções aos que estão mais directamente envolvidos na destabilização da Ucrânia, incluindo a intervenção militar na Crimeia, e não exclui a tomada de outras decisões, se a situação se deteriorar", disse o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, está nesta quinta-feira em Roma, onde se encontrou pela segunda vez com o ministro dos Negócios Estrangeiros. No final do breve encontro, Serguei Lavrov disse que não há ainda um acordo entre os dois países sobre a crise na Ucrânia.

Ao mesmo tempo que a Casa Branca anunciava a aplicação de sanções, seis caças F-15 norte-americanos partiam do Reino Unido em direcção à base da NATO em Siauliai, na Lituânia, para reforçarem as forças da aliança na região. Em declarações à agência AFP, o ministro da Defesa da Lituânia, Juozas Olekas, disse que o envio destes caças pelos Estados Unidos é uma resposta à "agressão da Rússia na Ucrânia e à intensificação da actividade militar russa na região de Kalinigrado”, um enclave russo situado entre a Lituânia e a Polónia.

A Marinha norte-americana anunciou entretanto a partida do contratorpedeiro USS Truxtun para o mar Negro, numa missão que descreveu como sendo "de rotina". Equipado com mísseis teleguiados e com uma tripulação de 300 efectivos, o navio vai efectuar "exercícios previamente planeados" com as forças navais da Roménia e Bulgária.


terça-feira, 11 de março de 2014

O traumatismo ucraniano


OPINIÃO
RUI TAVARES  03/03/2014 – 08:02
 Não gosto nada quando isto acontece. Na semana passada escrevi uma crónica sobre a Ucrânia, chamei-lhe “Já basta uma tragédia” (a outra é a Síria) e, quando o enviei, fiquei com a sensação de que tinha sido alarmista. Hoje dá a sensação de que afinal pequei por defeito e não por excesso.

Três notas sobre o que se está a passar na Crimeia.

A primeira é a histórica. Na semana passada aludi à Guerra da Crimeia, que apesar de anteceder a Ia Guerra Mundial em pouco mais de 60 anos, pode dela ser considerado precursora. O que se esquece é que a Crimeia, em si, foi apenas um objeto colateral dessa guerra. Ela foi combatida na Crimeia porque a França, a Grã-Bretanha e o Império Otomano assim o escolheram. O objetivo do Império dos Czares era combater essa guerra do outro lado do Mar Negro, auxiliando os eslavos e ortodoxos sob dominação otomana para poder chegar a Constantinopla, hoje Istambul, e conquistar a “segunda Roma” (sendo que tinham já a “terceira Roma”, Moscovo) aos sultões muçulmanos. Esse objetivo manteve-se. As outras potências europeias desejavam exatamente o contrário: não queriam uma Rússia que dominasse o Médio Oriente (e esta tensão prolongou-se durante a Guerra Fria, já com a URSS). A Crimeia não um objetivo em si — mas também por isso uma guerra que começou na Crimeia se expandiu por todo o Mar Negro, o Danúbio, o Cáucaso, e até o Báltico e, em alguns casos isolados, o Pacífico.4

A segunda nota é sobre a resposta da UE e dos EUA. É evidente que Putin quer punir a Ucrânia por esta ter escolhido o “Ocidente”. Como quem diz: podes sair de casa, mas eu fico com o que eu quiser. Do lado ocidental, a escolha é entre uma nova guerra fria — congelar os laços com a Rússia — ou uma nova guerra quente que ninguém quer imaginar. Ao contrário de há cem anos, hoje há arsenais nucleares. Seria trágico que fosse agora, mais de 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, que a Rússia e os EUA entrassem na guerra que se conseguiu evitar durante todo o século passado.

A terceira nota é sobre a própria Rússia. Esta posição de força esconde grandes fraquezas. Por muito nacionalismo que lhe sirvam na televisão, o povo russo vê para lá de Putin. As desigualdades são enormes, a oligarquia vive à grande e às claras, e não se pode comer gás natural: ele tem de ser vendido para algum lado. A Rússia, envelhecida e demasiado dependente das suas reservas de combustíveis fósseis, não se pode dar ao luxo de cortar com o resto da Europa. Putin está numa posição aparentemente sólida, mas isso é hoje, não daqui a meses ou anos. Não é de excluir até que a sua mensagem seja tanto para dentro como para fora. Como quem diz aos russos: não pensem em fazer o mesmo que os ucranianos. Mas Putin deveria talvez refletir que a tal Guerra da Crimeia, ou a Ia Guerra Mundial (ou, antes dela, a Guerra Russo-Japonesa de 1905), foram ocasiões em que um senhor da Rússia se expôs demais e a Rússia acabou mudando de senhor, num dos casos de forma rápida e inclemente.
Seja como for, a verdade é que começamos o ano perguntando-nos como foi possível que, há um século, a Europa tenha entrado em guerra tão rapidamente. E agora vemos como é fácil fazê-lo — difícil, embora ainda possível, evitá-lo.


Historiador

segunda-feira, 10 de março de 2014

Análise: que vai na cabeça de Vladimir Putin?


JORGE ALMEIDA FERNANDES – 06/03/2014  -  23:58
 O Presidente russo «brinca com o fogo», mas os seus objectivos não são claros. Putin está refém da Crimeia, mas o Ocidente precisa de compreender que demonizar o líder russo não passa de um álibi para a ausência de uma política para enfrentar esta crise.

1. Um momento diplomático de “desescalada” não deve ser tomado como uma aproximação da resolução do conflito. É apenas um “arrefecimento” enquanto os actores continuam a mover as suas pedras. Há uma questão prévia a todas as movimentações: qual é o objectivo da ocupação da Crimeia por Moscovo? Tudo se resume, diz um analista, a uma simples pergunta cuja resposta não é óbvia: “A visão de Vladimir Putin é da ordem mundial.

  Visa Putin compensar a perda de Ucrânia pela anexação da Crimeia? Seria uma troca estrategicamente desvantajosa, apesar de a Crimeia ser a chave do mar Negro. Visa colocar Moscovo numa posição de força para uma grande negociação sobre a Ucrânia? É a hipótese mais credível, significando uma estratégia indirecta para recuperar influência na Ucrânia e reafirmar o seu estatuto internacional.

  Ou, na hipótese extrema, traduz um projecto de “reconquista” ou de divisão da Ucrânia, o que, por sua vez, implicaria uma radicalização perante os vizinhos ex-soviéticos. A Moldávia poderia ser o próximo alvo.     Significaria recusar — como antes a União Soviética — os princípios da soberania nacional e da intangibilidade das fronteiras, tentando restaurar a sua antiga “esfera de influência”. Seria a aposta numa  nova Guerra Fria.

2. Todo este processo foi composto por ciclos de surpresa e reacção. Em Novembro, Moscovo marcou pontos ao levar Viktor Ianukovich a desistir da adesão da Ucrânia à Parceria Oriental da UE. Esta foi apanhada de surpresa. Outra surpresa logo se seguiu: a mobilização “Euro-Maidan”, que constituiu uma derrota e uma ameaça para Moscovo. A Europa descobria que a sua fraqueza política era compensada por uma magnética atracção sobre os ucranianos. O desfecho foi rápido: fuga e destituição de Ianukovich a 22 de Fevereiro. Acto seguinte: numa semana, Moscovo “perdeu a Ucrânia e recuperou a Crimeia”. Kiev e os ocidentais foram, de novo, apanhados de surpresa. É uma situação propícia a espirais de tensão e ameaças.

   “Vladimir Putin brinca com o fogo”, diz o analista francês Dominique Moisi. Por que agiu tão rapidamente? O fracasso em Kiev «destruiu o mito da potência russa”, argumentou o analista alemão Jan Techau. Foi uma   humilhação pessoal para Putin e, logo, uma ameaça ao seu próprio poder. Mais: se olharmos para o mapa,     a Ucrânia é o elo fundamental para a união aduaneira que ele ambiciona transformar numa futura “União       Euro-Asiática”.
Sem Ucrânia, esse projecto não tem sentido. Há, por fim, a obsessão russa com a ameaça do Ocidente — a  “paranóia do cerco”. A “paranóia” não é exclusiva de Putin, é partilhada por grande parte da elite russa.

3. A Rússia não tem meios para relançar uma nova Guerra Fria. É uma “potência enorme” mas com pés de barro. O que caracteriza a Rússia de Putin é ter optado por uma “competição estratégica” com o Ocidente. Quem mais adverte contra o regresso da Guerra Fria são analistas russos, uns por real temor, outros por razões de propaganda.

   De todas as hipóteses de racionalização da ocupação da Crimeia, a mais provável é Putin estar a 
tentar criar uma nova relação de forças no terreno na perspectiva de uma grande negociação sobre a Ucrânia com os ocidentais.

   O analista Thomas Gomart, director do desenvolvimento estratégico no Instituto Francês de Relações       Internacionais (IFRI) enuncia três objectivos de Putin. Primeiro, assumir o controlo da Crimeia e criar um       facto consumado, mantendo a ambiguidade sobre a Ucrânia. Uma das possíveis saídas seria a              “federalização” do país de forma a limitar a independência de Kiev. É uma ideia que a imprensa alemã diz 
ser bem acolhida por Angela Merkel. De facto, daria a Moscovo um “direito de veto” sobre a política             externa ucraniana através da sua influência nas regiões russófonas do Leste. É um exemplo das muitas           implicações da “grande negociação”.

   Gomart evoca depois a vontade de Moscovo testar a solidariedade ocidental e impor uma «derrota simbólica» a Washington, com escassos meios para contrariar Moscovo na Crimeia. Por isso, uma das questões fundamentais das próximas semanas “reside em manter a coesão ocidental perante o golpe de força e na redefinição de uma política global perante a Rússia”.

    Samuel Charap e Keith Darden, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) de Londres, consideram ser cedo para ter certezas em relação à opção russa. Num primeiro cenário, Moscovo terá reagido a uma derrota que atribui a um “complot ocidental” e que visaria integrar a Ucrânia na NATO e ameaçar as suas bases na Crimeia. Neste caso, terá sido uma “acção reactiva”. Numa segunda grelha de análise, os movimentos militares traduziriam “uma mudança fundamental dos princípios subjacentes à política de expansão territorial agressiva conduzida pela Rússia”. É a hipótese inquietante, com alto risco de levar a um confronto. Se o primeiro cenário for o verdadeiro e “a Rússia não tiver o desígnio de despedaçar a Ucrânia, os ocidentais acabarão por encontrar um terreno de acordo com Moscovo”.

    É preciso ter em conta outro factor. Putin está agora refém da Crimeia, olhada pelos russos como “terra russa”. Diz à AFP o analista Alexei Makarkine: “A Rússia foi longe de mais. Se se anunciasse agora que a Crimeia não pode ser incorporada na Rússia, as pessoas não compreenderiam.” Corrobora outro analista russo, Pavel Felgenhauer: “A propaganda assumiu tal dimensão no país que Putin não pode fazer marcha atrás.”

    Vários analistas ocidentais, europeus e americanos, criticaram a falta de atenção da UE e dos EUA aos interesses e aos fantasmas russos. Um deles foi Henry Kissinger. Antecipando uma perigosa maratona diplomática, escreve que a Ucrânia deve poder escolher livremente o seu sistema político e as suas associações internacionais mas não pode ser integrada na NATO. A Rússia “tem de aceitar que tentar fazer da Ucrânia um satélite e voltar a mudar as suas fronteiras condena Moscovo a repetir a sua História de ciclos de tensão com a Europa e os Estados Unidos. O Ocidente deve compreender que, para Rússia, a Ucrânia nunca poderá ser um país estrangeiro”. E deixa um recado: “Para o Ocidente, a demonização de Vladimir Putin não é uma política; é o álibi para a falta de uma [política]."